Ninguém esperava por isso. Nem mesmo os analistas políticos mais perspicazes. Todas as analogias parecem inadequadas: onda azul, tsunami, avalanche, derrota acachapante, repúdio, vitória esmagadora, acerto de contas.
Mesmo com alguns votos ainda sendo apurados em disputas acirradas, os números são impressionantes. Os democratas conquistarão pelo menos 250 cadeiras na Câmara (a maioria é de 218) e 54 ou mais cadeiras no Senado, de um total de 100. Os democratas também venceram eleições importantes para governos estaduais e legislaturas estaduais em todo o país. O dia 3 de novembro de 2026 foi uma derrota devastadora para Donald Trump e seus apoiadores.
Nenhuma vitória eleitoral foi tão dramática desde as eleições legislativas de 1974, ocorridas após o escândalo de Watergate ter forçado a renúncia do presidente Richard Nixon (1969-1974). Naquele ano, os democratas conquistaram 49 cadeiras na Câmara, quatro no Senado e quatro nos governos estaduais. Este ano, os democratas estão a caminho de obter a maior maioria na Câmara – para qualquer um dos partidos – desde 1992, alcançando um número de cadeiras quase igual ao de 1974. Eles conquistaram pelo menos seis cadeiras no Senado, venceram quatro disputas por governos estaduais e obtiveram triunfos significativos em legislaturas estaduais na Geórgia, no Texas e na Flórida – estados fundamentais para qualquer vitória presidencial em 2028.
Como os democratas realizaram essa proeza este ano?
Errático e vingativo
A resposta é complexa, mas começa com um mau candidato – que defendia políticas internas e externas ruins –, que figurou como a principal referência, embora seu nome não constasse em nenhuma cédula eleitoral. Em comícios de última hora organizados em estados com inclinação republicana, Trump implorou aos seus apoiadores mais fiéis do movimento MAGA que fingissem que ele estava na cédula e que votassem. Mas parece que eles não atenderam ao seu apelo, embora a taxa de comparecimento tenha atingido quase 50% dos eleitores aptos – um patamar próximo de um recorde, especialmente considerando que a disputa presidencial não estava em jogo. Em vez disso, parece que muitos dos que votaram em Trump nas três últimas eleições presidenciais optaram por ficar em casa ou por apoiar candidatos democratas.
Pesquisas indicam que até mesmo muitos de seus apoiadores leais estão exaustos com sua presidência errática e vingativa. Estão também irritados pelo fato de ele não ter cumprido as promessas eleitorais de 2024 – como controlar a inflação e o alto custo de vida, deportar apenas “os piores entre os piores” trabalhadores sem documentação e evitar “guerras intermináveis”.
Os preços de alimentos, moradia, seguros, assistência médica, gasolina e diesel continuam exorbitantes, e Trump não ofereceu qualquer alívio. Pelo contrário, ele dedica tempo excessivo a promover seus projetos de construção na região de Washington, D.C. – desde o seu “Golden Ballroom” até o seu “Arc de Trump”. Para os cidadãos comuns, que lutam para encher o tanque de combustível – em parte devido à guerra no Irã –, não é nada reconfortante saber que, na véspera das eleições, Trump organizou uma festa de Halloween luxuosa em Mar-a-Lago, que incluiu até um bufê de caviar.
A corrupção também foi um fator determinante para muitos que rejeitaram Trump e os republicanos. No ano passado, o presidente obteve pelo menos US$ 2,2 bilhões – em grande parte por meio de negociações obscuras com criptomoedas, nas quais interesses estrangeiros e nacionais, não declarados, provavelmente repassaram milhões ao presidente e à sua família em troca de favores de todo tipo, desde perdões presidenciais até contratos governamentais.
A deportação de milhões de imigrantes trabalhadores também afastou significativamente muitos eleitores. Os latinos, que haviam votado em Trump em grande número na eleição presidencial de 2024, mudaram de lado e retornaram aos democratas, destinando-lhes 60% de seus votos.
Embora muitos imigrantes latinos de segunda e terceira geração, de modo geral, sejam favoráveis a controles na fronteira com o México, a violência, as prisões direcionadas a pessoas que “pareciam” ser latinas e o assassinato de cidadãos e de outras pessoas fizeram com que muitos se afastassem de Trump. Uma coisa era a notícia da deportação de um assassino ou estuprador; outra, bem diferente, era o caso de uma imigrante que trabalhava em um serviço de baixa remuneração ao lado de cidadãos nascidos nos Estados Unidos.
O fato de Trump ter defendido a negação da cidadania a qualquer pessoa nascida nos Estados Unidos – um direito garantido pela 14ª Emenda da Constituição – certamente não lhe rendeu simpatia na comunidade latina. Isso desempenhou um papel significativo na vitória de Gina Hinojosa, que se tornou a primeira latina a governar o Texas, assim como em muitas outras vitórias eleitorais dos democratas. “Basta!” foi o grito de guerra.
Guerra interminável

A interminável guerra no Irã provocou preços astronômicos dos combustíveis, elevando os custos de transporte e de alimentação, além de encarecer os fertilizantes, o diesel e o escoamento de mercadorias para os mercados. As constantes hesitações e falsas promessas de Trump sobre quando a guerra terminaria apenas criaram a imagem de um vendedor vigarista de cidade pequena, mentindo sobre um produto defeituoso que ele tenta empurrar a um comprador.
As tarifas impostas por Trump também tiveram um efeito desastroso na economia dos EUA, restringindo o acesso a mercados estrangeiros e elevando os custos dos produtos – ônus que recaem sobre os consumidores, os quais acabam pagando essas tarifas. As batalhas incompreensíveis do presidente contra o Canadá e o México – bem como contra o Brasil, país com o qual os EUA mantêm um superávit comercial – deixam o cidadão comum perplexo. Muitos republicanos conservadores, residentes em estados que mantêm relações comerciais expressivas com o Canadá, voltaram-se contra o presidente ao presenciarem o declínio de suas economias locais, decorrente de políticas que pareciam, no mínimo, irracionais.
Diante desse cenário, eis cinco pontos em que os democratas acertaram:
1. Manter o foco na mensagem central. Apesar de os anúncios de campanha republicanos tentarem desviar a atenção dos eleitores de suas preocupações – algumas das quais mencionadas anteriormente –, os democratas mantiveram-se rigorosamente focados em temas como a economia, a corrupção e a guerra. Mesmo com o uso, por parte dos republicanos, de inverdades de cunho anticomunista para incutir medo no eleitorado, os candidatos democratas recusaram-se a mudar de assunto, insistindo em uma plataforma voltada às frustrações dos eleitores com a situação atual.
2. Recrutar candidatos inteligentes e articulados. Os democratas incentivaram a candidatura de pessoas com experiência prática em áreas como negócios, medicina, saúde pública e educação. Por serem novos na classe política, esses candidatos conseguiam se identificar com os demais cidadãos e compreender os desafios do cotidiano. Eles trouxeram racionalidade, bom senso e capacidade argumentativa aos debates, ajudando a combater notícias falsas e peças publicitárias enganosas.
3. Formar um grupo diversificado de candidatos. O Partido Democrata recrutou ou apoiou uma ampla gama de candidatos que refletia a composição social tanto do partido quanto da nação, resultando em uma diversidade significativa em termos de raça, etnia, gênero, orientação sexual e religião. No Senado, foram eleitos: um muçulmano, três mulheres negras, um homem abertamente gay e um atleta que conquistou quatro medalhas de ouro no basquete em cadeira de rodas nas Paralimpíadas. Nas disputas por governos estaduais, os eleitores elegeram dois governadores hispânicos e cinco governadores negros.
4. Aproximar-se de líderes religiosos progressistas. A polarização no país amplificou a influência de cristãos evangélicos alinhados a Trump, que defendem uma agenda socioeconômica e cultural conservadora, marcada por posições antiaborto e contrárias aos direitos das pessoas trans. Nada melhor para desafiar aquelas posições fundamentadas na Bíblia do que um seminarista presbiteriano de fala mansa, vindo do Texas, e um pastor da maior megaigreja metodista do Kansas, ambos defensores de uma leitura progressista da Bíblia. Eles parecem ter conquistado parcelas significativas de republicanos religiosos para a sua causa, sem abrir mão de seus princípios.
5. Mobilizações encorajadoras. Logo após a eleição de Trump, ativistas de base começaram a organizar mobilizações nacionais em grande escala contra o seu governo, em milhares de locais, do Alasca à Flórida. Essas ações evoluíram para manifestações sob o lema “Não queremos reis” (“No Kings”), que criaram um senso de comunidade, incentivando as pessoas a se organizarem localmente e a trazerem novos participantes para o processo político. Um fenômeno paralelo, que também mobilizou a população, foram os protestos contra o ICE (órgão de imigração dos EUA), que levaram cidadãos americanos a se juntarem a um movimento enérgico em defesa de seus vizinhos sem cidadania.
Com esses e muitos outros elementos, eles geraram uma onda histórica, que agora enfrenta o desafio de derrotar as políticas de Trump nos próximos dois anos, bem como os candidatos republicanos que aspiram sucedê-lo na Casa Branca.