Extrema direita investe em influenciadoras sexies geradas por IA

Perfis de “gostosas trumpistas” criadas por Inteligência Artificial invadem redes sociais
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Zola é uma linda mulher de seios fartos e bumbum proeminente. No TikTok, ela exibe o corpo usando decotes e roupas de ginástica. Ela é senegalesa e mora na Alemanha há mais de uma década, onde estuda Enfermagem. A jovem usa com frequência um boné da AfD (o partido de extrema direita da Alemanha, que é contra a imigração e propaga ideias racistas). “As pessoas não entendem que você pode ter a pele escura e apoiar a AfD, mas é que eu amo a Alemanha”, ela diz.

Numa das fotos, Zola aparece de costas, abaixada, com o bumbum empinado. Em seus shorts, o logo da AfD está em destaque. Uma amiga dela, loira, aponta para seu bumbum. A legenda diz: “O que vocês acharam dessas garotas do posto de gasolina?”.

A gente poderia achar as duas esquisitas, mas o fato é que elas não existem. Zola é uma representante de uma estratégia política que tem crescido na extrema direita: o uso de IA para criar influenciadoras sexies, num estilo “only fans”.

Essas imagens irreais, com mulheres que parecem estrelas de revistas masculinas do passado, são criadas para influenciar homens mais velhos, que babam com os corpos de meninas muito jovens que não existem. E também para agradar os jovens meninos, cheios dos hormônios próprios da idade.

Líderes de torcida

Uma reportagem do New York Times, publicada no mês passado, encontrou mais de 300 perfis gerados por IA com “gostosas trumpistas”. Elas repetiam frases como: “Se você votou em Trump duas vezes, vamos ser amigos”.

De acordo com o jornal, essa onda de líderes de torcida vestindo biquínis e bonés MAGA encheu as redes nas últimas semanas, como parte de uma campanha para aumentar a popularidade de Trump, no momento em que ele se prepara para enfrentar as eleições de meio mandato no Congresso americano.

Faz sentido. E muitos eleitores da extrema direita são tão burros que, realmente, acreditam que essas mulheres são de verdade. Nesse momento, o exército de robôs de biquíni e peitão repete sem parar: “A esquerda fala que a direita não é unida. Vamos mostrar para eles que é o contrário e ficar amigos”.

Muitos homens respondem com corações, informam o nome da cidade onde moram e escrevem coisas do tipo: “Vamos ser amigos, baby, você é linda”.

Depois que a reportagem do New York Times foi publicada, alguns desses perfis desapareceram do Instagram e do TikTok, mas outros foram criados rapidamente. Numa busca rápida na rede, encontrei vários deles.

E os valores da família?

Trata-se de uma distopia completa. E, vamos lembrar: a extrema direita é contra a liberdade das mulheres e prega que  sejamos “recatadas”. No Brasil, por exemplo, ela acusa o funk de ser sexualizado demais. Mas, na hora de ganhar votos, apela para as imagens de mulheres estilo “soft porn”. Onde estão os valores conservadores? Mulheres, para a ultradireita, não deveriam ser “belas, recatadas e do lar?”.

Por outro lado, o uso de influencers falsas também não é tão incoerente, uma vez que, para misóginos como Trump, mulheres servem também para serem objetificadas.

Mais um detalhe: as influenciadoras são muito jovens, algumas parecem mal saídas da adolescência. Impossível não pensar no Caso Epstein, o milionário pedófilo que era amigo de Trump.

O pior é que essa estratégia “soft porn” distópica parece funcionar.

Na Alemanha, por exemplo, a AfD cresce entre os jovens. Nas eleições de 2025, o partido abocanhou 21% dos votos dos eleitores de 18 a 24 anos. Esse número foi 18 pontos maior em comparação ao da eleição anterior nessa faixa etária. A maioria dos jovens que vota na extrema direita é, para surpresa de ninguém, formada por meninos. Um dos motivos apontado para esse crescimento é o sucesso nas redes sociais.

Câmera de televisão aparece diante de painel da AfD em reportagem sobre crescimento da extrema direita entre jovens alemães.
AfD, partido de extrema direita, cresce entre os jovens alemães (Foto: Jens Schlueter/AFP)

Fórmula do sucesso

Pelo jeito, homens direitistas radicais não pensam muito quando veem uma mulher gostosa.

Uma prova disso é um caso que chega a ser engraçado. Uma das influenciadoras de IA de extrema direita mais populares, uma loira chamada Emily Hart, acumulava milhares de seguidores nas redes, sendo um exemplo MAGA perfeito: jovem, loira, bonita e extremamente conservadora.

Só que uma reportagem da revista Wired revelou, no mês passado, que ela foi criada por um estudante de Medicina de 22 anos de nacionalidade indiana. Seu objetivo: ganhar dinheiro. Funcionou. O rapaz ganhou milhões de dólares com assinaturas e venda de produtos. Depois da denúncia, o perfil foi banido do Instagram.

Em depoimento à revista, o jovem disse que fazer sucesso e conseguir engajamento com a personagem foi “muito fácil”. Ou seja, uma imagem falsa de uma mulher sensual junto com posições xenófobas, anti-aborto e pró-Trump são a fórmula do sucesso.

Mais distópico, impossível. Infelizmente, isso faz sentido. Vivemos a era do empoderamento do “tio do Zap babão e conservador”. E um deles é presidente dos Estados Unidos.

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