Estamos em 2119. Após décadas de alterações no clima, o nível do mar subiu, reduzindo países como o Reino Unido a ilhotas, enquanto cidades como Nova York, Amsterdã e Londres estão completamente submersas.
Com o colapso da União Europeia, nações como a Alemanha foram anexadas à Rússia Maior. Isolado e sob o comando de milícias, os Estados Unidos se tornaram um dos lugares do planeta a se evitar. No continente africano, a Nigéria se consolidou como superpotência global, tendo a naira utilizada como principal moeda nas negociações internacionais.
Devido a guerras, catástrofes naturais e pandemias, de cerca de 8 bilhões em 2026, a população mundial está reduzida à metade. Espalhadas por ilhas e nas terras altas que restaram após a Grande Inundação, as pessoas se deslocam de barco, bicicleta e a pé. Sem as imensas extensões de terra dedicadas à agricultura e à criação de animais para o abate, a alimentação foi substituída por bolos de proteínas sintéticas. Produtos como café, chocolate e bebidas alcoólicas são raridades caríssimas para poucos.
O mundo imaginado pelo autor britânico Ian McEwan em O Que Podemos Saber (Cia. das Letras) ensejou uma série de discussões sobre a sociedade contemporânea desde seu lançamento no primeiro semestre. Um dos livros mais elogiados deste ano, o romance futurista tem como protagonista o professor e crítico literário Tom Metcalfe, cujo foco de estudos é a produção literária dos anos 1990/2000, em especial a criação do poeta Francis Blundy, cuja obra-prima, um poema inspirado em sua mulher, Vivien, está desaparecida há décadas.
Em sua investigação, Metcalfe explora mensagens instantâneas de texto, e-mails, reminiscências de perfis de redes sociais há muito desativadas, que revelam um modo de vida marcado pela abundância e o desperdício. Um jeito de existir incompreensível para seus jovens estudantes de literatura, a quem o mestre tenta sensibilizar para as qualidades e fraquezas de seus antepassados.
“Nesse estágio, os alunos ainda não estão convencidos. Não conseguem acreditar que as pessoas da era pré-Inundação, que viveram há apenas um século, eram parecidas com eles. Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida, eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.”
As mesmas proposições que nos levam a tentar compreender nosso passado mais recente pautam as reflexões de McEwan sobre como imaginar um futuro a partir dos escombros do presente.
Sob essa perspectiva, tenho pensado sobre como as próximas gerações irão se referir a nós, desde a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais no último domingo. Na impossibilidade de evitar as notícias ou ceder à paralisia e à depressão, a arte é alento, mas também alerta.

Estirpe das servas
Para quem, como eu, nasceu na década de 1970, os anos 2000 pareciam ser a materialização da utopia. A internet encurtou distâncias, expandiu fronteiras, promoveu acessos. As democracias vingavam. No Brasil, em especial, a vida prometia ser cada vez melhor. Mas, em menos de duas décadas, a elite capitalista deixou bem claro a quem serve todas as supostas facilidades da nova era: única e exclusivamente a ela própria.
A distopia se impôs como realidade. Não à toa, a obra que mais inspira comparações com a ascensão da extrema direita ao redor do mundo, O Conto da Aia (Ed. Rocco), de Margaret Atwood, baseia-se em extensa pesquisa da best-seller canadense sobre regimes totalitários (o livro inspirou uma série para a televisão lançada em 2017).
Para quem não leu ou assistiu à série, no romance, uma junta autoritária chega ao poder dos Estados Unidos, que passam a se chamar Gilead. Dividida em castas, a sociedade funciona sob estritas regras religiosas e patriarcais, na qual mulheres – mesmo as de classes dominantes – têm seus direitos cassados e são submetidas a todo tipo de violência, do estupro ao trabalho forçado e à mutilação como forma de castigo.
As aias do título integram a estirpe das servas, destinadas a procriar. Submetidas a estupros diários, são separadas das crianças assim que dão à luz. Exatamente o mesmo que ocorria às africanas escravizadas. Ou o que ocorre hoje às afegãs. E quem sabe pode vir a ocorrer novamente às brasileiras pobres.
Caso Ian McEwan tomasse o Brasil de 2026 como ponto de partida para pensar o século 22, poderia incluir a total extinção dos povos indígenas, cujas terras serão transformadas em pastos e plantações, bem como a floresta e outras áreas de proteção ambiental. Considerado um rio morto, no Amazonas só restarão as estruturas utilizadas na exploração de petróleo, lixo abandonado por empresas estadunidenses.
Ocupado por cassinos e resorts, o litoral brasileiro será dividido entre facções milicianas, conhecidas por promover festas de arromba, onde drogas sintéticas serão consumidas por “novinhas” e pela fina-flor da elite. Na Baía da Guanabara, uma base do Exército estadunidense terá canhões apontados para o que restou dos morros. Pobres e pretos que sobreviverem vão lotar gigantescos complexos penitenciários, geridos por conglomerados religiosos trilionários.
Parafraseando McEwan, tudo isso, porque aquela gente antiga, composta de uma maioria de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos preferiu ignorar o fato de que estava escolhendo um homem acusado por diversas falcatruas para governar o país. Sem dúvida, eles poderiam ter feito algo melhor. Ainda dá tempo.