Ponta do iceberg
O último escândalo financeiro envolve o Banco Digimais, controlado desde 2020 pelo empresário muito bem-sucedido Edir Macedo.
(Sim, empresário; função primeira, sua razão de ser. Chamá-lo de “Bispo” é uma concessão que deveríamos evitar.)
O escândalo guarda um parentesco revelador com a ruína do Banco Master. Nos dois casos, uma contabilidade criativa procurava maquiar a real situação das instituições. O truque tinha alvo fixo: para ter acesso a fundos públicos, é necessário demonstrar saúde financeira para se candidatar ao recebimento de recursos públicos.
O Banco Master especializou-se em assaltar os cofres dos Fundos de Previdência, isto é, especializou-se em roubar os parcos proventos de aposentados. Claro, com a conivência de políticos que, contrariando recomendações enfáticas para que não se fizessem aportes ao Banco Master, comprometeram o futuro de milhares de aposentados: Cláudio Castro, Ciro Nogueira, Ibaneis Rocha e Davi Alcolumbre na vanguarda do atraso.
O Banco Digimais insistiu no saque de recursos públicos, mas mudou o alvo. Divisão de trabalho também se aplica ao mundo da contravenção em palácios. Desta vez, investiram sua energia no mercado próspero do crédito consignado, ou seja, empréstimos feitos por servidores públicos, que são descontados em seus holerites. Claro, com a conivência de políticos que, contrariando recomendações enfáticas para que não se fizessem aportes ao Banco Digimais, comprometeram o presente de milhares de servidores: Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes na vanguarda do atraso.
O envolvimento do multiempreendedor Edir Macedo nesse novo escândalo não deveria surpreender o leitor do livro fundamental de Gilberto Nascimento, O Reino – A História de Edir Macedo e Uma Radiografia da Igreja Universal, publicado em 2019.

Empresário Universal
O capítulo 16, “O império universal”, é de leitura obrigatória, embora inquietante. O empreendedor Edir Macedo é um gênio (do mal) dos negócios. Ele criou um sistema autossustentável com base nos recursos oriundos da Igreja Universal.
Funciona assim: a Igreja Universal é a empresa-matriz, cuja afluência permitiu construir um império midiático, com destaque para a Rede Record. A Igreja Universal paga centenas de milhões de reais para “comprar” espaço na grade da programação da Record. Ao mesmo tempo, uma miríade de empresas foi criada pelo empreendedor Edir Macedo, forjando uma circularidade dos recursos no interior do mesmo sistema.
Confuso?
Leia o livro de Gilberto Nascimento:
“Recorrendo umas às outras, as empresas se retroalimentam. A Record contrata firmas de segurança do grupo para cuidar dos serviços de segurança, transporte, fornecimento de água mineral e produção de programas. O banco oferece empréstimos aos funcionários; a operadora de plano de saúde, o plano médico. Os lucros não saem do conglomerado”.
Assustador, não? O empresário Edir Macedo controla também um partido político, o Republicanos, e por isso fez a transição: por que não ingressar no reino encantado do crédito consignado? O escândalo do Banco Digimais é apenas a ponta do iceberg.
Há mais para ser descoberto.
Muito mais.
(O filósofo Bezerra da Silva sempre soube das coisas: Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente/É o diabo vivo em figura de gente /É o pastor trambiqueiro enganando inocentes.)