Donald Trump: Cristo ou Davi?

Presidente dos EUA decide abandonar a mensagem cristã para abraçar o legado davídico
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Polêmica ociosa?

Não é tarefa fácil surpreender-se com as extravagâncias e incoerências de Donald Trump. Se o estilo é o homem, como queria o naturalista Buffon, a performance histriônica do presidente dos Estados Unidos vale por um autorretrato. Ainda assim, como entender a polêmica inventada por Trump tendo como alvo o Papa Leão XIV? É possível derivar consequências reais em meio a tanto desatino?

Creio que sim e a resposta à pergunta abre horizontes que, de outra forma, permaneceriam ocultos.

Passo a passo.

Devemos voltar ao espantoso ritual, verdadeiramente pagão, liderado pela televangelista Paula White-Cain, oficialmente indicada para o “White House Faith Office”, criado por Donald Trump. Vivemos em tempos em que o absurdo virou o cotidiano e o abjeto ousa se apresentar como moral.

“Bombardear, bombardear, bombardear, bombardear até a vitória”, ou seja, até a aniquilação completa do adversário, que só pode ser visto como inimigo, ontologicamente inferior, sem direito a existir, e que por isso deve ser eliminado. Verniz religioso que busca disfarçar a intolerância genocida que move esse tipo doentio de falsa espiritualidade. Somente nesse registro bélico é concebível que Donald Trump instrumentalize a religião para seu projeto de pilhagem sistemática de outros países.

Imagem com a bandeira dos Estados Unidos em enquadramento dramático com iluminação de céu nublado, sobreposta pela frase 'God Bless Our Troops' em letras brancas destacadas, acompanhada do ícone da Casa Branca. A peça ilustra a fusão entre discurso religioso e militarismo analisada no artigo, que descreve como a administração Trump substituiu a mensagem cristã de paz pelo legado davídico de guerra, usando a linguagem da fé como legitimação do projeto bélico.

Aqui, se ilumina o ataque ao Papado. Trump e sua administração decidiram abandonar a mensagem cristã para abraçar o legado davídico. Daí, não terem ouvidos para ouvir a exortação pela paz do Papa Leão XIV.

Posso ser mais preciso: Paula White-Cain traz no nome a vocação que define sua prática: a morte. Caim matou Abel porque sua oferenda não agradou ao Senhor tanto quanto a de seu irmão. A televangelista pentecostal está disposta a “neutralizar” qualquer ser humano que se oponha ao fundamentalismo que professa. Nada de novo sob o sol: além do povo, há também o Estado eleito: o arco da aliança entre Israel e Estados Unidos é o sentido último do termo Ἀποκάλυψις – o Apocalipse aqui e agora.

Zugzwang espontâneo?

A televangelista raivosa e o presidente errático se alinharam com a tradição de Davi, segundo rei de Israel, precedido por Saul e sucedido por Salomão. Em outras palavras, abandonaram completamente a lição de Cristo e, em lugar de oferecer a outra face, se orgulham em desferir a primeira bofetada; em lugar de amar ao próximo como a eles mesmos, são narcisos incapazes de empatia; no seu evangelho distorcido, o verbo não se fez carne, porém arma; não perguntam quem pode atirar a primeira pedra, desejam lançar a última, aquela que mata.

Posso ser ainda mais exato na descrição dos horrores dessa cosmovisão: basta recordar outra imagem que viralizou com a celeridade das fake news no ecossistema de desinformação da extrema direita.

Captura de post do perfil @realDonaldTrump no X contendo ilustração digital de estilo épico que representa o presidente norte-americano com vestes messiânicas brancas e manto vermelho realizando um ato de cura sobre um homem deitado, rodeado por soldados, a bandeira americana e símbolos nacionais. O artigo utiliza esta imagem viral para analisar a autoconstrução de Trump como figura quase divina — o que o autor João Cezar de Castro Rocha descreve como um zugzwang espontâneo: ao se retratar como Cristo, Trump expõe as contradições de sua retórica religiosa-militarista

No jogo de xadrez há uma posição muito bonita e rara de ser alcançada. É preciso que o jogador tenha habilidade suficiente para deixar seu adversário numa posição na qual, independentemente do lance que faça, a partida estará perdida. Trata-se do zugzwang. Pois bem: ao se retratar como Jesus Cristo, ou seja, como Deus, Trump colocou-se espontaneamente em zugzwang!

As pontas começam a se atar. O jogo de xadrez, diz a versão mais aceita, foi inventado na Índia no século VI. No século seguinte, chegou na Pérsia. O xeque-mate está a caminho e Donald Trump aprenderá da forma mais difícil que, para abraçar o legado de Davi, é preciso ser o senhor da guerra, não o rei do blefe.

Assine a Revista Liberta

Tenha acesso ilimitado a todas as edições, com reportagens exclusivas, análises jurídicas e políticas, além de um olhar crítico sobre a história sendo escrita diante dos nossos olhos.

Quero Assinar
Já é assinante? Entrar