Uma guerra desfigura uma sociedade. Em todos seus aspectos. Reconstruir prédios, sentido e um tecido social mínimo é parte do esforço de autoridades quando os canhões silenciam. Mas, em centros de saúde, o trabalho é também o de reconstruir rostos, principalmente, os de crianças.
Nos locais mantidos pela Médicos Sem Fronteiras (MSF), especialistas usam máscaras de terapia de pressão, feitas por meio de impressão 3D, para lidar com queimaduras nos rostos de centenas de palestinos afetados pela guerra.
Os ataques de Israel deixaram milhares de vítimas entre as crianças. De acordo com a Save the Children, perto de 20 mil menores morreram em Gaza. Pelo menos mil deles tinham menos de um ano de idade, e centenas nasceram e morreram durante a guerra.
Marcas profundas
Mais de 42 mil crianças ficaram feridas e estima-se que, pelo menos, 21 mil ficaram com deficiências permanentes. Entre elas, muitas são obrigadas a carregar marcas profundas das queimaduras que sofreram. Ferimentos que tornaram algumas dessas crianças irreconhecíveis.
De acordo com a entidade, as próteses são fundamentais para a cicatrização e para prevenir sequelas, que representam risco de comprometer a respiração, os movimentos e a função facial.
Nos centros do MSF, a maioria dos pacientes são crianças, que correspondem a 85% das pessoas atendidas na clínica.

Uma delas é Salam, de dois anos de idade. A menina passou a usar uma máscara impressa em 3D para tratar as queimaduras faciais graves que sofreu há um ano. Um ataque aéreo israelense nas proximidades da Cidade de Gaza causou um tremor no abrigo onde sua família vivia, fazendo com que uma panela de cozinha caísse sobre seu rosto.
Outro é Joud, de quatro anos de idade, que sofreu queimaduras graves em julho de 2024, quando a escola onde sua família se refugiava foi atingida por um ataque israelense. Sua mãe morreu naquele dia.
Mas, longe de qualquer ideia de paz, o suposto cessar-fogo em Gaza não representou o fim da violência ou das restrições. De acordo com a MSF, “ataques indiscriminados continuam acontecendo em toda a Faixa de Gaza, impedindo, por exemplo, que pessoas acessem cuidados de saúde adequadamente”.
Desde dezembro, as autoridades israelenses também anularam o registro de MSF para atuar na Palestina, juntamente com outras 37 organizações não-governamentais.
O ato foi denunciado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela ONU. “A suspensão, por Israel, de diversas agências de ajuda humanitária em Gaza é ultrajante”, disse Volker Turk, comissário da ONU para Direitos Humanos.
“Este é o mais recente episódio de uma série de restrições ilegais ao acesso humanitário, incluindo a proibição imposta por Israel à UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo), bem como ataques a ONGs israelenses e palestinas, em meio a problemas de acesso mais amplos enfrentados pela ONU e outras organizações humanitárias”, disse.
“Tais suspensões arbitrárias agravam ainda mais uma situação já intolerável para a população de Gaza”, insistiu. “Relembro às autoridades israelenses sua obrigação, perante o direito internacional, de garantir o fornecimento de itens essenciais para a vida diária em Gaza, inclusive, permitindo e facilitando a ajuda humanitária”, completou.

Apelo internacional
As ONGs levaram o caso aos tribunais de Israel. “Desde outubro de 2023, após o massacre perpetrado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, Israel matou mais de 1.700 profissionais de saúde em ataques a Gaza, incluindo 15 de nossos próprios colegas”, afirmou a MSF.
Mas Israel ignorou qualquer apelo internacional e, entre tantos impactos, um deles tem sido na capacidade de os médicos de terem acesso às máscaras.
Algumas delas podem ser muito caras e, geralmente, são encontradas em tamanhos únicos. Outros fatores como o tom de pele, o estilo de vida e a idade interferem na forma como o design protético que mais beneficiará o paciente será feito.
Com o veto de Israel, a entidade passou a ficar impedida de enviar suprimentos para a região, incluindo o material para criação das máscaras 3D.
Outro problema é que, neste momento, restam apenas dois scanners 3D funcionando em toda a Faixa de Gaza. “Caso os aparelhos apresentem qualquer defeito, não há peças para reposição, porque sua entrada no território está bloqueada”, afirmou a MSF.
“Apelamos para todas as autoridades competentes que tomem medidas imediatas para permitir a entrega de suprimentos médicos, equipamentos e peças de reposição em Gaza. A situação é desumana. A população palestina não pode mais suportar tanto sofrimento”, completou a entidade.