Durante muito tempo, eu acreditei que as apostas eletrônicas fossem apenas um tema técnico. Aprendi do pior jeito que estava errada.
Meu irmão tirou a própria vida. Não foi de um dia para o outro. Foi aos poucos, do nosso lado, sem a gente perceber a dimensão da batalha que ele enfrentava.
Depois daquele dia, a vida passou a ser dividida entre o “antes” e o “depois”. Há um vazio que nunca será preenchido, perguntas sem resposta e uma necessidade quase instintiva de impedir que outras famílias experimentem esse mesmo sofrimento.
Eu não cheguei a esse tema por interesse acadêmico. Cheguei pela dor.
Como advogada, pesquisadora e auditora de controle externo, comecei a estudar o fenômeno das apostas de quota fixa, como são chamadas na Lei das Bets. Mas foi como irmã que compreendi a dimensão humana do problema.
Logo percebi que o debate público havia esquecido justamente isso.
Falávamos de arrecadação, de regulamentação e de mercado. Falávamos sobre empresas, plataformas e autorizações. Quase ninguém falava sobre pessoas.
Impactos sociais
Enquanto o mercado crescia em velocidade impressionante, cresciam também o endividamento, os relatos de ansiedade, depressão e perda de patrimônio. Cresciam histórias de trabalhadores que comprometiam o salário todo do mês, de aposentados que perdiam as economias de uma vida inteira e de jovens que passaram a enxergar o jogo como uma forma de construir o futuro, quando, na realidade, ele foi desenhado para produzir lucro para a plataforma, e não para o apostador.
Essa talvez seja a maior distorção do debate brasileiro. Nós naturalizamos uma atividade que depende da repetição constante do comportamento do consumidor.
Essa normalização não acontece por acaso. Ela é construída todos os dias.
As apostas invadiram o esporte, os intervalos da televisão, as redes sociais e o cotidiano. Estão estampadas nas camisas dos times, nos estádios, nas transmissões esportivas, nas páginas dos influenciadores e no celular de milhões de brasileiros. A publicidade passou a vender pertencimento, emoção e a falsa ideia de que apostar faz parte da experiência esportiva.
O problema é que propaganda também educa.
Enquanto adultos são estimulados a enxergar as apostas como entretenimento, crianças e adolescentes crescem cercados por marcas de bets. Antes mesmo de terem idade para apostar, aprendem a associá-las ao esporte, à vitória, ao sucesso e à diversão. Estamos formando uma geração para a qual apostar deixa de ser uma exceção e passa a parecer um comportamento natural.
Ao mesmo tempo, os impactos sociais se tornam cada vez mais evidentes. Famílias inteiras se endividam. Há registros oficiais de utilização de recursos de beneficiários do Bolsa Família em apostas, revelando que essa indústria também alcança, justamente, quem mais necessita da proteção do Estado.
Quando decidi tornar público o motivo da morte do meu irmão, não foi apenas para explicar às pessoas da nossa convivência por que ele havia mudado tanto nos últimos tempos. Foi também um grito de indignação.
Depois daquela publicação, no dia 23/12 do ano passado, começaram a chegar milhares de mensagens de todos os cantos do país. Cada relato parecia carregar a mesma dor, a mesma vergonha e o mesmo pedido silencioso de ajuda.

Risco de dependência
Foi nesse momento que compreendi que a morte do meu irmão não podia ser tratada apenas como uma tragédia familiar. Ela revelava um problema coletivo, que ainda permanecia invisível.
Foi essa convicção que me levou a ajuizar uma ação popular questionando a utilização de recursos públicos para promover apostas. Não porque acredito em soluções fáceis, mas porque políticas públicas precisam ser coerentes com as evidências.
Não faz sentido reconhecer que existe risco de dependência e, ao mesmo tempo, permitir a normalização do jogo.
Não faz sentido investir recursos públicos para tratar as consequências, enquanto se fortalece a causa.
Eu continuo pesquisando, escrevendo, ouvindo especialistas e dialogando com quem pensa diferente de mim. Mas existe uma convicção que nenhuma pesquisa será capaz de modificar.
Nenhuma arrecadação compensa uma vida perdida.
Nenhuma campanha publicitária vale o sofrimento de milhares de famílias.
Se este artigo servir para provocar uma única reflexão, espero que seja esta: antes de discutirmos o quanto as apostas movimentam a economia, precisamos perguntar quanto elas estão custando na vida das pessoas.
Meu irmão já não está aqui para contar a história dele.
Talvez seja por isso que eu tenha escolhido dedicar meu tempo para contar essa história por ele.
Na esperança de que, um dia, nenhuma outra criança cresça acreditando que apostar é parte natural do esporte. Que nenhum adolescente seja educado pela publicidade antes mesmo de compreender os seus riscos. Que nenhuma família veja o dinheiro do alimento, do aluguel ou de um benefício social desaparecer em uma plataforma de apostas. E, sobretudo, na esperança de que nenhuma outra irmã precise escrever um texto como este.