Duas vitórias e uma lição
Duas datas do ano de 2026 já entraram para a história do século 21: 25 de outubro, no Brasil; 3 de novembro, nos Estados Unidos. De um lado, o segundo turno das eleições presidenciais, com a reeleição do presidente Lula, apesar de ter terminado o primeiro turno atrás do candidato Flávio Bolsonaro. De outro, o triunfo impressionante do Partido Democrata nas eleições de metade do mandato do presidente Donald Trump – as “midterm elections”.
Nos dois casos, os adversários não foram apenas os políticos rivais, mas também os interesses das grandes plataformas, que, sem o menor pudor, mobilizaram suas operações do algoritmo para favorecer candidatos da extrema direita. De igual modo, a mídia corporativa e o sistema financeiro não foram nada tímidos na explicitação de suas escolhas, sempre contrárias aos interesses das populações mais carentes. Poucas vezes o que estava em jogo foi posto na mesa com idêntica desfaçatez.
(É o juízo final. A luta do bem contra o mal. Quero ter olhos pra ver. A maldade desaparecer.)
Nos dois países, a extrema direta foi derrotada com eloquência; no caso brasileiro, com ares épicos de uma virada que parecia, se não impossível, pelo menos muito improvável. No caso estadunidense, já se esperava o triunfo democrata, mas não na proporção em que se deu: o maior em aproximadamente sete décadas. Em ambas as circunstâncias, foi decisiva a mobilização nas ruas, inédita em seu alcance e dimensão para o campo progressista no século 21. Mas não se subestime uma pioneira onipresença nas redes sociais, que, pela primeira vez, permitiu superar o protagonismo digital da extrema direita. A combinação desses dois fatores é a lição mais importante: aprofundar a intuição, intensificar o método e, sobretudo, compreender que a extrema direita veio para ficar e que não haverá bala de prata capaz de superá-la de uma vez por todas.
Dois senadores e uma alternativa

Nas eleições estadunidenses, o triunfo de dois senadores oferece uma alternativa muito fecunda para a situação brasileira.
Passo a passo.
No Texas, James Talarico, do Partido Democrata, derrotou Ken Paxton, do Partido Republicano, que contou com o apoio milionário de Elon Musk. Centenas de milhões de dólares foram despejados na campanha republicana para derrotar o oponente democrata. Sua resposta foi exemplar: James Talarico é evangélico e insistiu no que denominou a “política do amor” contra o ódio, expondo a hipocrisia dos evangélicos fundamentalistas que abraçam uma política de ressentimento e de exclusão. Abraçar o cristianismo em sua essência amorosa e, portanto, inclusiva foi a decisão que conquistou os corações e as mentes dos eleitores texanos e lhe assegurou uma vitória consagradora.
No Michigan, o muçulmano Abdul El-Sayed, do Partido Democrata, enfrentou não apenas Mike Rogers, do Partido Republicano, mas também o discurso de ódio e o racismo declarado de Donald Trump, que, baseado numa versão mesquinha de nacionalismo, buscou estigmatizar El-Sayed como sendo fundamentalmente um candidato “não americano”, muito embora ele tenha nascido nos Estados Unidos. A resposta acertou no alvo: El-Sayed condenou o nacionalismo estreito de Trump como mesquinho e fundamentalmente antiamericano.
Estratégia de grande impacto!
A extrema direita avançou lançando mão de um duplo discurso: em tese, cristão e nacionalista. Mas, atenção, o cristianismo dos Trump e dos Bolsonaro é fundamentalista e, paradoxalmente, substituiu o amor pelo próximo pelo ódio a tudo que não seja espelho. Não é tudo: o nacionalismo dos Orbán e dos Bukele é excludente e estreito, deslocando o acolhimento pela eliminação de todo aquele que não corresponda a um modelo estreito.
Posso ser mais claro: James Talarico recorda que, para ser cristão, é preciso ter o amor pelo próximo como eixo da ação política. Abdul El-Sayed rememora que, para ser nacionalista, é necessário hospedar o estrangeiro como se ele fosse compatriota.
Claro, você me dirá que se trata de uma utopia. É isso mesmo: para superar o mundo distópico da extrema direita, a esquerda democrática deve reencontrar-se com a promessa utópica de mundos outros. E melhores porque mais fraternos e solidários.
(O sol há de brilhar mais uma vez. A luz há de chegar aos corações. Do mal será queimada a semente. O amor será eterno novamente.)