O fascismo à beira do Apocalipse

Diante de um mundo prestes a se acabar, os reacionários estão dizendo: dane-se
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Se o fim está próximo, os profetas do apocalipse são uma coalizão composta por bilionários da tecnologia, militantes anti-imigração e fundamentalistas religiosos, unidos pela crença de que o mundo vai acabar, sem, no entanto, propor nada que possa nos salvar.

Ao contrário, o que essa turma faz é criar mecanismos para acelerar nossa decadência. É o que defendem a jornalista e escritora canadense Naomi Klein e a documentarista americana-canadense Astra Taylor no livro End Times Fascism: And the Fight for the Living World (em tradução livre, Facismo do Fim dos Yempos: e a Luta pelo Mundo Livre), que será lançado no Brasil, no início de 2027, pela editora Cambraia.

Recém-lançado, o ensaio repercutiu na mídia internacional com apontamentos favoráveis e uma gira da dupla por canais de notícia. Nomes de vanguarda no ativismo, Naomi é autora do best-seller Sem Logo – A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido (Ed. Record), sobre os efeitos devastadores do marketing na sociedade, enquanto Astra é cofundadora da Debt Collective, associação que defende o cancelamento de dívidas da população.

No livro, elas argumentam que, quanto mais poder nacionalistas de extrema direita acumulam, maior é o risco de que sua maneira destrutiva de fazer política seja normalizada. Nesse contexto, Naomi e Astra utilizam o termo “fascismo do fim dos tempos” em referência a uma convergência de interesses que pode ser entendida como uma resposta à crise climática.

Diante de um mundo submetido a uma pressão sem precedentes, causada por choques ambientais e por um sistema econômico desigual e ávido por recursos, os reacionários estão, na prática, dizendo: dane-se. Isso se revela na ambivalência com que personagens como Mark Zuckerberg tratam a crise climática.

Ao mesmo tempo em que o dono da Meta demonstra ter conhecimento do problema, contabilizando centenas de milhares de dólares em doações a pesquisas acadêmicas, repassadas, por exemplo, ao Instituto de Gestão de Carbono da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Zuckerberg se recusa a frear o desenvolvimento da IA, mesmo sabendo dos riscos de esgotamento de recursos naturais envolvidos.

Junto a isso, documentos internos vazados por funcionários da própria Meta mostram um avanço na desinformação e fake news sobre o aquecimento global em suas plataformas, priorizando o engajamento de usuários em detrimento do combate ao racismo ambiental e às mentiras científicas, como mostrou reportagem publicada pela Agência Pública, em 2022.

“O fascismo do fim dos tempos está em estreita relação com crises existenciais em escala planetária, e que dá como certo o fim deste mundo”, defende Naomi, em entrevista ao podcast The Interview, do jornal The New York Times.

Por fascismo, justificam as autoras, compreende-se uma tendência recorrente entre as elites, que se manifesta quando o capitalismo deixa de funcionar da maneira que a alta-sociedade gostaria, e ela sente que sua posição está ameaçada.

“Nossos fascistas têm armas com as quais Hitler e Mussolini nem sonhavam”, diz a jornalista. “Eles [os do século 20] não compreendiam que os combustíveis fósseis estavam aquecendo o planeta. Assim como nosso mundo mudou, o fascismo também. Ele passou a aceitar o colapso. O que eles [fascistas] disputam agora é quem vai sobreviver ao cataclisma.”

Naomi Klein e Astra Taylor podcast The Interview the new york times reprodução (1)
Naomi e Astra no podcast The Interview (Foto: Reprodução)

Fuga para Marte

Nessa corrida, vale-tudo. Inclusive tentar colonizar Marte, como propõe Elon Musk. “A exploração espacial não é inerentemente fascista, mas a maneira como ela está sendo formulada por Elon Musk se deve ao fato de ele aceitar que está, como ele mesmo diz, salvando a humanidade. Do que exatamente ele está salvando a humanidade? Por que aceitamos que esse mundo precise de uma fuga?”, questiona Naomi.

Mas os “tech boys” não são os únicos a apostar no Armagedom. Segundo Astra e Naomi, fanáticos religiosos, representados principalmente por cristãos evangélicos sionistas estadunidenses e sionistas israelenses, veem em cada novo desastre um sinal bem-vindo de que a humanidade caminha rumo ao fim dos tempos, e o Messias os salvará. Para esses, demagogos seculares prometem um futuro glorioso e próspero, como transformar os escombros da faixa de Gaza num resort milionário.

Mestres em capitalizar a desgraça e transformá-la em votos, políticos nacionalistas como Donald Trump manipulam o medo das pessoas em relação ao outro, reafirmando uma posição de superioridade frente aos demais. Nessa “outrização”, cabem crentes de outros credos, imigrantes e populações racializadas, desde sempre inferiorizadas.

Trata-se, portanto, do perfil do público MAGA, a quem Trump endereçou seu discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), na última terça (22/9). Com a popularidade no menor nível de sua carreira (apenas 32% de aprovação) e a proximidade das eleições de meio de mandato, o presidente dos EUA reforçou o discurso de ódio, ameaçando usar o poder militar até contra os vizinhos da América Latina para proteger os interesses estadunidenses.

Por óbvio, Naomi e Astra concordam que há contradições e incoerências na atuação desses personagens, mas todos eles creem que “o mundo está cada vez mais tenso e perigoso – e, de fato, está”, dizem elas. “A reação deles [fascistas] é se fechar e tentar defender o próprio grupo, reafirmando essa perigosa aliança.”

Em contraposição à hecatombe, as autoras propõem que o campo progressista ataque as vulnerabilidades da direita para desmantelar a concentração de riqueza e poder, permitindo a ascensão de lideranças como o jovem muçulmano socialista Zohran Mamdani. Em sua campanha, o atual prefeito de Nova York criou uma coalizão que se concentrou em propor soluções ao alto custo de vida na cidade e celebrou as diferenças de sua população.

Entre as formas criativas de resistência, Naomi e Astra apontam também um senso de comunidade que pode ser instigado contra a repressão, como ocorreu em Minnesota, onde os moradores atuaram para proteger vizinhos das violentas perseguições do ICE.

Ainda que concentrada na realidade estadunidense, a premissa e as propostas desse “fascismo do fim dos tempos” refletem muitos dos desafios que enfrentamos por aqui. Basta pensar na legião de falsos profetas conclamando eleitoras/es a “salvarem” o Brasil de falcatruas tramadas por eles próprios.

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Mas resistiremos: na próxima quarta (dia 30/9), acontece o Sarau de Mobilização “Livros pela Democracia”, um encontro para reunir o mundo do livro em defesa da democracia, com leituras, poesia, conversa e mobilização, com um grupo de editoras e editores, escritoras e escritores, livreiras e livreiros, bibliotecárias, tradutoras, ilustradoras, mediadoras de leitura e pessoas que, em diferentes lugares, trabalham para que os livros existam e circulem e que decidiram se reunir e se somar em diversas atividades de mobilização nessa reta final eleitoral.

O encontro acontece na quarta, dia 30, a partir das 19h, na Tapera Taperá (Avenida São Luís, 187, 2º andar, loja 29, República, São Paulo).

Te vejo lá!

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