Violência de gênero se transforma em literatura

Nathacha Appanah entrelaça trajetórias marcadas pela brutalidade patriarcal
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“Muitas vezes, as mulheres não abandonam maridos abusivos porque se sentem mais seguras próximas deles do que longe”, afirma a escritora Nathacha Appanah. “Quando eles estão por perto, sabemos o que fazer para não sermos mortas. Se eles vão embora, não há mais como prever o que vai acontecer.”

Nascida nas Ilhas Maurício e radicada na França desde o início dos anos 2000, Nathacha Appanah se consolidou como uma das vozes mais contundentes da literatura contemporânea. Composta por mais de dez livros, sua obra investiga os mecanismos da violência, do silenciamento e das assimetrias de gênero, raça e classe social, em publicações como Trópico da Violência (Ed. Paris de Histórias). Ambientado em Mayotte, o romance aborda o drama de jovens marginalizados e a extrema pressão migratória no arquipélago, departamento ultramarino francês.

Anatomia do feminicídio

Lançado durante sua participação nesta semana na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), seu livro mais recente, Noite no Coração (Ed. Bazar do Tempo), ganhou  todos os principais prêmios literários franceses em 2025, incluindo Goncourt des Lycéens, Fémina e Renaudot des Lycéens.

Nesse trabalho, Nathacha entrelaça três trajetórias marcadas pela brutalidade patriarcal: a de sua prima Emma, atropelada e morta pelo companheiro; a da argelina Chahinez Daoud, imolada pelo marido na rua onde a família morava, num crime cuja repercussão chocou a França; e a sua própria experiência. Entre os 17 e os 25 anos, a autora suportou abusos físicos, psicológicos e sexuais cometidos por um jornalista e escritor três décadas mais velho, com quem Nathacha passou a morar ao deixar a casa dos pais nas Ilhas Maurício.

Durante o período em que viveram juntos, a escritora vivenciou todas as etapas dos relacionamentos que terminam em tragédia. Devido ao ciúmes e ao “gênio” do parceiro, Nathacha se afastou da família – seus pais eram contra o namoro – e dos amigos. Além de trabalhar, ela tinha de cuidar da casa, cozinhar e prestar contas de todos os seus compromissos. Quando as violências se intensificaram, foi acusada de provocá-las. Em mais de uma ocasião, foi seguida e vigiada pelo parceiro. À noite, acordava com o homem parado ao lado da cama, observando-a.

Para além da experiência pessoal, a construção de Noite no Coração exigiu de Nathacha uma imersão na anatomia do feminicídio conjugal. Durante anos de pesquisa em arquivos de imprensa, relatórios policiais e processos judiciais, a autora debruçou-se sobre a forma como esses crimes são perpetrados e percebidos socialmente.

Em sua apuração, chamou-lhe a atenção o fato de que algozes costumam ser descritos por vizinhos e familiares como “bons homens”, cidadãos corteses e trabalhadores exemplares. Uma imagem condescendente, que ela faz questão de desarmar, demonstrando que a violência não decorre de um impulso irracional ou descontrole pontual, mas de uma escolha estrutural de dominação.

A pesquisa revelou também o impacto da cobertura midiática no tratamento dessas ocorrências, frequentemente reduzidas pela imprensa a “fatos diversos” (faits divers) ou tragédias passionais. A análise de casos emblemáticos evidenciou que o feminicídio se pauta por um esforço deliberado de desfiguração e apagamento do corpo feminino. Ao imolar, atropelar ou destruir o rosto e a imagem da vítima em praça pública, o homem busca erradicar a própria identidade da mulher, negando a ela e a sua família até mesmo o rito de despedida e a preservação de sua memória.

Fotografia em plano médio da escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, usando óculos de armação escura e blusa cinza
A escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah (Foto: Thibaud Moritz/AFP)

Estereótipo do monstro

O estudo sobre a mecânica do abuso estendeu-se também ao mapeamento do silenciamento e da paralisia impostos às vítimas. Nas conversas com testemunhas, Nathacha constatou a profunda solidão vivida por mulheres presas a esses relacionamentos, a dificuldade de narrar os abusos e o medo constante que impede o rompimento desse ciclo. É esse rigor de pesquisa que permite à autora ultrapassar a superfície do relato pessoal para cartografar a lógica da posse, da punição e da dominação que sustenta o crime de gênero

Essa busca pela forma mais justa e ética reaparece na estrutura do livro. Ao organizar Noite no Coração, a escritora fez a escolha deliberada de abrir o texto sob o ponto de vista dos próprios agressores.

Confinados em uma sala imaginária sem portas nem janelas, o pedreiro MB, o motorista RD e o jornalista e poeta HC tentam entender porquê estão presos ali, ao mesmo tempo em que são escrutinados pela narradora onisciente, que desconstrói o estereótipo reducionista do monstro desprovido de complexidade. “É um erro enxergá-los como a encarnação do mal. Eles escolheram a violência. Não a herdaram passivamente de traumas anteriores”, diz Nathacha.

O projeto exigiu também um exercício de igualdade moral em relação às vítimas. Inicialmente inclinada a transformar a própria história em ficção, Nathacha compreendeu que não seria ético reconstruir as trajetórias de Chahinez Daoud e Emma sem oferecer a mesma transparência e vulnerabilidade sobre si mesma. “Tinha de expor meu próprio corpo quebrado, minhas falhas e desamparos, para que ficássemos no mesmo plano. Não escrevo como vítima ou sobrevivente, mas como uma autora que pensa a linguagem, o tempo e os mecanismos sociais por trás das agressões.”

Para Nathacha, o feminicídio conjugal parte de uma mentalidade colonizadora, em que o homem não admite a autonomia do corpo feminino fora de seu domínio. Nesse contexto, impossível não ler Noite no Coração sob a perspectiva de tragédias nacionais, como a da soldado Gisele Santana, cuja morte revelou um cotidiano de terror, imposto pelo marido e suspeito de feminicídio, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto.

Para Nathacha, entre os aprendizados com a repercussão mundial de Noite no Coração, está o de que a literatura pode superar a mera comoção passageira. “Precisamos ultrapassar o tempo da simples emoção ou do lamento para refletir seriamente sobre esses crimes”, diz ela. “Nos encontros públicos, vejo mulheres que atravessaram violências similares mantendo as costas eretas e a cabeça erguida. Presenciar essa dignidade e essa resiliência traz uma profunda lição de humildade e reafirma a capacidade da literatura de dar nome ao indecifrável.”

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