O plano dos EUA para interferir nas eleições brasileiras

Pressão econômica e alegações falsas sobre sistema eleitoral estão na pauta da Casa Branca
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Uma das características peculiares de Trump é o hábito constante e desinibido de fazer declarações públicas ao mundo, sem filtros, sobre seus planos mais nefastos. Elas parecem jorrar incessantemente de sua boca, como se ele fosse incapaz de guardar seus próprios segredos.

A reação pública é sempre uma mistura de surpresa e horror, tanto pela audácia quanto pela insanidade de seus pronunciamentos. Ao mesmo tempo, isso cria a sensação de que o que ele pretende fazer é inevitável e imparável. Cada nova declaração tresloucada, rapidamente, se torna mais um item numa longa lista de ações que ele promete realizar, caso consiga concretizá-las sem sofrer consequências.

Assim, devemos levar extremamente a sério uma série de declarações recentes de Trump indicando sua intenção de usar o poder dos Estados Unidos para intervir nas eleições brasileiras em favor de seu candidato: Flávio Bolsonaro, do PL.

Seus planos incluem, entre outras coisas: (1) pressões econômicas sobre o Brasil, que alimentarão a inflação e enfraquecerão as chances eleitorais do atual presidente; (2) apoio às alegações de Flávio Bolsonaro de que o sistema eleitoral brasileiro é fraudulento; (3) ameaças implícitas de que a Casa Branca não reconhecerá o resultado eleitoral caso seu candidato perca a disputa presidencial.

Não sabemos se Washington mobilizou a CIA ou outras agências governamentais para realizar operações secretas. Certamente, isso não seria inédito, dada a história das intervenções dos EUA na América Latina e no Caribe ao longo dos últimos 150 anos.

Brasil, a próxima vítima

Ainda assim, Trump preparou o terreno para essa ofensiva recente contra o Brasil em 17/6, durante uma coletiva de imprensa do G7 em Évian-les-Bains, na França, ao descrever o Brasil como “um pouco perigoso politicamente”.

Menos de uma semana depois, John Gizzi, correspondente da Casa Branca para o Newsmax – um veículo de informação de extrema direita –, escreveu um artigo intitulado Trump conquista 8 triunfos em 7 anos na América Latina, que chamou a atenção do presidente dos EUA. Gizzi comentou: “Uma poderosa corrente política percorre o hemisfério – cada vez mais influenciada pelas ideias, prioridades e pela política do presidente Donald J. Trump”. Como prova, o artigo apontou vitórias eleitorais da extrema direita em El Salvador (2019); Argentina e Equador (2023); Bolívia (2025); e Honduras, Chile, Peru e Colômbia (2026).

O Brasil foi citado como a próxima vítima na lista de Gizzi: “A eleição presidencial [brasileira] poderá se tornar a disputa mais decisiva do hemisfério. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro estão se unindo em torno de seu filho na tentativa de derrotar o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva.” Ele acrescentou: “A eleição já gera um intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e sobre se a disputa será conduzida de maneira considerada livre e justa por todas as partes.”

O texto elogioso concluía: “Trump está realmente tornando as Américas grandes novamente.” A mensagem não poderia ser mais clara.

No dia seguinte, Trump republicou o artigo – que exaltava sua liderança ao conduzir a América Latina pelo caminho do extremismo de direita – na Truth Social, sua rede social. Foi um sinal bastante explícito de suas intenções.

Em seguida, veio o anúncio, em 16/7, da nova tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras, devido a supostas violações comerciais previstas na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Convenientemente, o suco de laranja, a carne bovina e o café – três itens de consumo importados essenciais – ficaram de fora da lista, uma vez que Trump enfrenta fortes críticas nos Estados Unidos pelo alto custo dos produtos alimentícios.

Depois, o Secretário de Estado Marco Rubio publicou um comentário pouco diplomático nas redes sociais, afirmando: “No último ano, Lula colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo”. Ele também alegou que o governo brasileiro não negociou de boa-fé. Diante da balança comercial negativa do Brasil em relação aos Estados Unidos e das alegações falaciosas – usadas como justificativa para as tarifas adicionais – de que o governo Lula não combateu condições de trabalho análogas à escravidão e o desmatamento ilegal (para não mencionar as afirmações falsas sobre o Pix), a decisão do governo dos EUA foi claramente concebida para pressionar a maior democracia de esquerda da América Latina.

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Marco Rubio: ataque a Lula nas redes sociais (Foto: Divulgação)

Alegações falsas da família Bolsonaro

Se as sanções econômicas estão na vanguarda da campanha atual para favorecer Flávio, há sinais claros de que a administração Trump também pretende intervir nas alegações falsas da família Bolsonaro de que o sistema eleitoral brasileiro está comprometido.

Trump usou esse argumento em relação aos sistemas de votação dos EUA quando perdeu a disputa presidencial de 2022 para Joe Biden, mobilizando sua base de apoio em uma tentativa de insurreição por meio da invasão do Capitólio dos EUA, em 6 de janeiro de 2021. Bolsonaro adotou a mesma estratégia antes mesmo das eleições brasileiras de 2022 e durante a invasão da Praça dos Três Poderes. Ela permanece como um dos principais argumentos da família de Jair à medida que a campanha de 2026 se inicia.

Para promover esse tipo de manobra, ao estilo Trump, no Brasil, o Departamento de Estado dos EUA tentou enviar dois funcionários, Riley Barnes e Samuel Sampson, para “investigar” o sistema eleitoral. O governo dos EUA alegou tratar-se de uma visita de rotina para estudar a integridade eleitoral, a liberdade de expressão e a liberdade religiosa. O Itamaraty pensou de outra forma e negou os vistos, alegando interferência eleitoral.

Havia motivos para tal decisão, uma vez que, internamente, a administração Trump tem conduzido uma campanha intensa nos Estados Unidos prevendo fraudes eleitorais nos estados que tendem a votar em candidatos democratas. O objetivo é alegar irregularidades nas próximas eleições legislativas dos EUA, num momento em que as pesquisas indicam que os democratas provavelmente conquistarão a maioria na Câmara dos Representantes e, possivelmente, no Senado.

As maquinações de Trump pareciam ter três propósitos concretos no Brasil. O primeiro é fortalecer os esforços eleitorais de Flávio Bolsonaro junto à sua base, destacando o apoio contínuo da Casa Branca à família Bolsonaro e o acesso direto ao presidente dos EUA. Em segundo lugar, a estratégia serve para reforçar a ideia – já difundida nas redes sociais de extrema direita – de que não se pode confiar nem nas eleições de 2022 nem na próxima disputa, servindo como justificativa para uma eventual derrota eleitoral. Por fim, abre caminho para que a administração Trump conteste os resultados eleitorais, caso a disputa seja acirrada.

A Casa Branca tem poder para mobilizar seus aliados conservadores na região a fim de contestar qualquer resultado favorável ao presidente Lula, o que poderia gerar caos e confusão. Isso é o que sabemos atualmente sobre as intenções de Trump, mas certamente haverá mais articulações do império do norte nos próximos dois meses.

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