Eleição no Brasil vira teste global sobre como resistir a Trump

Democracias querem saber como é possível sobreviver ao assédio de Washington
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Quando os brasileiros forem às urnas, em outubro, o mundo estará de olho no país. O interesse não é apenas por saber quem será o próximo presidente. O que está em jogo, para diplomacias estrangeiras, é também a capacidade de um sistema democrático resistir às ofensivas, chantagens e manobras de Donald Trump.

No fundo, o que dezenas de democracias querem saber é como uma democracia pode sobreviver ao assédio de Washington e, em caso de derrota do candidato americano, qual será a reação da Casa Branca.

Nos últimos meses, a postura de Luiz Inácio Lula da Silva de não ceder às pressões de Trump chamou atenção, principalmente na Europa. Ao longo do ano de 2025, capitais como Paris, Londres, Berna e Berlim foram acusadas de terem se curvado às demandas do presidente americano. E, ainda assim, o resultado não foi o apaziguamento da relação entre o republicano e esses governos.

Para negociadores, a Europa errou ao achar que, entregando uma parcela das exigências, a chantagem poderia ser suspensa. Não foi e a relação transatlântica, considerada como estratégica, atravessa uma de suas piores fases em décadas. Para completar, Trump passou a zombar de vários dos líderes que ligaram para ele, implorando que tarifas ou sanções não fossem impostas contra seus respectivos países.

Em meados do ano, durante a Cúpula do G7 em Evian, o republicano interrompeu a reunião com os demais líderes para ironizar até mesmo a voz da presidente da Suíça, que havia suplicado ao americano para que ele não colocasse tarifas sobre os produtos do país alpino.

Bombardeio de desinformações

Mais do que uma dimensão pessoal, o que será testado é a resiliência de uma democracia diante de ataques deliberados da maior superpotência militar do mundo.

Negociadores e autoridades estrangeiras confirmaram à reportagem que o Brasil pode se transformar em um “case” e revelar ao mundo os limites das ações de Trump.

Alguns chegam a comparar a situação à guerra no Irã. A avaliação é a de que, se Teerã resistiu à escalada militar, pelo menos até agora, o Brasil poderia acabar se transformando num paradigma de como uma democracia sobrevive aos bombardeios de desinformação e atos para desestabilizar um país.

Observadores acreditam que existam três momentos-chave na eleição no Brasil,  que serão acompanhados pelo mundo inteiro. O primeiro deles é o período que antecede ao voto, principalmente na semana da eleição. Considera-se que a diferença entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro é ainda apertada demais para evitar que uma campanha de desinformação não tenha, eventualmente, seu impacto.

Neste caso, o papel das Big Techs e da operação internacional da extrema direita serão acompanhadas de perto.

Não se descarta que Elon Musk volte a fazer uma forte campanha em suas redes sociais contra Lula, também às vésperas do pleito.

Jamil elon musk wikimedia commons
Elon Musk: uso do X para interferir na eleição brasileira (Foto: Wikimedia Commons)

Um segundo momento-chave é o próprio dia da eleição. Denúncias falsas de fraude, como ocorreram nos EUA em 2024, e até mesmo ataques a centros de votação estão no radar das preocupações.

Por fim, um último momento crítico será o anúncio do resultado. Governos estrangeiros se interrogam se os EUA vão imediatamente reconhecer uma vitória que não seja a de Flávio Bolsonaro ou se haverá a disseminação de acusações falsas de fraude eleitoral.

Para capitais europeias, um eventual não reconhecimento da vitória de Lula por Trump abriria uma crise sem precedentes na América Latina e o risco de uma profunda desestabilização regional.

O temor é o de que governos como da Argentina e da Colômbia sigam uma ruptura promovida pela Casa Branca e transformem a região em um caldeirão de incertezas políticas e econômicas.

Não por acaso, a eleição no Brasil entra no radar de diversos governos como um dos maiores eventos políticos do ano.

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