Há dez anos, em 18 de junho de 2016, Andrew “Boz” Bosworth, então vice-presidente do Facebook, publicou nos grupos de trabalho da empresa um memorando intitulado O incômodo (em inglês, The ugly) sobre a responsabilidade da big tech com seus usuários. No comunicado, Boz afirmava existir uma verdade desagradável no cerne do Facebook, com a qual os funcionários tinham de lidar.
“Nós conectamos pessoas. Ponto final. É por isso que todo o trabalho que fazemos em termos de crescimento é justificável. Todas as práticas questionáveis de importação de contatos. Toda a linguagem sutil que ajuda as pessoas a continuarem pesquisáveis por amigos. O trabalho que fazemos para atrair mais comunicação para dentro da plataforma. O trabalho que, provavelmente, ainda faremos na China um dia. Tudo”, escreveu o executivo.
Mais adiante, ele afirma: “E, então, conectamos mais pessoas. Isso pode ser ruim, caso se faça um uso negativo. Talvez custe a vida de alguém por expô-lo a agressores. Talvez alguém morra em um ataque terrorista coordenado por meio de nossas ferramentas. Mas, ainda assim, seguimos conectando pessoas. A verdade incômoda é que acreditamos em conectar as pessoas tão profundamente que qualquer coisa que nos permita conectar mais pessoas com mais frequência é, de fato, boa”.
Desde que o BuzzFeed vazou o documento, em 2018, Boz foi promovido a CTO da Meta e chefe da divisão de Wearables e Metaverso da empresa. A filosofia de “conectar as pessoas tão profundamente”, por sua vez, evoluiu, ampliando o alcance de perfis que fomentam ódio e extremismo, com a conivência e a parcialidade do Facebook.
A aparente imparcialidade também ficou para trás. As plataformas do conglomerado fundado por Mark Zuckerberg apoiam abertamente projetos políticos que garantam seu monopólio, sem interferências ou freios.
As “falhas recorrentes” da Meta em manter padrões de transparência que afastem suspeitas de interferência eleitoral no Brasil, apontadas pelo Comitê de Supervisão de Conteúdo da própria empresa, são apenas a ponta do iceberg de uma manipulação algorítmica, a que talvez jamais tenhamos acesso.
Mentiras sobre a covid-19
Para entender como chegamos a esse ponto, vale revisitar o passado recente, detalhado no livro Uma Verdade Incômoda – Os Bastidores do Facebook e sua Batalha pela Hegemonia (Cia. das Letras), das jornalistas Sheera Frenkel e Cecilia Kang.
Publicada em 2021, essa grande reportagem esmiúça como Instagram, Facebook, X (ex-Twitter) e WhatsApp, entre outros, são usados para corroer democracias, viabilizar golpes de Estado, estimular movimentos separatistas e promover genocídios com a conivência e um empurrãozinho das big techs.
Repórteres do The New York Times, Sheera, especialista em cibersegurança, e Cecilia, responsável pela cobertura de tecnologia e regulação, reuniram dezenas de documentos e mais de mil horas de entrevistas, com cerca de 400 pessoas, entre executivos, familiares, funcionários e ex-funcionários da Meta, além de acadêmicos, pesquisadores, legisladores etc., cobrindo um período que vai da fundação do Facebook à invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021.
“A ideia era finalizar o livro antes das eleições americanas de 2020, mas, de repente, começou uma pandemia global, e o Facebook foi usado para espalhar mentiras sobre a covid-19 no mundo todo, portanto, decidimos que deveríamos esperar um pouco mais para publicá-lo”, contou Cecilia, em conversa que tivemos em meados de 2021.
“Então, veio a invasão do Capitólio, auge do que estava se passando na rede social, que não soube como controlar os grupos de extrema direita que atuam em sua plataforma e agiram instigados pelas falas de Donald Trump clamando por violência. Para nós, esse episódio foi o melhor e mais incisivo exemplo de como as coisas começam no Facebook e transbordam para a vida real com terríveis consequências”, disse a jornalista.

Já em sua primeira década, o Facebook, criado em 2004, deixava brechas para questionamentos legais sobre sua política e moderação. “As primeiras críticas vieram por volta de 2009, quando menores de idade passaram a usar o aplicativo para praticar bullying”, lembrou Cecilia. “Além disso, havia predadores entrando em contato com as crianças, e o Facebook parecia fazer vista grossa para tudo isso.”
Na época, Cecilia questionou Sheryl Sandberg, então diretora de operações do Facebook, sobre as denúncias. A resposta, conforme a jornalista, foi um indicativo de como a Meta iria tratar todas as acusações futuras.
“Sheryl começou dizendo que esse não era um problema só do Facebook, mas de toda a internet. Depois, afirmou ‘sou mãe e nunca deixaria nada de ruim acontecer com as crianças. Me importo profundamente com isso e com a privacidade de dados’”, descreveu Cecilia. “Ao longo dos anos, no entanto, ficou comprovado que eles não se empenham nessa proteção. Após mais de uma década recebendo denúncias de menores sendo contatados por adultos de maneira indesejável e perigosa, só recentemente o Instagram endureceu suas políticas de acesso.”
Assim como criou um método de crescimento, Zuckerberg passou a responder a críticas e denúncias com uma fórmula única. “Todas as vezes que eles são confrontados, recorrem a respostas evasivas. Depois, negam a responsabilidade da empresa, tentando apresentar uma mensagem e uma imagem positivas, que não resistem ao teste do tempo”, afirmou Cecilia.
Monopólio sem regulamentação
Citado em diversos trechos de Uma Verdade Incômoda, o Brasil foi o primeiro país em que a Meta testou sua chamada “sala de guerra”, criada nas eleições presidenciais de 2018 para conter a desinformação eleitoral. A experiência serviu de ensaio para a cobertura das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas no mesmo ano – assim como agora, com o pleito estadunidense marcado para 3 de novembro.
“A sala tinha mapas do país em todas as paredes e relógios ajustados no horário do Rio e de São Paulo”, assinalou Sheera. Ao contrário dos Estados Unidos, onde o principal app era o Facebook, no Brasil, o WhatsApp representou um risco eleitoral muito maior devido aos disparos em massa da campanha de Jair Bolsonaro, uma novidade de 2018, revelada em reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello, na Folha de S.Paulo.
“O WhatsApp era muito mais difícil de monitorar contra a desinformação, porque possui criptografia de ponta a ponta, além de grupos fechados, onde cabia aos próprios integrantes denunciar conteúdos falsos”, observou Cecilia.
Sheera lembrou ainda que o Facebook é uma empresa estadunidense, com maioria de funcionários falando inglês. “Os executivos [da Meta] vivem nos Estados Unidos, por isso, muitos dos problemas que o Facebook trouxe, como a disseminação descontrolada de desinformação, e os próprios políticos espalhando parte desse conteúdo e do discurso de ódio ocorrem em escala ainda maior em outros países.”
Em 2026, o Brasil volta a ser o “campo de testes” da Meta, agora com a Inteligência Artificial multiplicando as possibilidades de criar, manipular e espalhar desinformação. Desta vez, a empresa parece ter entrado na guerra, atuando claramente a favor de um campo político. Aquele que garante que ela siga com um monopólio sem regras nem regulamentação.