A engenharia do silêncio e a aniquilação de Gaza perseguem uma Palestina sem palestinos

O que testemunhamos é a tentativa de extermínio de uma população sitiada
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A lógica da dominação imperialista no século 21 não opera apenas com o fogo dos canhões, mas também com a frieza do esquecimento. O silêncio dos grandes veículos de comunicação “ocidentais”, sobre a Palestina num todo e sobre Faixa de Gaza em particular, não é um acidente editorial; é uma parte inseparável desta guerra, em boa medida, nesta fase, psicológica. Quando as câmeras se desviam, a máquina de moer vidas acelera. A exaustão da atenção pública é o terreno fértil no qual o genocídio se consolida. Retomar a pauta de Gaza, neste momento, não é um exercício de memória, mas um imperativo ético e político de resistência.

O que testemunhamos, desde outubro de 2023, não é um conflito armado convencional, até porque um lado apenas pode promover a guerra para a eliminação total do outro. É a engenharia do extermínio aplicada sobre uma população sitiada. A barbárie precisa ser quantificada para que sua dimensão não seja diluída em abstrações.

Israel já lançou entre 70 mil e 90 mil toneladas de explosivos sobre um território de apenas 365 km², o que corresponde a 25% da cidade de São Paulo. Para que tenhamos a exata dimensão dessa brutalidade, essa carga explosiva equivale a entre cinco e seis vezes o poder de destruição da bomba nuclear lançada pelos EUA sobre Hiroshima. O resultado material dessa ofensiva é um deserto de mais de 37 milhões de toneladas de escombros, sob os quais jazem entre 11 mil e 20 mil corpos que jamais terão um funeral digno.

Gaza wikimedia commons
Criança caminha entre os escombros de Gaza (Foto: Wikimedia Commons)

A escala de mortes impõe um choque que a civilização não pode tolerar. Os últimos levantamentos oficiais, muito subestimados, apontam, considerando os desaparecidos na modesta casa dos 11 mil, para mais de 85 mil exterminados, o equivalente, proporcionalmente (considerando a população do país) a 9 milhões de pessoas no Brasil. Na Europa da Segunda Guerra Mundial, seriam perto de 32 milhões de mortos em dois anos, ou quase 100 milhões nos seis anos de sua duração, mais do que o dobro dos estimados 40 milhões de mortos em solo europeu naquele então.

Armas de aniquilação

Estas cifras da indústria da morte de Tel Aviv, chancelada e abastecida por Washington, se deve ao dado simples de que ela não busca alegados combatentes; ela mira na própria possibilidade de existência do povo palestino. Novamente por dados subestimados e considerando desaparecidas, são perto de 23 mil as crianças palestinas assassinadas. Este dado, isoladamente, deveria paralisar os fóruns de direitos humanos do planeta. Tomados proporcionalmente, apontam a nossa falência enquanto humanidade: 10.300 crianças exterminadas por milhão de habitantes de Gaza, quase quatro vezes as 2.813 por milhão de habitantes na Segunda Guerra Mundial.

A isso soma-se as mais de 13 mil mulheres exterminadas, isto é, eliminação de ventres palestinos, as mães do amanhã deste povo. Esta combinação – extermínio de futuras mães e crianças – tem clara intenção genocidária futura, por meio do colapso da capacidade de reprodução da sociedade palestina, uma espécie de esterilização a prazo.

A destruição da infraestrutura civil é uma parte essencial deste projeto de extermínio, pois, para o agressor israelense, Gaza deve ser tornada inabitável. O sistema de saúde foi revertido à Idade da Pedra. Dos 36 hospitais que compunham a rede de Gaza, 16 foram completamente destruídos e os demais operam em colapso, sem anestesia, energia ou materiais cirúrgicos. Mais de 80% da rede primária está inoperante. O mesmo destino cruel coube à educação: mais de 400 edifícios escolares devastados, retrocedendo o desenvolvimento educacional palestino por décadas.

Nem mesmo os abrigos da ONU escaparam. Mais de 150 instalações da UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) foram atingidas, e mais de 180 de seus funcionários foram mortos – a maior perda de vidas da história da organização em um único conflito. A destruição das instituições internacionais é a prova cabal de que o opressor não reconhece limites éticos ou jurídicos.

Mas, para que toda esta destruição tenha “sentido” estratégico frente ao que é buscado pelo agressor, é preciso impedir a reconstrução. Até o momento nada foi reconstruído. Sequer a remoção dos escombros vem acontecendo. A infraestrutura de água, energia, esgoto e telecomunicações está soterrada. As estimativas do Banco Mundial e da ONU indicam um custo de reconstrução que ultrapassa os US$ 50 bilhões  – um valor dez vezes superior ao PIB anual de Gaza antes do conflito. Ademais, não há reconstrução possível sob ocupação militar e embargo que mantenha a arquitetura do regime de apartheid imposto a todo o povo palestino.

A ajuda humanitária também entra a no máximo 40% da quantidade mínima estipulada. Detalhe: a maior parte do que ingressa o território visa abastecer a parte do mercado ainda funcional em Gaza, isto é, não chega aos que perderam tudo e não têm mais nenhuma atividade econômica capaz de garantir o sustento. A ajuda humanitária propriamente mal chega, segundo algumas estimativas, a 10% do quantum mínimo.

Assim, o cerco econômico é a outra face da arma de aniquilação. A fome é utilizada com frieza calculada. Enquanto a população de mais de dois milhões de habitantes enfrenta inanição absoluta – com o Norte de Gaza já classificado em fase de fome plena –, a ajuda humanitária é sufocada nos postos de fronteira.

E as consequências imediatas já são conhecidas pelos dados da ONU. Os nascimentos caíram de 29 mil por semestre para 17 mil. A longevidade média, que era de 75 anos, passou a ser de 36 anos para os homens e 44 anos para as mulheres. Mas isso é apenas consequência ou o real objetivo, isto é, exterminar no presente e no futuro com vistas ao objetivo estratégico do projeto sionista, que é uma palestina sem palestinos – “uma terra ‘sem povo’ para um ‘povo sem terra’”?

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Destruição da infraestrutura é parte essencial de projeto de extermínio ( Foto: Menahem Kahana/AFP)

Genocídio televisionado

Agora, recorrendo ao Escritório Central de Estatísticas da Palestina, a resposta vem mais clara e vai ao encontro do real objetivo estratégico do regime israelense, neste momento alcançado taticamente, ou seja, ao menos retomar a superioridade demográfica judaica na “terra de Israel”, vale dizer, toda a Palestina, logo, Gaza e Cisjordânia, com Jerusalém Oriental, incluídas.

Em 2002, havia 40 mil palestinos (não-judeus) mais do que judeus (os israelenses com cidadania plena), isto é, superioridade demográfica palestina de 0,56%. Neste contexto, Gaza era habitada por 2.226.544 palestinos. Conforme estas mesmas estatísticas, a população palestina deveria ser, neste ano, de 7.820.000 (5.557.096 nos Territórios Palestinos Ocupados – após 1967 – e previstos nos Acordos de Oslo para integrar o Estado da Palestina). Nesta estimativa, 2.411.790 seriam habitantes de Gaza. Entretanto, Gaza tem hoje apenas 2.114.724. Ou seja: Gaza tem hoje 297.066 menos moradores do que deveria ter, bem como 112 mil menos do que tinha antes de iniciada a agressão genocidária de EUA e Israel.

Com isso, ao invés de haver ao redor de 230 mil palestinos (não-judeus) mais do que os israelenses judeus, há uma inversão no quadro, com entre 50 mil e 70 mil judeus mais do que não-judeus. Em conclusão, nunca foi para “libertar ‘reféns’” ou para “eliminar o Hamas”; sempre foi para perseguir o projeto colonial sionista inaugurado em 1897: uma Palestina sem palestinos.

E, claro, o silêncio dos veículos de comunicação ocidentais faz parte desta equação, que nunca é meramente passiva, pois esconder o primeiro genocídio televisionado da história é ação, não mera omissão.

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