O ecossistema político brasileiro é pródigo em produzir comédias dramáticas de altíssimo nível. Poucas vezes assistimos a um roteiro tão primoroso quanto o recente desabafo público de Michelle Bolsonaro. Em um vídeo que balançou as estruturas do PL, a ex-primeira-dama veio a público, com o semblante visivelmente abatido pelas amarguras da realidade concreta, para relatar ter sido “humilhada” e “maltratada” por ninguém menos do que seu enteado, o senador Flávio Bolsonaro. O crime dela? Ousar ter uma opinião sobre os arranjos eleitorais da legenda no Ceará. A resposta do enteado a essa opinião foi um sonoro e pedagógico berro telefônico avisando que ela “havia chegado ontem” e “não entendia nada de política”.
A situação é de uma ironia tão fina que chega a ser poética. Passamos os últimos anos ouvindo discursos inflamados sobre a beleza da submissão feminina cristã, onde a mulher deve ser a dócil “ajudadora” do homem, focada na harmonia do lar e distante das garras do “feminismo corrompido”. Michelle, que liderou com maestria o PL Mulher, viajou o país convertendo corações femininos à doutrina de que o poder político é, em última análise, um fardo masculino que as mulheres apenas suavizam com seu charme e sensibilidade.