Nas suas redes sociais, onde é um sucesso de audiência, o policial rodoviário federal Breno Faria, conhecido pelo perfil “Café com teu pai”, se identifica como um homem que tem uma missão: “ajudar as mulheres a entender os homens e entrar em um relacionamento feliz”. Para isso, ele faz vídeos curtos com conteúdos extremamente machistas e vende cursos que ensinam a “deixar um homem obcecado”, fazer um “homem te assumir” e por aí vai.
Breno, que tem milhares de seguidores nas redes (seus vídeos no TikTok, por exemplo, somam quase 30 milhões de likes), foi denunciado ao Ministério Público Federal e à Corregedoria da Polícia Rodoviária Federal pela deputada estadual Ediane Moura, do PSOL, e pela advogada Natália Boulos. Elas apontam irregularidades entre seu trabalho como influenciador e seu cargo no serviço público. Além disso, pedem que o MPF investigue o conteúdo de suas postagens, que, segundo a deputada, “desqualificam as mulheres”. Ela tem razão. E, para atestar isso, é só visitar seus perfis, que continuam ativos.
Ali, você vai encontrar vídeos com títulos como “por que uma mulher que come muita gente é vagabunda e um homem não”, “por que uma mulher não deve controlar uma relação”, “não tenha iniciativa na cama para o cara não achar que você tem um passado obscuro”, “homem bem sucedido só gosta de mulher magra” e outras pérolas do preconceito. É impossível ver sem tremer de raiva.
Ideologia redpill
Mas bobo ele não é. Breno faz a linha “simpaticão” e amigo das mulheres. Ele se coloca como um “brother”, que está ajudando e entregando segredos sobre “como os homens funcionam.”
Só que, no mundo do Breno, mulher não fala alto, não discute, não usa roupa “sensual”, não se impõe. Ou seja, mulheres são submissas e obedientes. Como sabemos, esse tipo de “ideologia redpill” (rótulo que ele, espertamente, nega), além de arruinar a vida das mulheres, pode fazer com que elas corram risco de vida.
Em março passado, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite da Rosa Neto foi preso sob acusação de matar a esposa, Gisele Alves Santana. Em seu celular, a polícia encontrou mensagens que diziam coisas como: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa, com amor, carinho e autoridade de macho alfa provedor, e fêmea beta obediente submissa”(sic). É isso o que os coaches de relacionamentos misóginos pregam. Ou seja, o risco é real.

Breno não é o primeiro nem vai ser o último a lucrar dando dicas de auto-ódio para mulheres. As redes estão cheias deles. Outro famoso e de sucesso é Ítalo Santos, que, com mais de 1.7 milhão de seguidores no Instagram, fala coisas como: “a mulher que se cala seduz mais”.
O sonho que esses homens vendem é legítimo: ter um parceiro e uma família. Não há nada de errado nisso. Problemático é o preço que muitas mulheres estão dispostas a pagar para se encaixar nesse sonho. E, claro, os homens que lucram ensinando mulheres a se odiarem precisam, sim, ser responsabilizados, assim como as plataformas que distribuem e lucram com esse tipo de conteúdo.
Lavagem cerebral
Entender as mulheres que caem nessa não é uma tarefa fácil. Mas a gente tem que lembrar que são anos de lavagem cerebral. Por um lado, elas se sentem diferentes das outras mulheres e, por isso, mais especiais.
Alguns comentários femininos que encontrei na página “Café com teu pai”: “Tenho o mesmo ponto de vista que o dele, por que um homem vai assumir uma mulher se ela já faz tudo dentro do namoro?”. “Mulher feminina nunca será rejeitada porque ela não chega em homem nenhum. Ela sabe que esse não é o papel dela.” “Do lado do meu namorado, nem abrir lata de geleia eu sei”. “Muita mulher não se dá valor. A culpa é dos dois lados. Por isso que estamos nesse caos”. Claro, a maioria dos comentários em suas páginas são de mulheres revoltadas. Ainda bem.
Mas não podemos negar o fato de que as discípulas existem e fazem cursos caros com esses misóginos. Um deles, ministrado por Breno, se chama Mulher Única e é vendido por ele no Instagram por mais de R$ 200.
A fórmula de lucro encontrada por esses coaches misóginos para ganhar é absurda e radical, mas não é nenhuma novidade.
A premissa de ensinar “fórmulas” de como conquistar um homem é antiga e popular. Quem tem mais de 40 anos lembra de ver em revistas femininas dicas de “como conquistar um homem”, “como agradar um homem na cama” e intermináveis listas do que esses reizinhos curtiam ou não. Fomos ensinadas a agradar e a achar que, sem namorado ou marido, havia algo errado com a gente.
Repito: são muitos anos de lavagem cerebral. Não é fácil sair dessa. Mas, sim, as instituições têm que agir (e, por isso, a lei que criminaliza a misoginia é tão importante) para que esses homens parem de lucrar com misoginia. E para que as mulheres brasileiras saiam dessa vivas.
(*) No sábado (18/4), o perfil “Café com teu pai” ficou indisponível no Instagram, mas permaneceu ativo em outras redes sociais.