David Alcolumbre não é um político qualquer. Oriundo de família de comerciantes, seus pais eram proprietários da loja Shalom Autopeças, onde ele trabalhou antes de ingressar na política. Aos 24 anos, foi eleito vereador de Macapá. Numerosa, a família Alcolumbre manda no Amapá, com atuação em setores como comércio, postos de combustíveis e atividades agropecuárias.
Em seguida, elegeu-se deputado federal pelo seu estado, em 2002, e foi reeleito por mais dois mandatos consecutivos, permanecendo na Câmara dos Deputados de 2003 a 2015. Sua projeção, contudo, ocorreu em 2019, quando, sob a égide do bolsonarismo, foi eleito presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional.
Hoje, Alcolumbre é um dos líderes do Centrão, o bloco político aglutinado ao redor de puro fisiologismo e busca incessante por poder, e comanda o que Jorge Mizael classificou como “parlamentarismo orçamentário” e o professor Cláudio Couto chama de “governo congressual”.
Nesse modelo, sempre existe um “primeiro-ministro” de ocasião. Há uma década, foi Eduardo Cunha. Há pouco tempo, era Arthur Lira. Hoje, Alcolumbre. Mudam os nomes, permanece o método: usurpar as competências e propriedades do Poder Executivo para sequestrar os recursos da nação, por meio de chantagem e ameaças, para fins próprios.
São políticos com pouquíssima expressão eleitoral, mas que passam a comandar os rumos do Brasil e estão sempre prontos a explodir o país em nome das suas farras espúrias. Personificam o modelo “extrativo-agrofinanceiro“, nas palavras de André Roncaglia, que condena o povo brasileiro ao nosso eterno processo de subdesenvolvimento nacional. O que lhes faltam em votos, eles têm de ambição.
Rejeição de Messias no STF
Por exemplo: eleito com pouco mais de 196 mil votos, Alcolumbre capitaneou no Senado a rejeição do nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, o que, constitucionalmente, é uma prerrogativa do presidente da República, que recebeu mais de 60 milhões de votos na mesma data.
É verdade que o Senado tem a premissa de sabatinar e, eventualmente, rejeitar o nome do indicado pelo presidente, o que não acontecia há mais de cem anos. Contudo, essa propriedade serve para avaliar o notório saber jurídico e a reputação ilibada do pretendente, além de dar a chance para a população entender as suas ideias e posicionamentos.
Quando a rejeição se dá por conta da preferência política de um senador ou por qualquer outro motivo que não sejam os citados acima, a nossa arquitetura constitucional é violada e os mecanismos que traduzem a soberania do voto popular em ações práticas encontram-se corrompidos.
O mesmo acontece com os orçamentos secretos, com as fraudes bilionárias, os cargos na estrutura estatal, os jatinhos, fundos partidários, cabides para familiares e o patrimonialismo que, em ampla medida, mantém a maior parte do Brasil presa ao século 16. Historicamente, figuras poderosas como Alcolumbre passam incólumes por tudo isso desde então.
Apesar disso, uma recente publicação da revista Veja caiu como uma bomba para o senador. Segundo o veículo, Vorcaro teria relatado o pagamento de US$ 30 milhões para Alcolumbre, por meio de uma conta no exterior. O senador negou e disse que processaria a revista.
Independentemente das cenas seguintes nessa novela, a leitura entre deputados e pares do senador no Congresso Nacional indica que Alcolumbre é cada vez mais percebido como a bola da vez na mira das autoridades que investigam o caso do Banco Master. Outras figuras, como o também senador Ciro Nogueira, estariam “além do ponto de não retorno”, conforme relato de um deputado federal que acompanha de perto a questão.

Assustado e acostumado com o bolsonarismo, Alcolumbre estaria pressionando o governo federal para botar um freio na Polícia Federal, no estilo do que fez Jair Bolsonaro para proteger a sua própria família.
Nesse cenário, atacar com as conhecidas “pautas-bomba”, que são projetos de lei que explodem os gastos públicos sem critério ou racionalidade, somente para dificultar a vida do governo incumbente, era uma questão de tempo.
Até aqui, estima-se um impacto total de algo entre R$ 270 bilhões a R$ 300 bilhões nos cofres públicos. Quase duas vezes o valor orçado para o Bolsa Família em 2026, por exemplo.
Caso insista nessa direção, Alcolumbre se demonstra disposto a sacrificar o povo brasileiro para tentar explodir o governo Lula no ano eleitoral. Resta saber se o senador-bomba conseguirá lograr o êxito ou descobrirá, de forma amarga, que optou por voar próximo demais ao sol.