Mais de 73 mil mortos oficialmente registrados após mil dias de ataques. Milhares de pessoas amputadas e feridas. Mais de 90% da população deslocada. Quatro em cada cinco edificações destruídas ou danificadas. Uma reconstrução estimada pelo Banco Mundial em US$ 71,5 bilhões. Se nem a soma dessas evidências até agora foi suficiente para interromper a destruição de Gaza, a pergunta mais urgente já não é somente o que aconteceu naquele território: mas o que aconteceu com o mundo?
Em fevereiro de 2024, escrevi um artigo perguntando por que o assassinato de quase oito mil crianças palestinas parecia provocar menos comoção internacional do que um incidente diplomático envolvendo dois chefes de Estado.
Naquele momento, eu acreditava que aquela pergunta já era suficientemente perturbadora. Dois anos depois, vejo que era apenas o começo.
Os números cresceram de forma incompreensível. Hoje, milhares de palestinos estão oficialmente registrados como mortos desde o início da ofensiva israelense em Gaza e outros milhares sofreram violentas amputações. Um contingente cuja dimensão real jamais será conhecida com precisão, diante do colapso do sistema de saúde e das dificuldades de registrar as vítimas em meio a tantos bombardeios, deslocamentos e destruição em massa.
Quase toda a população da Faixa de Gaza foi obrigada a abandonar suas casas ao menos uma vez. Aproximadamente 81% das edificações foram danificadas ou completamente destruídas. Os números impressionam. Mas o que também me arrasa é perceber que eles não nos paralisaram.
O horror visto como rotina
A cada novo relatório das Nações Unidas, a cada atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada levantamento do Banco Mundial, parece haver um breve instante de atenção. Logo depois, seguimos para a próxima crise, a próxima disputa política, o próximo escândalo, a próxima trend ou fofoca das redes sociais.
Enquanto isso, as mortes e a barbárie naquele território continuam. A destruição continua. A fome continua. O assassinato de mulheres e crianças também. E a humanidade parece demonstrar que aprendeu, silenciosamente, a conviver com tudo isso.
E não se trata de desconhecimento. Esse é o genocídio mais documentado da história. Nunca houve tantas imagens produzidas em tempo real. Nunca tantos satélites acompanharam a destruição de um território diariamente. Nunca organismos internacionais divulgaram tantos relatórios sucessivos sobre um mesmo conflito. Nunca jornalistas, médicos, pesquisadores e trabalhadores humanitários produziram um volume tão grande de informações enquanto uma tragédia acontecia em tempo real.
Durante décadas, parte da explicação para atrocidades como o Holocausto nazista apoiou-se, ainda que apenas parcialmente, na dificuldade de acesso à informação, na censura, na propaganda e na lentidão com que as notícias atravessavam fronteiras. Hoje, essa justificativa já não existe. A informação circula em tempo real. As imagens chegam antes dos relatórios oficiais. Sabemos mais, vemos mais e documentamos mais do que qualquer outra geração. Ainda assim, entretanto, nada disso tem sido suficiente para impedir a continuidade dos horrores.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o mundo construiu convenções, tratados, cortes internacionais e organismos multilaterais para impedir que a promessa do “nunca mais” permanecesse apenas como um compromisso moral. A Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio, as Convenções de Genebra, a Organização das Nações Unidas, a Corte Internacional de Justiça e, mais tarde, o Tribunal Penal Internacional nasceram da convicção de que a comunidade internacional não poderia voltar a assistir passivamente à destruição de povos inteiros. Mas estamos fracassando.
Ao longo dos últimos anos, acompanhamos, dia a dia, bombardeios em tempo real. Vemos hospitais bombardeados, bairros desaparecendo, famílias sucessivamente deslocadas, crianças retiradas mortas ou gravemente feridas de escombros, jornalistas assassinados durante a cobertura do conflito, médicos operando sem anestesia, organizações humanitárias denunciando a falta de água, alimentos e medicamentos e sendo ignoradas.
Assistimos também a sucessivas tentativas de romper simbolicamente o isolamento de Gaza por meio de missões humanitárias marítimas, interceptadas antes de alcançar o território. Tudo isso acontece diante de câmeras, satélites e transmissões ao vivo. Ainda assim, algo parece ter se rompido na comunidade internacional. Algo que deveria ter poder de influência e ação, mas não teve.

A fadiga da indignação
Em Diante da Dor dos Outros, publicado em 2003, a escritora e ensaísta norte-americana Susan Sontag, uma das intelectuais mais influentes do século 20, reflete sobre a forma como reagimos às imagens de guerra e sofrimento. Para ela, essas imagens carregam uma ambiguidade inquietante. Podem mobilizar a consciência, despertar solidariedade e provocar indignação. Mas também podem produzir o efeito inverso: quando a violência se torna permanente diante dos nossos olhos, o extraordinário corre o risco de se transformar em rotina. O olhar se acostuma. A capacidade de espanto diminui. A dor do outro deixa de interromper a vida cotidiana. E Gaza representa esse limite.
Nunca estivemos tão próximos do sofrimento de pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância. Ao mesmo tempo, nunca desenvolvemos tantos mecanismos para seguir vivendo apesar dele.
Abrimos o celular e vemos um hospital destruído, uma fila por alimentos, uma criança coberta de poeira sendo retirada dos escombros. Minutos depois, a mesma tela exibe publicidade, vídeos de entretenimento, resultados esportivos, publicidade de casas de apostas ou fotografias de viagens. Não se trata apenas do funcionamento dos algoritmos. Trata-se da forma como passamos a consumir a realidade. A tragédia disputa nossa atenção no mesmo espaço em que competem o cotidiano, o lazer, o mercado e a infinidade de estímulos que caracterizam a vida digital.
Não é que tenhamos deixado de sentir. É que já não conseguimos sustentar esse sentimento por muito tempo. A indignação cede lugar à fadiga. O choque dá lugar ao hábito. E esse é um dos maiores dilemas morais do nosso tempo.
Em Emoções Políticas, Martha Nussbaum lembra que nenhuma democracia se sustenta apenas por instituições ou normas jurídicas. Ela depende da capacidade de seus cidadãos ampliarem o círculo da empatia para além daqueles com quem convivem, reconhecendo a humanidade também em pessoas distantes, desconhecidas ou diferentes. Quando esse exercício falha, os princípios universais continuam existindo no discurso, mas perdem força quando são mais necessários.
Essa reflexão ajuda a compreender por que Gaza ultrapassa os limites de um conflito regional. Não está em jogo apenas a destruição de um território. Está em jogo a credibilidade de uma ideia construída ao longo de décadas: a de que alguns direitos pertencem a todas as pessoas, simplesmente, porque elas são humanas.
E é essa promessa que vacila quando uma população inteira permanece exposta, durante tantos meses, a níveis extremos de violência, deslocamento, insegurança alimentar e colapso dos serviços essenciais, enquanto a comunidade internacional se mostra incapaz de produzir respostas proporcionais à gravidade da crise.
O problema não é apenas que os Estados discordam sobre como agir. O problema é que, enquanto discutem, pessoas continuam morrendo, como se fosse aceitável que a proteção da vida dependesse do ritmo das negociações diplomáticas, dos cálculos eleitorais, das correlações de força entre potências ou das limitações impostas pelos organismos multilaterais.
E, para mim, é nesse ponto que Gaza deixa de ser apenas uma crise humanitária. Ela se transforma em um teste histórico para a própria ideia de humanidade compartilhada.
O julgamento que ainda está por vir
As guerras costumam terminar quando seus protagonistas concluem que continuar lutando custa mais do que parar. Raramente terminam porque a comunidade internacional decide que o sofrimento da população civil ultrapassou todos os limites aceitáveis. É uma constatação dura, mas recorrente na História.
Décadas depois, continuamos perguntando como Auschwitz foi possível. Como Ruanda aconteceu. Como Srebrenica ocorreu diante da presença das Nações Unidas. Em todos esses episódios, a História acabou formulando a mesma pergunta: quem sabia e por que não conseguiu impedir? Gaza ainda provocará o mesmo julgamento.
O escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e uma das principais vozes da memória do Holocausto, encerrou Os Afogados e os Sobreviventes, livro de 1986, com um alerta que continua atravessando gerações: “Aconteceu, portanto, pode acontecer novamente: este é o cerne do que temos a dizer”.
Sua advertência nunca foi apenas sobre o passado. É um chamado permanente à vigilância.
Gaza não será lembrada apenas como uma sociedade devastada pela guerra. Será lembrada também como o momento em que a humanidade precisou confrontar uma pergunta incômoda: o que acontece quando sabemos de tudo e, ainda assim, somos incapazes de impedir que a barbárie continue?
“Aconteceu, portanto, pode acontecer novamente.” O alerta de Primo Levi nunca pertenceu apenas ao século 20. Gaza pode ser a prova mais dolorosa de que ele continua falando ao nosso tempo.