De Hainan (China)
“A porta da China está se abrindo e não vai se fechar”. Foi com essas palavras que He Lifeng, o poderoso vice-premier do Conselho de Estado da China, deu início, em Hainan, na semana passada, a uma das maiores feiras de consumo do mundo.
A escolha do local não ocorria por acaso. A ilha no sul da China foi designada, no final de 2025, pelo governo em Pequim para ser palco de um teste inédito de livre comércio, pela primeira vez na história do país.
Cerca de 6 mil produtos se tornaram isentos de qualquer imposto para ingressar em Hainan, inaugurando o maior porto de livre comércio do mundo.
Na ilha, se esses itens passarem por alguma forma de transformação e tiverem seu valor agregado elevado, serão reexportados para o enorme mercado chinês no continente, também com tarifa zero.
Para que os produtos se beneficiem dessa condição ultra favorável, eles terão de passar por um processo no qual ganhem 30% de valor agregado na própria ilha. Ou seja: o livre comércio administrado – e não sem freios – ocorre desde que parte dos ingredientes ou das peças adicionadas beneficie também as marcas e os trabalhadores locais.
Para completar, empresas estrangeiras ou mesmo chinesas que quiserem se estabelecer na ilha para produzir essa transformação em seus produtos terão amplas vantagens fiscais. Setores de serviços que são proibidos hoje na China continental, igualmente, serão autorizados.
Longe do imperador, perto do mar
A dimensão da ousadia não deixa dúvidas da ambição do projeto. Hainan – do tamanho da Bélgica e com uma população de 10 milhões de habitantes – passou a ser uma zona aduaneira separada da China. O PIB da ilha é de US$ 113 bilhões, o que a colocaria como a 70ª maior economia do planeta, se fosse um país, segundo dados do Banco Mundial.
O governo, não por acaso, chama a iniciativa de um “salto substancial” em seu modelo econômico, que gradualmente foi se abrindo desde 1978.
O projeto é revelador da decisão dos chineses de transformar a geografia e a própria história. Por séculos, a ilha era considerada como uma espécie de “fim de mundo” por conta de sua distância de Pequim. Era para lá que indesejados e dissidentes eram enviados pelo poder central. “Longe do imperador, perto do mar”, ironizavam alguns, diante das praias de areia branca.
Nos últimos anos, foi o perfil turístico que colocou a ilha como destino para mais de 1 milhão de pessoas por ano, inclusive russos em busca do calor tropical, palmeiras e água de coco.
Agora, enquanto Donald Trump ergue muros contra produtos estrangeiros e o nacionalismo econômico ganha força em diversas partes do planeta, a China faz um experimento exatamente na direção contrária, ainda que de forma controlada e que deixe benefícios para empresas e o desenvolvimento local.
Parte da estratégia é ainda a de reverter a queda de investimentos diretos no país. O fluxo de capital estrangeiro caiu 10,4% nos primeiros três trimestres de 2025.

Na esperança de atrair investimentos e parceiros no experimento, o governo da Pequim insiste para a força de seu mercado. Em 2025, os chineses compraram 26 milhões de unidades de aparelhos eletrodomésticos e 91 milhões de itens digitais. Pelos últimos 17 anos, a China tem sido o segundo maior importador em nível global e é o maior destino de vendas para 80 países.
O projeto é ainda vendido como parte de um novo papel que a China quer desempenhar: o de estabilizador da economia mundial.
O país acumulou, ao final de 2025, um superávit inédito na história do comércio, com US$ 1,3 trilhões a seu favor. O volume intensificou as críticas por parte de parceiros, que vêm alertando ao longo dos últimos anos para o desequilíbrio na relação comercial de Pequim com os outros países. “Vamos ampliar nossas importações”, garantiu He Lifeng, num contraste profundo com as declarações de Trump. “Vamos continuar a abraçar o resto do mundo e facilitar a entrada de pessoas e serviços e produtos”, prometeu.
Não se trata, porém, de um gesto de solidariedade internacional. A abertura de Hainan ocorre no mesmo momento em que a China toma uma decisão de reduzir sua dependência na exportação como motor de seu crescimento. A partir dos planos oficiais apresentados em março, a meta é a de focar políticas públicas no crescimento do consumo domésticos “Tivemos o maior aumento de classe média do mundo”, disse o vice-primeiro-ministro.
Pequim sabe que precisa desenvolver o mercado local como forma de reduzir sua dependência em relação à volatilidade global e, principalmente, dos EUA. Mas garantir produtos mais baratos também pode ser um passo estratégico.
Experimento de livre comércio
Conforme Feng Fei, secretário do Partido Comunista do Comitê Provincial de Hainan, o porto livre de impostos é um “marco para a abertura da China”.
O vice-ministro do Comércio, Sheng Qiuping, também explicou que o governo irá adotar medidas para facilitar o consumo. “Estamos nos transformando no maior mercado do comércio mundial e esse plano faz parte de internacionalização da China”.
Entre os estrangeiros, o experimento de livre comércio da China faz os olhos de empresários e governos brilharem.
O ministro do Comércio do Canadá, Maninder Sidhu, é um que não esperou e viajou até Hainan, justamente num momento de crise entre seu país e os EUA. Sua esperança é a de ampliar as vendas de produtos agrícolas para o mercado chinês, promovendo uma alta de 50% até 2030.
Até os EUA entenderam a importância de Hainan. Para o evento, o presidente do Conselho de Negócios EUA-China, Sean Stein, explicou que o setor privado americano enviou uma delegação de multinacionais para “ajudar a China a atingir objetivos de consumo”.
Segundo ele, EUA e China mantêm “a relação comercial mais importante do mundo”. “Empresas americanas não estão apenas vendendo na China. Mas inovando na China”, disse. Para ele, o novo porto livre de taxas em Hainan é “estratégico” e o setor privado dos EUA já está de olho nas oportunidades de negócios.
Para He, ainda que seja apenas um projeto num local geográfico determinado, a experiência de livre comércio administrado deve pautar o futuro do modelo econômico do país. “Empresas de todo o mundo estão convidados para explorar a abertura da China”, completou.
A China, com a iniciativa, quer se credenciar para fazer parte das rotas e acordos comerciais na Ásia. A economia de US$ 19 bilhões da China dá sinais de que viverá sob uma administração liberal controlada, abrindo uma concorrência direta com Cingapura, Japão e Taiwan.
Se a liberalização for bem sucedida em Hainan, economistas apontam que Pequim pode se sentir encorajada a expor mais a economia da China às forças do mercado. Sempre, porém, sob os olhares absolutamente atentos do governo central.