“Ele gostava de meninas novas que se vestissem de criança”. Essa frase é de uma das vítimas do milionário brasileiro Saul Klein, herdeiro das famosas Casas Bahia e um exemplo clássico de como um abusador pode passar a vida toda praticando crimes contra vulneráveis impunemente.
Na semana passada, foi noticiado que o empresário de 72 anos, finalmente, virou réu por exploração sexual de mulheres e formação de organização criminosa. Isso significa que ele deve ser julgado. Mas, mesmo assim, ainda não é possível sentir nenhum senso de justiça. Pelo contrário, esse é um daqueles casos que fazem a gente pensar que os ricos e poderosos nunca pagam pelos seus crimes, principalmente quando eles são cometidos contra meninas vulneráveis e pobres.
Qualquer semelhança com o poderoso pedófilo Jeffrey Epstein não é coincidência. Os dois têm muito em comum: além de pedófilos e abusadores, os milionários, munidos de bons advogados e amigos poderosos, passaram décadas praticando crimes impunemente.
Herança de família
No caso de Saul, a história é ainda mais bizarra, se é que isso é possível, já que seu pai, Samuel Klein, morto em 2014, também foi acusado de manter por 30 anos, um esquema de aliciamento sexual, inclusive de menores de idade, dentro da sede da empresa, em São Caetano do Sul. O caso foi revelado, em 2020, pela Agência Pública.
As vítimas, tanto do pai quanto do filho, eram meninas pobres, que buscavam dinheiro e experiências às quais nunca teriam acesso. “Aquela foi a primeira vez que eu andei de táxi”, conta uma vítima de Saul Klein no documentário Saul Klein, o Império do Abuso, produzido pelo UOL em 2021 e disponível no YouTube. “Minha irmã me disse que, se eu fosse lá (no escritório de Samuel Klein), ganharia um sapato novo”, conta uma vítima de Samuel, em reportagem da Agência Pública. Esses abusadores não se aproveitam apenas de meninas, mas também da miséria que, como empresários ricos, ajudam a perpetuar.
Jeffrey Epstein fazia o mesmo, recrutando meninas em bairros pobres.
Se você assistir também ao documentário Podres de Rico, sobre Epstein, disponível na Netflix, vai ver que os casos são realmente parecidos.

Aldeia de cúmplices
O que os assemelha também é a cumplicidade de poderosos e de milhares de pessoas que testemunharam os crimes sem fazer nada.
Quantos funcionários e parceiros da Casas Bahia sabiam dos crimes de Samuel e do seu filho Saul e passaram pano? É preciso toda uma aldeia para encobrir crimes escabrosos. Mas quem liga para meninas pobres?
No documentário do UOL, uma das meninas conta que garotas ficavam sentadas nos sofás da loja e todos viam. Essa cumplicidade fazia com que elas achassem que não estavam fazendo nada de errado. Faz sentido. Se adultos achavam aquilo normal, como adolescentes vulneráveis achariam que não era?
É assustador que o mesmo tipo de abuso passe de pai para filho. Mas, deixando de lado a tentação de psicanalisar o caso, essa é mais uma prova de que, se você é homem, branco e rico, pode fazer qualquer coisa no Brasil. Até praticar abuso e violência como se isso fosse uma espécie de “tradição familiar”. É como se o filho herdasse do pai não só dinheiro e uma rede de varejo de sucesso, mas também a permissão para ter um harém, constituído às custas de muita dor e até da vida de meninas.
Outra coincidência macabra entre os dois casos é essa: no caso Jeffrey Epstein, Virginia Giuffre, uma das primeiras a denunciar o magnata, se matou em 2025. No caso Saul, o mesmo aconteceu com Stephany Guimarães da Silva, modelo e estudante, que cometeu suicídio com 23 anos. Sua morte foi um dos estopins para que outras mulheres denunciassem a rede de exploração.
Sugar daddy?
A defesa de Saul já desistiu de contestar o fato de que Saul Klein mantinha uma rede de jovens com quem tinha relações sexuais, mas decidiu tentar tornar tudo mais “light”. Segundo essa versão, Klein seria apenas um “sugar daddy” (homens mais velhos que têm relações sexuais com jovens em troca de dinheiro e presentes) e as relações seriam “consensuais”. Detalhe: há denúncias de mulheres que contam que tiveram relações com o herdeiro quando eram menores de idade. Sexo com menores é estupro de vulnerável, simples assim. Além disso, é claro que Saul Klein mantinha uma rede de exploração sexual de mulheres, com direito a tortura e toda sorte de sadismo. Os testemunhos das vítimas deixam isso muito claro.
Mas, mesmo assim, ainda é difícil acreditar em justiça. Mesmo descrente, tenho certeza de que a condenação de Saul Klein seria não apenas justa, mas também uma reparação às vítimas dele e de seu pai. Samuel Klein morreu em 2014, com 91 anos, e recebeu as honras de um homem inocente e empresário bem sucedido. O mesmo não pode, de forma alguma, acontecer com Saul. Que ele pague em vida.