Nas comemorações dos 250 anos dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump usou um dos seus discursos para pedir que seus projetos de lei para reformar a maneira pela qual os americanos votam sejam aprovados.
Trump fez um discurso alusivo ao Dia da Independência com um dia de antecedência, diante do Monte Rushmore, na Dakota do Sul, onde criticou duramente “a ameaça comunista”.
“A América nunca será um país comunista”, disse ele, antes de passar a falar sobre a Save America Act, projeto que exigiria dos eleitores comprovante de cidadania ao se registrarem para votar e também um documento de identidade com foto no momento da votação.
Mas foi sua projeção que deixou ativistas, membros da oposição e especialistas em estado de alerta. Para ele, se o projeto for aprovado, “então, não perderemos uma eleição sequer pelos próximos cem anos”.
Uma semana depois, Trump foi além e demitiu três membros da Comissão de Assistência Eleitoral dos EUA (EAC), desativando abruptamente a única agência federal dedicada exclusivamente à administração eleitoral.
Os dois comissários democratas, Thomas Hicks e Benjamin Hovland, foram notificados por e-mail. “Em nome do presidente Donald J. Trump, escrevo para informar que seu cargo de comissário da Comissão de Assistência Eleitoral foi encerrado, com efeito imediato. Agradeço pelos seus serviços”, dizia o e-mail. A mensagem foi assinada por Morgan DeWitt Snow, vice-diretora de pessoal presidencial no Gabinete Executivo do Presidente.
À terceira comissária, a republicana Christy McCormick, foi permitido renunciar, segundo três fontes dentro da agência. O quarto comissário da agência, o republicano Donald Palmer, deixou o órgão voluntariamente no início deste ano para integrar a Heritage Foundation, uma instituição ultraconservadora.
As demissões deixam a comissão – composta, originalmente, por quatro membros – inoperante. Ela havia sido criada pelo Congresso após as eleições de 2000 para ajudar os estados a melhorarem a administração eleitoral, depois da polêmica vitória de George W. Bush.
Guerra dos mapas eleitorais
A operação de Trump parece confirmar a constatação da entidade V-Dem, da Suécia, de colocar um ponto de interrogação sobre a credibilidade da democracia americana. No levantamento publicado pela instituição, os americanos perderam, pela primeira vez em 50 anos, seu status de democracia liberal. Segundo a V-Dem, a democracia nos EUA está se deteriorando a uma “velocidade sem precedentes”.
Em sua edição de 2026, o ranking apresenta o Brasil na 28ª posição entre as democracias mais saudável. Já os EUA caíram da 20ª colocação para o 51º lugar. O país que sempre exportou a democracia também deixou de ser classificado como uma democracia liberal e é apenas uma democracia eleitoral, hoje.
Mas nada disso ocorreu por acidente. Ao longo de meses, a administração Trump vem orquestrando uma operação sem precedentes para manipular a eleição legislativa, marcada para o final do ano e que pode terminar o destino de seu governo.
O que está em jogo para Trump é realmente profundo. Uma vitória dos democratas pode paralisar os projetos de lei da Casa Branca. Mas, acima de tudo, iniciar processos de impeachment contra o presidente.
Mas especialistas alertam que a manobra promete ter um impacto muito mais profundo, inclusive, para determinar quem ocupará a presidência a partir de 2028, afetando ainda todo o processo de integridade eleitoral de um país que sempre se vendeu como a “maior democracia ocidental”.

Uma das estratégias é a de redesenhar o mapa eleitoral do país. O princípio é simples: reformular as fronteiras de distritos eleitorais e, assim, diminuir o poder de democratas e minorias em regiões onde poderiam ganhar.
Diluir os votos dessa resistência e incluí-los em distritos que votam, em sua grande maioria, por republicanos impediria que aqueles votos, de fato, contassem. O redesenho dos mapas permite que um partido divida ou expanda distritos eleitorais existentes, criando novos que, provavelmente, os favorecerão.
Até o momento, dez estados – Alabama, Califórnia, Flórida, Louisiana, Missouri, Carolina do Norte, Ohio, Tennessee, Texas e Utah – desenharam novos mapas desde o ano passado e outros nove estão no mesmo processo. Antes disso, apenas dois estados haviam redesenhado voluntariamente seus mapas eleitorais para o Congresso entre os censos desde 1970.
A onda de mudanças começou depois que Trump pressionou os republicanos no Texas a elaborar um novo mapa eleitoral que poderia lhes garantir cinco cadeiras na Câmara dos Representantes, atualmente ocupadas por democratas. Trump foi explícito sobre suas intenções, afirmando que os republicanos tinham “direito a mais cinco cadeiras”.
Os democratas reagiram redesenhando distritos na Califórnia de uma forma que poderia lhes garantir de três a cinco cadeiras adicionais. Autoridades eleitas em vários outros estados seguiram ou tentaram seguir o exemplo. Mas tiveram pouco êxito.
Segundo um levantamento do New York Times, o efeito geral é um possível ganho de três a 12 cadeiras adicionais na Câmara para os republicanos nas eleições de meio de mandato.
Trump ainda contou com a ajuda da Suprema Corte, que agiu para dificultar a contestação de mapas que enfraquecem o poder de voto das minorias e conceder aos estados mais liberdade para desenhar distritos visando vantagem partidária.
Em estados como Louisiana, Alabama e Tennessee, isso abriu caminho para que os republicanos fragmentassem distritos eleitorais de maioria negra por meio de novos mapas. Especialistas afirmam que os mapas traçados antes das eleições de meio de mandato podem consolidar vantagens estruturais que moldarão a política dos EUA por uma década.
Cortina de fumaça
O que chama atenção é que há uma mudança profunda na estratégia de Trump. Até hoje, sua ação era a de contestar o resultado da eleição, rejeitando sua validade e insistindo que teriam sido roubadas. Agora, a tática é a de interferência antes mesmo que ela ocorra.
Ela envolve três frentes: primeiro, criar a impressão de fraude eleitoral generalizada por meio de uma “cortina de fumaça de investigações”; segundo, usar essas alegações para justificar regras de votação mais rígidas; e, caso esses esforços falhem, contestar resultados eleitorais desfavoráveis.
Em março de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que buscava endurecer as regras de votação e registro, instituindo a exigência de que os eleitores comprovassem a cidadania antes de votar e impondo restrições ao voto por correio – sob o argumento de que cédulas não recebidas até o dia da eleição deveriam ser rejeitadas, mesmo que tivessem sido postadas no prazo. Desde então, tribunais federais bloquearam ou anularam a maior parte dessas ordens.
Ainda assim, a disputa judicial continua e há uma linha condutora em todas suas ações: fazer com que seja mais difícil votar. A alegação de Trump de que existiria uma fraude desses eleitores que não conseguem comprovar cidadania não é confirmada pelos números.
Uma análise do Brennan Center for Justice identificou apenas 30 casos de suspeita de voto por parte de não cidadãos nas eleições de 2016, o que representa cerca de 0,0001% dos votos computados.
Para a entidade, o problema, portanto, não existe. Mas a nova lei com a exigência de comprovação documental de cidadania afetaria milhões de americanos aptos a votar – mulheres que mudaram de nome após o casamento e não possuem certidões de nascimento atualizadas, eleitores idosos de áreas rurais e pessoas com deficiência que têm dificuldade de se deslocar até uma repartição pública.
Um levantamento realizado em 2023 pelo mesmo instituto constatou que mais de 21 milhões de eleitores americanos aptos a votar não têm à mão documentos que comprovem a cidadania, como passaporte ou certidão de nascimento.
Em alguns casos, a Justiça barrou a operação da Casa Branca. Em março de 2025, Trump emitiu uma segunda ordem, instruindo o Departamento de Segurança Interna a utilizar informações pessoais de americanos provenientes de bancos de dados federais para compilar listas, estado por estado, de cidadãos americanos confirmados e enviá-las às autoridades eleitorais estaduais para a verificação dos registros de eleitores.
A ordem também visava impedir os Correios dos EUA de enviar cédulas de votação via postal a eleitores que não constassem nas listas mantidas pelo governo federal. Trump, que também vota por correio, afirma há muito tempo, e falsamente, que o voto por correio está repleto de fraudes.
O problema é que, nos EUA, quase um em cada três eleitores votou por correio nas eleições de 2024, segundo pesquisas realizadas pelo Democracy Center.
Embora os democratas fossem mais propensos a votar por correio do que os republicanos (26% dos democratas registrados contra 18% dos republicanos, em estados que monitoram o registro partidário), milhões de eleitores de ambos os principais partidos utilizaram esse método.
Ambas as medidas foram bloqueadas no mês passado por um juiz federal, que decidiu que a Constituição não confere ao presidente quaisquer poderes específicos sobre as eleições.
A Suprema Corte, de maioria conservadora, também impôs uma derrota a Trump ao decidir que os estados têm liberdade para contabilizar cédulas enviadas pelo correio que cheguem após a eleição, desde que tenham sido postadas dentro do prazo.
Como grande parte de suas ordens executivas foi barrada pelos tribunais, Trump intensificou seus esforços para aprovar a Lei SAVE (Safeguard American Voter Eligibility – Salvaguarda da Elegibilidade do Eleitor Americano), seu projeto de lei eleitoral emblemático, que havia estagnado no Senado após a oposição de vários republicanos.
O projeto busca impor regras rígidas de identificação de eleitores, incluindo a comprovação de cidadania no momento do registro, auditorias nas listas de votantes, restrições ao voto por correio e penalidades criminais para autoridades eleitorais que registrarem candidatos sem a documentação adequada.
ICE em locais de votação
Enquanto o projeto de lei de Trump está travado no Congresso, várias legislaturas estaduais lideradas por republicanos promulgaram ou propuseram leis que replicam partes da proposta.
O governo Trump também utilizou outras agências federais, incluindo o Departamento de Justiça e o FBI, para solicitar registros eleitorais, dados de cadastro de eleitores ou outros materiais relacionados às eleições em vários estados, argumentando que tais esforços são necessários para investigar fraudes e proteger a integridade do pleito.

Além disso, Trump reformulou o acesso a uma ferramenta de verificação de cidadania e status de imigração, facilitando para as autoridades eleitorais estaduais e locais a conferência de eleitores com base em registros de imigração e números da Previdência Social. O problema é que o sistema contém dados incompletos ou desatualizados, aumentando o risco de que eleitores elegíveis sejam impedidos de votar.
Na base da estratégia está uma operação para criar regras que reduzam e moldem o eleitorado a favor do governo Trump.
Numa operação sem precedentes, Trump ainda sinalizou que poderia enviar agentes do ICE para locais de votação nas eleições, uma medida que grupos de direitos civis afirmam constituir uma tática ilegal de intimidação de eleitores.
“Eu faria o que fosse necessário para garantir eleições honestas”, disse Trump a repórteres em maio, após ser questionado se enviaria a Guarda Nacional ou o ICE.
Críticos argumentam que a presença de agentes do ICE nas proximidades dos locais de votação poderia intimidar eleitores aptos a votar que temem fiscalização ou assédio – especialmente aqueles provenientes de comunidades de imigrantes – e desencorajá-los a exercer o voto.
Para ativistas e observadores, a operação de manipulação está em andamento. O deputado democrata Robert Garcia resumiu no mês passado a dimensão da ameaça.
“Haverá um ataque total ao nosso processo eleitoral. Trump usará tudo o que puder, todos os recursos ao seu alcance, para mirar em disputas acirradas”, disse. Resta saber se as instituições americanas resistirão ao ataque.