Um John Wayne da política mundial deseja impor sua vontade a ferro e fogo

Só que se trata de vontade volátil como a pluma ao vento da ópera de Verdi
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Emergência nacional

Nesta semana, mais precisamente no dia 28 de julho, o governo dos Estados Unidos decidiu prorrogar por mais um ano a “emergência nacional” anunciada contra o Brasil, iniciada em julho de 2025.

Mas o que é esse estado de “emergência nacional”? Trata-se de decisão unilateral, prevista na legislação estadunidense, que pode (e deve) ser tomada sempre que o governo identificar ameaças objetivas contra a segurança nacional. A medida precisa ser renovada anualmente e permite ao Executivo implementar sanções econômicas, bloquear contas e congelar ativos de países ou de terceiros que, em tese, estariam prejudicando interesses americanos, seja da iniciativa privada, seja do âmbito público.

O governo Trump alegou que as autoridades brasileiras atacaram a liberdade de expressão de cidadãos dos EUA, o que implicaria uma violação dos direitos humanos.

Mais: o ministro Alexandre de Moraes foi acusado de perseguir politicamente o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, embora não se perceba com clareza a relação desse “fato” com a segurança nacional dos EUA.

Não é tudo: as empresas estadunidenses de tecnologia da informação, com destaque para as grandes plataformas, seriam prejudicadas pela tentativa do governo brasileiro de regular as redes sociais.

Dono do mundo, rei do gado, xerife do Velho Oeste, Donald Trump assumiu o papel anacrônico de um John Wayne da política mundial, que deseja impor a ferro e a fogo sua vontade. Só que se trata de uma vontade volátil como a pluma ao vento da ópera de Verdi.

A prorrogação do estado de “emergência nacional” pouco tem a ver com os elementos que acabei de mencionar. O alvo verdadeiro é a determinação de interferir nas eleições presidenciais brasileiras de outubro de 2026, a fim de favorecer o candidato-fantoche, sabujo, entreguista, traidor, lambe-botas, vende-pátrias.

(Flávio Bolsonaro: em estado de dicionário.)

Trocando em miúdos

Os indícios são alarmantes. Recordemos uma cronologia básica e nada exaustiva.

Em 7 de março de 2026, o governo estadunidense criou a Coalizão Anticartéis das Américas, também conhecido como “Shield of Americas” (Escudo das Américas). Esqueçamos a caricatura, por demais fácil pela associação infantil com super-heróis, e nos concentremos no risco imediato. No papel, trata-se somente de uma organização transnacional, um convênio para combater o narcotráfico por meio de operações conjuntas de “inteligência”.

João Trump assina proclamação do Escudo das Américas foto Saul Loeb afp (1)
Trump assina a proclamação do Escudo das Américas cercado por líderes de extrema direita (Foto: Saul Loeb/AFP)

Na prática, os Estados Unidos forjam uma aliança com políticos latino-americanos de extrema direita, dócil, muito dócil aos desmandos de Trump, para “obliterar” (verbo preferido do mandatário em Washington) governos progressistas na América Latina. Como se a Operação Condor fosse retomada com uma direção muito mais radical e poderosa.

(Você se recorda, a Operação Condor foi um consórcio patrocinado pelas ditaduras do Cone Sul para perseguir e assassinar opositores em seus países.)

No dia 29 de maio de 2026, o governo de Trump declarou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) organizações terroristas internacionais, para o delírio sem medo da militância bolsonarista. Não se entende, contudo, por que o então presidente Jair Messias Bolsonaro não se antecipou à medida, pois, de 1 de janeiro de 2019 a 31 de dezembro de 2022 poderia tê-lo feito: bastaria ter lançado mão de sua caneta Bic. Não importa: o decisivo é que, ao enquadrar o CV e o PCC nessa categoria, Donald Trump pode ordenar operações militares pontuais no território brasileiro.

Em 16 de julho de 2026, Marco Rubio anunciou o propósito de declarar tanto organizações políticas de esquerda quanto movimentos sociais como sendo de extrema esquerda, o que permitiria dar o passo seguinte, ou seja, também enquadrá-las na categoria de organizações terroristas. Mais uma vez, o que se almeja é criar condições “legais” para intervenções militares que, por exemplo, não aceitem a reeleição do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin.

A prorrogação do estado de “emergência nacional” é apenas mais um passo na escalada contra a soberania nacional. Ameaça agravada pela existência inédita na vida brasileira de uma geração de políticos que não hesitaria em vender a soberania por trinta moedas, ou seja, assenhorear-se do poder para melhor entregá-lo a Donald Trump e seus asseclas.

(É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.)

Coda

Donald Trump, dizem alguns jornalistas, precisa usar fralda geriátrica porque perdeu o controle sobre o próprio corpo. Aquele que se considera dono do mundo não comanda o território mínimo de si mesmo.

Pois é.

Metonímia brutal do futuro que parece já ter chegado.

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