Por Deborah Magagna
Damares Alves estava vaidosa. Disse isso ela mesma, sentada à mesa de um debate sobre investimentos, cercada de mulheres jovens que ela fazia questão de apontar uma a uma. “Fico feliz em tê-las aqui”, repetiu. “Nós estamos ocupando todos os espaços”. A cena tinha ares de vitória e, à primeira vista, era só isso.
Em outro momento, a senadora disse o que interessa. Perguntada sobre o direito de dizer “não” a um emprego tóxico, ela foi além do roteiro: acrescentaria “não” a um marido agressor, afirmou, “porque quem trabalha com violência contra a mulher sabe que ela fica porque ele é o provedor”. E então, sem pausa para a frase assentar, emendou: “e não a algumas alianças, especialmente alianças políticas”. “Tomara que a imprensa não esteja ouvindo”, sussurrou. Sabia perfeitamente que estava.
Isso ocorreu em 20 de maio. Mais de um mês antes da crise entre Michelle e Flávio estourar em público, da sondagem de Daniella Marques, de qualquer aliado sair atacando mulheres nas redes. A rachadura no PL já existia por baixo do verniz, e Damares falou dela sem apontar nome, deixando o resto pra quem soubesse ler as entrelinhas.
Nesta semana, o tom mudou. Damares gravou vídeo cobrando dos colegas homens que “não deixem só a mulher defender mulheres”, disse que quem se cala “é conivente”, cúmplice.
Do sussurro em maio à convocação pública em julho, o intervalo foi só o tempo que levou para que falar mais alto fosse mais vantajoso.
A régua que ela aplica agora nos colegas não valia pra ela mesma. Damares passou quatro anos como ministra dentro de um governo cujo chefe coleciona frases misóginas ditas em público, da tribuna da Câmara ao Palácio do Planalto, e cuja base naturalizou ataques a deputadas, jornalistas e adversárias.
Ela ficou.
Não largou o cargo, não confrontou o chefe, não gravou vídeo nenhum. Calar diante do machismo é cumplicidade, afirmou esta semana.
Um mandato inteiro calada dentro do governo que mais normalizou machismo de Estado desde a redemocratização foi o quê, então?
Tem uma camada mais antiga ainda. Foi Damares quem, à frente do mesmo ministério, cunhou a frase que virou símbolo do bolsonarismo de costumes: “menino veste azul, menina veste rosa”.
Lugar fixo, desde o berço.
A mesma boca que hoje convoca os homens para luta e cobra responsabilidade coletiva contra a violência de gênero definiu, ontem, o lugar da mulher pela cor da roupa. O papel fixo e o silêncio serviam enquanto ela estava dentro do governo. A emancipação serve agora que ela precisa de espaço fora dele.
Michelle carrega a própria versão da mesma incoerência, só que a dela vem de mais longe: construiu imagem pública em cima da submissão como virtude, o discurso evangélico de que a esposa se sujeita ao marido como a igreja se sujeita a Cristo, modelo vendido desde a campanha de 2018, quando ela era apresentada como a mulher que sustenta o marido calada e sem questionar. Agora, grava 27 minutos denunciando ter sido desrespeitada e silenciada por um homem da própria família.
A virada não veio de uma reflexão sobre o papel que ela mesma ajudou a pregar. Veio no dia em que esse papel parou de lhe garantir palanque e passou a lhe custar posição dentro do partido.
Os discursos de Michelle e de Damares parecem se alinhar na semana que passou como uma conjunção astral rara; só que não tem nada de raro, nem de astral. É apenas um cálculo, e dos mais simples.
As duas miram o mesmo pedaço de eleitorado: a mulher conservadora que falta pra fechar a conta da campanha. Miram isso ao mesmo tempo porque a rachadura ficou grande demais pra esconder atrás do verniz da lealdade de partido, e boa demais para não capitalizar politicamente em cima dela.
Flávio, enquanto isso, não alinha discurso nenhum. Expõe desespero. Perdeu apoio feminino numa crise que ele mesmo criou e corre atrás de uma vice mulher como quem se agarra a uma tábua depois de afundar o próprio barco, não porque acredita no que está fazendo, mas porque não sobrou outro jeito de estancar a sangria antes que ela vire naufrágio de campanha.
Ninguém, nessa história, defende mulher nenhuma; apenas descobriram que “mulher” virou moeda de campanha e todo mundo no partido está gastando a mesma, ao mesmo tempo, sem trocado sobrando para ninguém.