Quarto mandato de Lula deve ter as cores das ruas

Não pode haver descompasso entre governo e anseios que foram decisivos para o resultado eleitoral
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A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de outubro, com um acréscimo de mais de 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno e uma diferença do outro candidato duas vezes maior em relação à disputa de 2022, não foi obra do acaso.

O resultado eleitoral no Brasil foi fruto da combinação de múltiplos fatores: a mobilização diante do medo de um novo avanço do fascismo, o reaparecimento da participação popular ativa, mas foi também, sem dúvida, fruto de um acúmulo histórico da esquerda brasileira ao longo dos últimos 50 anos, período em que foram construídos e enraizados instrumentos políticos, sociais e organizativos em todo o país, capazes de disputar os rumos da sociedade e dialogar com amplos setores da população.

Principal liderança e símbolo desse ciclo político, que tem suas raízes no final dos anos 1970, Lula mantém fortes laços de identidade com a classe trabalhadora. Para amplos setores populares, ele representa a possibilidade de defesa e ampliação de direitos históricos e de conquistas sociais alcançadas, especialmente, durante os governos do PT.

Após o resultado do primeiro turno, que terminou com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à frente na votação, intensificaram-se as manifestações de massa, sobretudo com a participação da juventude. Essas mobilizações contribuíram para politizar a disputa no segundo turno e deram maior visibilidade à defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e da democracia.

O engajamento da juventude na campanha e a mobilização nas ruas contribuíram para ampliar a capacidade de comunicação e mobilização da candidatura na reta final, em articulação com os anúncios de políticas públicas feitos pelo presidente Lula.

Os erros políticos e as contradições da campanha de Flávio Bolsonaro também abriram espaço para a reação da campanha do Lula. Declarações sobre mudanças na Constituição, a polêmica com a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, a promessa de um “tesouraço” nas contas públicas e os movimentos de composição antecipada de um eventual governo contribuíram para ampliar a rejeição de setores da sociedade ao projeto representado pelo candidato do PL.

A vitória de Lula, em um cenário de mobilização de massas e de intensificação da disputa no ambiente digital, coloca novos desafios ao governo e às forças populares. O resultado eleitoral abre uma nova etapa de disputas políticas, na qual a sustentação social do governo, a participação popular e a capacidade de organização da esquerda serão fatores importantes.

As mobilizações que contribuíram para a vitória de Lula precisam se expandir e criar raízes no cotidiano da população, especialmente entre a juventude. É necessário transformar a energia da campanha em organização permanente, luta popular e mobilização em defesa da soberania nacional, dos direitos sociais e da democracia, e mesmo levantar bem alto a bandeira da solidariedade entre os povos e a defesa da natureza.

Para isso, é fundamental retomar e ampliar o debate na sociedade sobre os eixos de um projeto popular para o Brasil, capaz de fortalecer a soberania nacional, fazer reformas estruturais (como a reforma agrária) e enfrentar os problemas concretos do povo brasileiro.

Lula segundo turno foto ricardo stuckert pr
Lula representa a possibilidade de defesa e ampliação de direitos históricos (Foto: Ricardo Stuckert/Pr)

Lições para a esquerda

O quarto mandato presidencial de Lula não pode repetir os erros políticos que marcaram o segundo governo da presidenta Dilma Rousseff. Em 2014, a mobilização em torno da campanha “Muda Mais” expressou expectativas de mudança e aprofundamento das transformações sociais.

A adoção de um forte ajuste fiscal logo depois, com medidas que afetaram direitos e expectativas de setores populares, contribuiu para a frustração de parte da base social que havia se mobilizado por sua reeleição.

O governo Lula precisa refletir as cores das ruas. Não pode haver um descompasso entre as decisões do governo e as expectativas, reivindicações e anseios que ganharam expressão durante o segundo turno e foram decisivas para o resultado eleitoral.

A crise do imperialismo dos Estados Unidos, em meio à intensificação da disputa geopolítica com a China, amplia as tensões internacionais e os riscos de conflitos. Nesse cenário, o Brasil precisa defender sua autonomia, fortalecer a soberania nacional e ampliar sua participação na construção de uma nova ordem internacional.

A luta anti-imperialista deve se expressar tanto nas mobilizações populares em defesa da soberania do Brasil quanto na política externa do governo, nos espaços de articulações diplomáticas e integração internacional.

A jornada eleitoral que levou à vitória de Lula no segundo turno deixa lições importantes para a esquerda brasileira e internacional, que devem orientar a atuação política e organizativa no próximo período.

Os novos sujeitos que despontaram nesse processo, especialmente a juventude, devem conquistar maior protagonismo na vida política e nas organizações populares. Isso exige ampliar sua participação nos espaços de decisão do governo e na direção das organizações da classe trabalhadora.

A comunicação digital e as redes sociais não são apenas instrumentos de diálogo e convencimento, mas ferramentas para estimular a organização e a ação política. Não existe mais fronteira entre as tarefas de organizar e comunicar.

A esquerda precisa renovar seus métodos de organização e mobilização, considerando as transformações da sociedade e as características das novas gerações. A cultura, em suas diversas expressões, pode cumprir um papel central na construção coletiva, no fortalecimento dos valores humanistas da solidariedade e da cooperação, no engajamento da juventude e na ampliação do diálogo com a sociedade.

A vitória de Lula, conquistada numa disputa com o imperialismo, a classe dominante brasileira, o agronegócio e forças políticas e midiáticas alinhadas ao projeto da direita representa uma oportunidade para a esquerda construir um novo ciclo de lutas e avanços da classe trabalhadora.

Para isso, é necessário recuperar uma perspectiva estratégica, preparando as diferentes geração para as disputas de médio e longo prazo. Essa tarefa envolve fortalecer a organização popular, ampliar a mobilização popular, defender a democracia e criar condições políticas para resistir ao imperialismo e impulsionar transformações no Brasil e em toda a América Latina.

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