Foi nas palavras de Rubem Alves e Paulo Freire, dois educadores brasileiros, que encontrei algo parecido com um sentimento coletivo diante do que está por vir.
Rubem Alves escreveu sobre a teimosia da esperança. “Hoje não há razões para otimismo. Hoje só é possível ter esperança. Esperança é o oposto do otimismo. Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.”
Em Pedagogia da Esperança, Paulo Freire afirma que ser esperançoso é um imperativo existencial. Mas faz uma ressalva fundamental. “Não quero dizer, porém, que, porque esperançoso, atribuo à minha esperança o poder de transformar a realidade e, assim, convencido, parto para o embate sem levar em consideração os dados concretos, materiais, afirmando que minha esperança basta. Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita de água despoluída.”
É numa combinação dessa esperança e de um medo de quem acompanhou de perto as movimentações eleitorais e das campanhas que tento pensar o Brasil de agora.
Soberania e direitos humanos estão em risco
Sim, medo. Fui acometida por ele várias vezes ao longo das últimas semanas ao pensar na possibilidade real de um governo autoritário – agora, com o apoio de Donald Trump na Casa Branca. A ideia de que o processo eleitoral é um ritual periódico de alternância de poder ruiu há muito tempo.
A extrema direita está longe de se comportar como uma oposição institucional legítima. Ainda assim, a imprensa hegemônica tenta nos fazer engolir – em meio a sabatinas, debates e manchetes que operam na lógica do jornalismo declaratório – que está em jogo a preferência por um ou outro modelo econômico; ou que estamos debatendo somente uma ou outra divergência programática sobre políticas públicas. Não. Estamos falando da própria sobrevivência das instituições, da nossa soberania e dos direitos humanos mais básicos.
Já vimos esse filme. No governo de Jair Bolsonaro, a imprensa era inimiga. A violência era estimulada dia e noite. As urnas foram descredibilizadas e as instituições sofreram uma série de ataques. A ciência, a educação e a cultura eram tratadas como ameaças. As mortes de milhares de brasileiros pareciam mero detalhe no caminho de um projeto de poder autocrático.
Enquanto famílias enterravam seus mortos durante a pandemia de covid-19, o presidente dizia: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”. Quando questionado sobre a responsabilidade diante das vítimas, respondeu: “Não sou coveiro”. Gabando-se de um suposto “histórico de atleta”, caso fosse contaminado pelo vírus, disse que teria apenas uma “gripezinha”. Bolsonaro chegou a imitar doentes com falta de ar e a dizer que o Brasil precisava deixar de ser “um país de maricas”.
O conceito de necropolítica, de Achille Mbembe, é a administração de quem vive e quem morre. Em outras palavras, quais grupos são sacrificados em nome de uma suposta ordem. No governo Bolsonaro, o país viu essa lógica operar de maneira brutal. Não se tratava de incompetência. Era método. O presidente minimizou a doença, atacou medidas de proteção, desqualificou as vítimas e estimulou a desconfiança das vacinas – com consequências sentidas até hoje na nossa cobertura vacinal –, tratando a proteção coletiva como disputa ideológica.
O caos produzido por Bolsonaro mobilizava sua base radicalizada, enquanto desorganizava o debate público, intimidava adversários e deslocava a discussão dos problemas concretos para a guerra cultural.

Não há espaço para apatia ou derrotismo
O perigo que Flávio Bolsonaro representa para as instituições brasileiras é a continuidade desse projeto de degradação. Mas não só. Como alertei na minha última coluna na Liberta (sobre o risco Flávio e a institucionalização de um narcoestado), seria a ponte perfeita entre a violência que subjuga territórios e o pragmatismo amoral do mercado financeiro. O que está em jogo neste pleito é se permitiremos que o comando do Estado brasileiro seja capturado e transformado em um balcão de negócios para o crime e o extremismo.
Não há espaço para ceder ao derrotismo ou à apatia – é exatamente nessa brecha que o neofascismo busca se fortalecer. A desesperança é uma arma de dominação política. Quando a sociedade se convence de que nada mais pode ser feito, a extrema direita encontra o terreno para avançar.
Teimamos em ter esperança, justamente, porque sabemos qual é a destruição produzida pelo autoritarismo. Nos últimos quatro anos, buscamos reconstruir, pouco a pouco, aquilo que foi barbarizado. Há forças políticas capazes de disputar o futuro, a dignidade e o sonho de uma nação. O Brasil não está condenado a repetir uma distopia dos anos Bolsonaro. E é nesse sentido que a esperança crítica de Paulo Freire nos convoca à mobilização: ocupar as ruas, conversar com indecisos, disputar o sentido da história.
O voto que depositamos nas urnas, em um primeiro e no provável segundo turno, não representa apenas a nossa perspectiva individual e visão de mundo. É a nossa reafirmação como existência coletiva e do país que queremos construir.
A esperança, aqui, é a decisão política de agir – para que a barbárie não seja aceita como destino.