Fernanda (nome fictício) tem 31 anos e está grávida. Na estreia do Brasil na Copa do Mundo, no dia 13/6, ela convidou algumas amigas para verem o jogo em sua casa. No meio da partida, a residência foi invadida por seu ex-namorado. Armado com um canivete, ele ameaçou as presentes, tentou enforcar a ex e a ameaçou de morte. Suas amigas fugiram do local e conseguiram chamar a polícia, mas o homem fugiu. Segundo Fernanda, ele “não aceitava o fim do relacionamento”.
Esse é um motivo “comum” em casos de agressão contra mulheres. A hora do término é muito perigosa para elas. Segundo pesquisa realizada pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, uma em cada três agressões é atribuída à dificuldades do autor de aceitar o fim da relação.
O caso de Fernanda é verídico e faz parte também de outra estatística triste: dias de jogos de futebol, principalmente da Copa, são especialmente perigosos para mulheres. De acordo com dados da pesquisa Violência Contra Mulheres e Futebol, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em dias de partidas, os registros de ameaças contra mulheres sobem 23.7%. As agressões físicas, 20,8%.
Ou seja, muitas mulheres não podem terminar relacionamentos em paz, e também não podem relaxar em dias de jogos. A lista de risco para mulheres é mesmo infindável e apavorante.
Saco de pancada
Esse não é um problema exclusivo do Brasil. Um estudo feito pela Universidade de Lancaster, na Inglaterra, analisou dados de várias Copas do Mundo e concluiu que os casos de agressão a mulheres aumentaram 38% no país quando a seleção britânica perdeu. Quando o time ganhou, o aumento foi de 26%. Houve ainda um efeito “ressaca”, que fez com que o índice de violência contra mulher continuasse 11% mais alto no dia seguinte aos jogos.
Esses números mostram algumas evidências. Em primeiro lugar, muitos homens têm problemas em lidar com frustrações, mesmo que seja uma bobagem, como o time do país perder uma partida de futebol. A segunda é que a raiva é facilmente dirigida para mulheres, as quais são, literalmente, saco de pancada de misóginos mal resolvidos.
Uma criança, quando perde um jogo, muitas vezes, fura a bola ou joga o tabuleiro para o alto, quebram o brinquedo. Para muitos homens, mulheres são isso, brinquedos que podem ser quebrados.
Mas, se o time ganha, o cenário continua perigoso, já que a euforia também pode virar violência contra mulheres. Bêbados de alegria, muitos homens acabam discutindo com parceiras e “comemorando” as agredindo. O horror.
Coquetel para violência
Há também outros fatores envolvidos: em dias de Copa, muitos homens exageram no consumo do álcool e muitas pessoas fazem festas. Um homem machista em delírio possessivo pode ter “ciúme” (entre aspas mesmo, já que esse sentimento não é justificativa para nada) ou revolta com tudo, até com o fato de uma mulher se divertir vendo jogo com as amigas, caso de Fernanda.
Em dias de jogos, quem mais corre risco são mulheres que estão em relacionamentos onde já existe violência. O clima da Copa do Mundo, com álcool, emoção à flor da pele e liberdade para xingar e extravasar sentimentos negativos (homens xingando em estádio, por exemplo, são um clichê real) forma o coquetel perfeito para que a violência exploda.

É surpreendente, mas tudo pode virar gatilho para mais violência doméstica, inclusive, ficar em casa com o parceiro, o que acontece com muitos casais durante a Copa. Estar na própria casa com um parceiro agressivo é muito perigoso. Cerca de 80% dos crimes de violência doméstica acontecem dentro de casa.
Se você adicionar a isso álcool, tem o coquetel perfeito do horror. Uma das provas de que “homem em casa” pode ser um perigo para suas parceiras é o que aconteceu na pandemia. Com as famílias obrigadas a ficarem juntas em casa durante o isolamento, os dados de violência contra mulher explodiram. Os casos de feminicídio, por exemplo, aumentaram 22% logo nos primeiros meses da pandemia, em 2020.
Se você ouvir ou presenciar casos de violência contra mulheres, denuncie no número 180. Se você tem amigos ou parentes envolvidos em relações violentas, fique particularmente atento nos dias de jogos. É horrível ter que pensar nisso, mas essa é uma realidade que não pode ser ignorada.