Mortos ilustres não consultam calendário. Era novembro em Paris, mas na mesa de canto do Les Deux Magots, sob o olhar dos dois mandarins de madeira que dão nome à casa, fazia verão – desses verões europeus em que a noite custa a chegar e, quando chega, não quer ir embora. Da calçada se via a torre de Saint-Germain-des-Prés; dois quarteirões adiante começava o Quartier Latin. O cronista ocupava a mesa ao lado com uma taça de Sancerre e um caderno. Não foi convidado. Ouviu tudo.
Eram quatro. Um francês magro, de casaca, olhos fundos de quem dorme mal desde 1859. Um americano de terno claro e sobrancelha em arco permanente, cara de quem já tem a frase pronta antes de a pergunta terminar. Outro americano, de Newark, calvo, nariz de peso-médio, olhar de quem desconfia até do garçom. E um mulato carioca de paletó surrado e colarinho folgado, que pedira “uma Paraty, se houver” e recebera, por falta de cachaça, um Calvados. Não reclamou.