Flutuando sobre a multidão verde e amarela, um boneco inflável gigante estampava a figura de Donald Trump. Nas mãos do presidente dos Estados Unidos, estava um pixuleco à moda Lava Jato do presidente Lula, com trajes de presidiário. A cena estampou a Avenida Paulista no último 7 de Setembro, em manifestação convocada pelo candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro.
A imagem foi tratada por alguns setores do debate público e pela imprensa como mera provocação de campanha. Não é. Poucas cenas foram tão didáticas sobre o que está em jogo nessas eleições como aquele boneco inflável. É a tradução visual mais crua de um projeto autoritário que quer submeter a soberania brasileira à tutela de forças estrangeiras. E a nossa extrema direita está disposta a rifar a autonomia do próprio país.
É por isso que a eleição de 2026 é a mais importante da nossa história: o que está em risco não é mais “apenas” a nossa democracia; é a nossa própria existência como nação democrática e soberana.
Bukelização do Judiciário brasileiro
Flávio Bolsonaro, que apitou a convocação do 7 de Setembro, prometeu abertamente que, se eleito, indicará cinco novos ministros ao Supremo Tribunal Federal, já contando com o impeachment de Alexandre de Moraes – que, segundo ele, “vai cair”. O 01 não faz questão de esconder (muito pelo contrário!) que o objetivo é chegar a uma “bukelização” do Judiciário brasileiro, espelhada no modelo do presidente de El Salvador, cuja maioria parlamentar destituiu em bloco os magistrados da Suprema Corte para concentrar o poder no Executivo.
Os autores Steven Levitsky e Daniel Ziblatt explicam em Como as Democracias Morrem que os autocratas contemporâneos não precisam de tanques nas ruas, como nos golpes militares clássicos – o sistema é corroído por dentro, a partir do aparelhamento dos tribunais. Na Hungria de Viktor Orbán, o expurgo de juízes independentes transformou a Corte Constitucional num braço do regime. Quando a extrema direita brasileira promete aparelhar o STF, ela quer transformar a Suprema Corte num tribunal de exceção.
Diante de uma ameaça dessa dimensão, o papel da imprensa deve ser o de uma vigilância intransigente das regras do jogo. Mais do que isso: de explicar, com todas as letras, o que está em jogo de fato. Mas o que se assiste nos grandes jornais é a uma perigosa máquina de falsas equivalências entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, equiparando suspeitas de desvios éticos e abusos de poder com um ensaio de golpismo. Um esforço diário de equiparar a defesa da ordem constitucional ao golpismo escancarado, tratando o fascismo como se fosse mais uma opção legítima no cardápio.
A mídia corporativa precisa acordar para o fato de que a neutralidade diante da barbárie é assumir uma posição de cúmplice. A normalização dos absurdos já cobrou preços altos na nossa história recente, começando pela Lava Jato, que pariu como sua linha auxiliar o próprio bolsonarismo.
Uma semana de reviravoltas
Assistimos a uma verdadeira metralhadora de decisões de André Mendonça, colocando a Polícia Federal e o STF sob fogo cruzado. Primeiro, o ministro determinou o afastamento sumário do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A canetada usurpava a prerrogativa constitucional do presidente da República em nomear o comando da corporação – o que acabava por decretar o apagão das investigações.
Simultaneamente, o mesmo magistrado mandou soltar investigados e retirar tornozeleiras eletrônicas de envolvidos no escândalo do INSS, beneficiando ex-integrantes do governo Bolsonaro. Tudo ganha contornos ainda mais graves com a revelação de que Mendonça realizou encontro secreto fora da agenda oficial, no Instituto Iter, com Vorcaro.
Diante do afastamento da cúpula da PF, a resposta inicial da presidência do STF surpreendeu pela morosidade – quase um estado de coma na reação. O ministro Edson Fachin já havia aberto um procedimento para apurar as acusações e concedeu prazo de 72 horas para que Mendonça prestasse explicações – uma eternidade diante da urgência que sangrava o tribunal. Foi preciso que o ministro Flávio Dino anulasse a decisão de Mendonça, restituindo o comando da PF no âmbito do inquérito do caso Dark Horse.
Após ser provocado por Dino, Fachin, finalmente, tomou uma medida de centralização institucional: suspendeu tanto a canetada de Mendonça que afastara a cúpula da PF quanto a decisão de Dino, que a havia reintegrado.

A intervenção de Dino foi uma demonstração de altivez, ou coragem quixotesca, como lembrou o jornalista Xico Sá na coluna do site do ICL Notícias ao falar de outra decisão do ministro. Naquela ocasião, em fevereiro de 2026, o magistrado determinara a suspensão do pagamento de penduricalhos e verbas indenizatórias sem base legal que permitiam furar o teto constitucional nos Três Poderes. Sabiamente, Xico escreveu que era preciso quixotear juntos nessa causa, numa medida que era histórica. Me parece que, agora, precisamos quixotear juntos novamente – pela democracia.
Na quarta-feira (9/9), além de retirar Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito das fake news (que já dura sete anos) e paralisar investigações cruzadas entre magistrados, Edson Fachin convocou o plenário para deliberar sobre o processo de Mendonça, que acusa o colega Moraes a partir de relatório da PF que traz mensagens enviadas de Vorcaro a Alexandre. A sessão ficou marcada para a próxima terça-feira, no dia 15 de setembro. Traduzindo: vai ser nesta data que o STF decidirá se investiga ou não Moraes.
Mas foi na quinta (10/9), à noite, depois de um dia intenso em que a PF deflagrou sua maior operação contra a dona da produtora do filme Dark Horse, que veio a bomba: Fachin anunciou a queda do sigilo de todos os inquéritos relacionados ao caso Master. Na decisão, pediu providências a Mendonça. Só deveria ser mantido em sigilo o que fosse estritamente essencial. O problema é que não foi bem assim. Na prática, ficou ao encargo de André Mendonça atender o que considerasse cabível. O caso segue debaixo da asa do relator, que decide o que vem ou não a público: ele levantou o sigilo de 15 procedimentos envolvendo o Master. Mas o que envolve Dark Horse, por exemplo, continua sob sigilo, assim como o que alcança Ciro Nogueira (PP/PI). No inquérito específico sobre Dark Horse, já se sabe que Flávio Bolsonaro é investigado pela PF no inquérito que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento do filme.
É diante de crises como essa – e essa não é uma crise qualquer – que se revela o verdadeiro papel da imprensa. O que está em jogo é muito maior do que uma disputa fratricida entre ministros, como se lê no noticiário. A força de uma democracia também se mede pela capacidade da imprensa em não aceitar a naturalização do absurdo nem se conformar com o avanço da barbárie. Não há meio-termo possível entre o Estado democrático de direito e um projeto fascista em curso, relativizado com discursos de falsas equivalências.
Se não houver uma reação firme, célere e combinada com a mobilização popular, é provável que no próximo ano não exista mais um STF como o que conhecemos. A Corte caminhará para se tornar ingovernável, chantageada por decisões de exceção e capturada antes mesmo do resultado das urnas. A salvaguarda não pode depender de um heroísmo individual, enquanto a presidência do Tribunal titubeia e a imprensa ainda teme chamar as coisas pelo nome. É hora de defender a República, antes que seja tarde demais.