Vamos lá?

O que fazer para que a barbárie não seja a única possibilidade de futuro
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Tenho pensado muito em Abdias Nascimento.

E se ele estivesse vivo?

O que pensaria ao olhar para a política brasileira de hoje? O que sentiria ao ver tanta gente disputando o poder enquanto a democracia parece, tantas vezes, ficar em segundo plano?

Não sei responder. Mas tenho feito essa pergunta a mim mesma.

Talvez porque esta seja a primeira vez, em mais de duas décadas como jornalista, que acompanho tão de perto o cotidiano da política. Estou cobrindo a eleição, mas também vivendo seus bastidores como articuladora política. Converso com candidatas, participo de reuniões, acompanho partidos, escuto projetos. Estou vendo de perto uma parte da política que normalmente chega ao público já editada.

E confesso: tenho me sentido ansiosa por assistir a uma disputa com poucas ideias e excesso de sujeira.

Não é a divergência que me incomoda. Pelo contrário. Política sem conflito não existe.

É que sinto falta de uma disputa em que o conflito esteja nas propostas.

Hoje, vejo uma política muito mais interessada em provocar, desqualificar, atacar e criar inimigos. E, principalmente, uma disposição preocupante para tratar o poder como um projeto pessoal.

Isso me angustia.

Porque poder deveria ser meio.

Se vira finalidade, todo o resto começa a parecer descartável: instituições, adversários, regras, limites. Até a própria democracia.

Tenho pensado nisso enquanto acompanho esta eleição e me pergunto se, depois da redemocratização, já vivemos uma disputa institucional tão atravessada pela barbárie.

Talvez outras gerações tenham feito a mesma pergunta em outros momentos. A história brasileira tem motivos de sobra para isso.

Mas há algo particularmente desconcertante no presente.

A sensação de que estamos discutindo muito sobre pessoas e pouco sobre o país.

Muito sobre quem ganhou a briga do dia. Pouco sobre quem está pensando no Brasil daqui a dez, vinte, trinta anos.

E isso me preocupa.

Porque o Brasil não é um país pequeno, sem recursos ou possibilidades.

Mas riqueza não significa desenvolvimento.

É preciso decidir o que fazer com ela e pensar em soberania para decidir o que fazer com aquilo que é nosso.

Quanta pobreza de debate estamos oferecendo ao país, hein!?!

Evolução de conquistas civilizatórias

Talvez seja por isso que, no meio de tudo isso, uma reunião tenha me feito tão bem.

Fui convidada para uma conversa com mais de 20 mulheres do partido Unidade Popular. Havia candidatas a governos estaduais, ao Senado, à Presidência e à Vice-Presidência da República.

Mais de vinte mulheres reunidas para falar de política.

E eu fiquei olhando para aquela sala.

Não eram apenas candidatas.

Eram mulheres falando sobre trabalho, direitos e sobre o país que gostariam de construir.

E materializei:

Existe um projeto futuro de país possível.

Abdias Nascimento foto Chester Higgins Jr reprodução IPEAFRO (1)
Abdias Nascimento: referência central na luta pelos direitos das populações negras (Foto: Chester Higgins Jr/IPEAFRO)

Um país feito por gente de verdade.

Por trabalhadoras e trabalhadores diversos.

Um Brasil que não seja pensado apenas a partir dos interesses e perspectivas de quem já tem poder.

Foi uma sensação boa.

Logo eu, que por tantos dias acompanho a política pelo lado mais feio, encontrei ali uma coisa que estava começando a me fazer falta: a esperança.

E é isso que me interessa.

A política como ferramenta.

Não como projeto individual.

Mas como uma evolução de conquistas civilizatórias.

É o que entendo por bem viver.

E talvez seja justamente por acreditar nisso que tenho acompanhado com tanta atenção a presença das mulheres negras na política.

Não porque a política deva ser dividida em pequenas caixas identitárias, mas é real o impacto do acesso aos espaços onde as decisões são tomadas.

Eu mesma estou vivendo uma experiência nova.

Sou jornalista há mais de duas décadas. Sempre acompanhei política de algum modo, mas agora estou vendo a eleição também pelos bastidores, como articuladora política.

E isso muda o olhar.

Você começa a perceber o quanto já existe de novo acontecendo.

Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, por exemplo, 25 deputadas federais negras apresentaram 1.076 projetos de lei na Câmara dos Deputados. Segurança pública, justiça, saúde e combate à violência contra as mulheres estão entre os principais temas.

É um dado que diz muito.

Porque, enquanto uma parte da política está ocupada em produzir conflitos, há parlamentares trabalhando, apresentando projetos e tentando responder a problemas concretos.

E há outra coisa que não consigo ignorar.

A violência política contra as mulheres cresceu 380%. Foram 149 processos registrados entre janeiro e agosto de 2026, contra 31 no mesmo período de 2024.

É muita coisa e talvez essa seja uma das grandes disputas do nosso tempo.

Quem pode ocupar o espaço público?

Quem pode falar?

Quem pode discordar sem ser ameaçado?

Como jornalista, essas perguntas me atravessam.

Mas não quero que este texto seja apenas sobre isso.

Porque o que está em jogo é uma política baseada permanentemente no medo, no ódio e na destruição do outro?

Ou saber se ainda somos capazes de recuperar alguma coisa que parece ter ficado pelo caminho da construção coletiva?

Ameaça de golpe

Talvez Abdias olhasse para nós e ficasse indignado.

Talvez também reconhecesse algumas conquistas que, em outros tempos, pareciam impossíveis.

Gosto de imaginar que ele faria as duas coisas.

Não romantizaria os avanços, mas também não deixaria que a barbárie apagasse aquilo que foi construído.

É disso que tenho tentado me lembrar.

Porque, sim, estou cansada de tanta baixaria.

Estou cansada de acompanhar ameaça de golpe.

Estou cansada de ver instituições testadas o tempo todo.

Estou cansada de perceber que os freios e contrapesos que deveriam proteger a democracia parecem, em alguns momentos, tão frágeis.

Talvez a pergunta deste momento não seja apenas se estamos diante da democracia ou da barbárie.

Talvez seja o que vamos fazer para que a barbárie não seja a nossa única possibilidade de futuro.

Eu ainda acredito que existe outro caminho.

E talvez seja por isso que continuo na política, mesmo quando ela me cansa.

Porque eu acredito no bem viver.

E, olhando para aquela sala com mais de vinte mulheres dispostas a disputar os rumos do país, pensei:

Vamos lá?

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