Fiódor Dostoiévski, intérprete do Brasil?

Esse personagem nos conduz ao coração das trevas do mundo contemporâneo

A novela Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski, é a forma própria do ressentimento. A primeira parte, “Subsolo”, contém uma série de reflexões sobre essa categoria intrigante. O pensamento é apresentado de modo desconexo, fragmentado, numa excitação estilística que mimetiza o processo mental inquieto e errático do narrador. A segunda parte, “A propósito da neve molhada”, apresenta episódios de sua vida, que, em tese, serviriam para ilustrar a filosofia anárquica que alinhava o texto, embora somente reforcem o caos cognitivo que o domina, numa antevisão surpreendente da fórmula seguida à risca no avanço da extrema direita transnacional no século 21. Essas duas seções encenam polêmicas que ajudam a entender o alcance e o alvo do protagonista anônimo. De um lado, o utilitarismo e a ideia de que o sujeito age racionalmente em suas interações sociais são parodiados e até ridicularizados. De outro, a sequência desordenada de eventos é emoldurada pelo isolamento que o narrador (teoricamente) se impõe. As marcas do ressentido afloram em cada página. Vale a pena reunir as frases de abertura das duas partes para um retrato de corpo inteiro:

“Sou um homem doente… Sou um homem raivoso. Sou um homem sem graça nenhuma. Acho que sofro do fígado. (…) Não, meus senhores, eu não quero me curar da raiva. E isso, não há dúvida, é uma coisa que os senhores não vão se dar ao trabalho de compreender. Mas, muito bem, eu compreendo os senhores.

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