Tem uma hora que a gente cansa.
Cansa de viver com a sensação de que a democracia está sempre por um fio. Cansa de acompanhar a política brasileira como quem acompanha uma crise que nunca termina. Cansa de precisar explicar, mais uma vez, que determinados discursos e projetos representam uma ameaça às instituições e aos direitos que deveriam ser garantidos a todos.
Desde 2016, temos feito isso.
Depois do impeachment de Dilma Rousseff, alertamos para o crescimento de um projeto autoritário que não escondia suas intenções. Vieram os ataques às instituições, o discurso de ódio, a glorificação da ditadura, o desprezo pelos direitos humanos e a transformação de adversários políticos em inimigos.
Nós avisamos.
Não foi suficiente.
Em 2018, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro.
E, então, descobrimos, da maneira mais dolorosa possível, que aqueles alertas não eram exagero. Foram quatro anos de ataques às instituições democráticas, desmonte de políticas públicas, negacionismo durante a maior crise sanitária da nossa geração e ataques à imprensa, às universidades, à ciência e aos povos indígenas.
E, quando perdeu a eleição, aquele projeto não simplesmente aceitou a derrota.
Vieram as acusações de fraude sem provas, as tentativas de desacreditar o sistema eleitoral, a mobilização de apoiadores, os acampamentos em frente a quartéis e, finalmente, a tentativa de golpe, que culminou na invasão e na depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
A democracia resistiu.
E, talvez, seja justamente por isso que estejamos tão cansados.
Depois de quase uma década vivendo entre crises, eleições decisivas, ameaças golpistas e ataques às instituições, estamos novamente aqui, falando sobre democracia.
De novo.
Vocês não estão de saco cheio desse papo?
Eu estou.
O problema é que ele continua sendo absolutamente necessário.
Porque estar cansado de falar sobre uma ameaça não faz com que ela desapareça.
E precisamos compreender uma coisa: a extrema direita não necessariamente se torna menos perigosa quando perde uma eleição. Em muitos casos, acontece justamente o contrário.
Quando percebe que pode perder o poder pelo voto, o projeto autoritário passa a atacar as próprias condições que permitem a alternância de poder.

Uma lógica autoritária que se repete
A experiência internacional mostra isso.
Na Hungria, Viktor Orbán chegou ao governo pelo voto e, depois, promoveu mudanças constitucionais e institucionais que ampliaram o poder do governo, enquanto oposição, organizações da sociedade civil, universidades e veículos de comunicação passaram a enfrentar um ambiente cada vez mais restritivo.
Nos Estados Unidos, Donald Trump perdeu a eleição de 2020, mas não reconheceu o resultado. A tentativa de reverter a derrota mobilizou diferentes frentes, pressionou autoridades e culminou no ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
São histórias diferentes, em países diferentes, mas há uma lógica que se repete.
A extrema direita pode disputar eleições, vencer eleições e governar dentro das instituições. O problema começa quando passa a tratar as instituições como instrumentos que só devem existir enquanto servirem ao seu projeto.
Enquanto vencem, as regras são boas.
Quando percebem que podem perder, as regras passam a ser questionadas.
Primeiro, vem a tentativa de controlar as instituições por dentro. Depois, de alterar as regras do jogo. E, quando a derrota parece inevitável, surge a tentativa de impedir que ela aconteça.
É por isso que nossa atenção não pode estar voltada apenas para o dia da eleição.
Democracia não é simplesmente votar. É aceitar o resultado, permitir a alternância de poder, garantir que quem perdeu possa continuar fazendo oposição e preservar instituições independentes, imprensa livre e direitos que não dependam da vontade de quem ocupa o Palácio do Planalto.
Depois de tantos anos de tensão, é natural querer simplesmente seguir a vida. Trabalhar, pagar as contas, encontrar os amigos, falar de futebol, viajar, cuidar da família e não precisar passar mais quatro anos discutindo democracia todos os dias.
Eu também quero isso.
Mas existe uma diferença entre desejar normalidade e acreditar que ela está garantida.
Ela não está.
Projetos autoritários não desaparecem porque perdem uma eleição. Eles podem se reorganizar, mudar de discurso, trocar de candidato, aprender com os próprios erros e voltar mais preparados para a próxima disputa.
Por isso, não podemos deixar que o nosso cansaço seja maior do que a nossa capacidade de reagir.
Não se trata de viver permanentemente com medo, nem de transformar cada eleição em uma batalha apocalíptica. Trata-se de compreender que há momentos em que a escolha diante de nós é maior do que a disputa entre candidatos ou partidos.
É a disputa entre democracia e barbárie.
E a barbárie não chega necessariamente anunciando que pretende acabar com a democracia.
Às vezes, chega dizendo que vai apenas “colocar ordem”, “acabar com a corrupção”, “dar voz ao povo” ou “enfrentar o sistema”.
Até que, pouco a pouco, os adversários deixam de ser adversários e passam a ser inimigos. A imprensa vira inimiga. As universidades viram inimigas. Os movimentos sociais viram inimigos. O Judiciário vira inimigo. As eleições passam a ser legítimas somente quando produzem o resultado desejado.
É assim que uma sociedade vai se acostumando ao absurdo.
Por isso precisamos resistir à tentação de dizer: “de novo isso?”.
Sim. De novo.
Porque democracia é um trabalho permanente. É menos emocionante do que uma revolução e muito mais cansativo do que um discurso de palanque. Mas é justamente essa insistência que mantém as coisas funcionando.
O Brasil já teve sua chance de testar o limite. Sabemos o que acontece quando o autoritarismo chega ao poder. Sabemos também o que acontece quando ele perde e se recusa a aceitar a derrota.
Por isso, não podemos nos dar ao luxo de achar que a próxima vez será igual à anterior.
Derrotar o extremismo nas urnas não encerra a história. Significa impedir que uma derrota seja transformada numa oportunidade para destruir as condições que permitem que outras derrotas aconteçam.
Não podemos ser derrotados pelo cansaço.
Porque, se desistirmos de defender a democracia justamente quando ela mais precisa de nós, podemos descobrir tarde demais que algumas batalhas não voltam a aparecer tão cedo.
E pode levar anos.
Talvez décadas.
Até termos novamente a chance de tentar.