Michelle e o alvoroço causado pela empoderada de ocasião

Guardemos nossa sororidade para as vítimas de ataques misóginos perpetrados pela família Bolsonaro
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“É uma nova era no Brasil, menino veste azul, menina veste rosa.” Desde que Michelle Bolsonaro gravou um vídeo fantasiada de “mulher empoderada”, aquele momento icônico do Brasil das trevas, protagonizado por Damares Alves, em 2019, não sai da minha cabeça. Damares, é bom lembrar, é uma das principais aliadas da ex-primeira dama. As duas têm muita coisa em comum, entre elas, a pauta ultraconservadora que se traduz nesse sonho: um mundo (ou seria uma seita?) onde meninas vestem rosa e meninos vestem azul.

Lembro disso porque, no frenesi gerado pelo vídeo, houve colunista dizendo que Michelle estaria “flertando com o feminismo” e bolsonarista a chamando de “feminista”. Não. Respeitem nossos neurônios, por favor. O que ela fez ao gravar a peça foi se colocar à frente dos refletores da extrema direita brasileira, o que não tem nada a ver com “feminismo”.

A confusão talvez seja causada pelo fato de Michelle posar de “empoderada” (com muitas aspas), pedindo respeito e defendendo candidaturas de mulheres conservadoras “honradas, que defendem a vida”.  Essa é uma atitude feminista? Claro que não.

“Não chegou ontem”

Ao gravar esse vídeo, ela deixou claro o que muitas de nós já sabíamos: ela tem sede de poder e vontade de disputar a herança política da família. A ex-primeira-dama sempre se posicionou como uma conservadora bem articulada na cena evangélica.

Michelle, a empoderada de ocasião, não tem nada de boba. Ela é uma mulher muito inteligente e sabe exatamente o que mira quando se posiciona contra Flávio e Eduardo Bolsonaro e fala coisas como:

“Eu não mando recados.”

“Por que só a mulher tem que ceder?’’

“Ele {Flávio} disse que eu tinha chegado ontem e não entendia nada de política.”

Ela quer conquistar mais o eleitorado feminino para suas fileiras conservadoras. E também, claro, se colocar como uma liderança importante e “corajosa” do PL: uma espécie de voz das mulheres conservadoras e “honradas” (palavra que usa várias vezes) do Brasil. Se afastar dos enteados toscos pode ser até interessante para essa “nova personagem”. Além de falar abertamente contra eles no vídeo, alguns dias depois de viralizar, Michelle deu uma de influencer magoada e parou de segui-los nas redes sociais.

Exército de mulheres de bem

Agora, ela parece querer expandir seu “império” conservador. Em carta divulgada na segunda-feira (30/6), Michelle comunicou sua saída da presidência do PL Mulher, cargo que ocupava desde 2023. No texto, apesar de ser uma renúncia, ela mostra que quer, na verdade, expandir os seus domínios. De repente, até “criar um movimento”.

“Durante o período em que estive à frente do PL Mulher, construímos – juntamente com as nossas presidentes – um grande exército de mulheres de bem, que já começaram a transformar o Brasil e a corrigir os rumos da nossa Nação. Conhecendo a força e a capacidade das mulheres brasileiras, tenho certeza de que o nosso movimento crescerá ainda mais e teremos um futuro próspero para os nossos filhos e netos”. Medo.

Será que Michelle e seu “movimento” têm futuro? Infelizmente, acho que sim. Um dia, talvez ela seja eleita senadora, por exemplo. Mas não é o fato de ela ter poder que vai transformá-la numa voz importante para a independência e a liberdade das mulheres. Quanto mais poder tiver, mais perigosa ela será para a democracia, o estado laico e os direitos das mulheres e da população LGBTQIA+.

Michelle é antifeminista de carteirinha e não vai deixar de ser porque ousou pedir respeito e falar que era maltratada por homens específicos. Sua pauta é inimiga da liberdade das mulheres. Suas maiores aliadas, idem.

Damares, que tentou fazer uma menina de 10 anos, vitima de estupro, ser impedida de fazer um aborto a que tinha direito por lei, é uma delas  Assim como a vereadora cearense Priscila Costa, citada várias vezes por Michelle no vídeo e também na sua cara de renúncia. As principais pautas dessas mulheres são totalmente inimigas do feminismo. Entre elas, estão o estatuto do nascituro, o banimento do aborto em todos os casos, o combate à educação de gênero nas escolas, a defesa da “família tradicional” e outros horrores. O conservadorismo dessas mulheres é extremo, estejam elas usando terninho ou vestido de “trad wife” cor de rosa.

Priscila Costa, vereadora de Fortaleza, citada por Michelle como aliada no vídeo, em foto que ilustra a reportagem da Liberta. Uma das principais defensoras pautas antifeministas, como o banimento do aborto e o combate à educação de gênero.
Priscila Costa, vereadora de Fortaleza: pautas antifeministas (Foto: Divulgação)

Sororidade é o caramba

No alvoroço causado pelo vídeo, houve até quem cobrasse que nós, mulheres feministas, deveríamos ter “sororidade” por Michelle. Não, não temos. Sororidade não significa gostar de todas as mulheres e apoiar as inimigas de nossas causas. Temos sororidade, por exemplo, por uma menina de 10 anos que é coagida a não fazer um aborto a que tem direito por lei, por sua família e por tantas mulheres que não têm direito ao aborto seguro.

No vídeo, Michelle diz também que seria “vítima de ataques nas redes que seriam coordenados por influenciadores que moram nos Estados Unidos”,  em alusão a Eduardo Bolsonaro e sua turma. Ora, nós, jornalistas e feministas, somos atacadas por essa gente há anos. Guardamos nossa sororidade para todas as outras mulheres vítimas desses ataques misóginos, perpetrados muitas vezes pelo próprio Jair Bolsonaro, o “galego” de Michelle. A ex-primeira-dama esqueceu isso?

Ser feminista não é ser masoquista e abraçar quem nos detesta. Não, não vamos cair no jogo da Michelle empoderada. Ela que vista a fantasia que quiser.

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