Enfiada numa calça jeans stone washed, com uma blusa preta sem decote e disfarçando os contornos do corpo – que já foi curvilíneo – com um blazer igualmente noir e um número acima de seu manequim, a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, desfilou como pré-candidata à Presidência da República na noite do sábado 30 de maio num salão estudadamente preparado para ela.
O pano de fundo era a celebração dos 70 anos do deputado Alberto Fraga (PL-DF), líder histórico da “Bancada da Bala” no Congresso Nacional. As luzes da ribalta, entretanto, acompanharam a mulher do ex-presidente (condenado e preso por tentativa de golpe de Estado) pelas quase duas horas e meia em que ela permaneceu na casa do ex-coronel da Polícia Militar do Distrito Federal, amigo de Jair Bolsonaro desde os tempos em que passaram juntos pela Academia de Educação Física do Exército, nos anos 1980.
Quando Michelle chegou ao evento, a grande maioria dos 250 convidados já estava lá. As mesas redondas estavam dispostas por núcleos de interesses políticos – todos eles meticulosamente definidos. Uma banda e um saxofonista enchiam o ambiente com um repertório pitorescamente eclético, do pop ao gospel passando por um sertanejo meloso. Ela entrou nos salões conduzida pelo presidente do Partido Liberal, Valdemar da Costa Neto, e parecia se sentir em casa.
Em 2021, quando o aniversariante daquela noite perdeu a primeira esposa, Mirta, para a Covid-19, ele e Bolsonaro romperam. Fraga e Mirta haviam sido casados por 40 anos. Ela ficou 73 dias agonizando numa UTI, em razão de não ter sido vacinada contra o coronavírus, por concordar com as maluquices anticiência e antivacinas de Jair Bolsonaro. O deputado cobrava publicamente posturas públicas mais responsáveis e empáticas daquele a quem chegou a considerar “ex-amigo”. Foi a mulher de Bolsonaro quem se empenhou em refazer a relação afetiva e de confiança dos dois marmanjos, próximos desde os tempos em que dividiam as mesmas duchas do vestiário da Academia militar no Rio de Janeiro.

Valdemar, Sóstenes e Bia
Valdemar havia coreografado tudo o que se daria a partir do momento em que deixasse sua consorte de momento nos cumprimentos a Alberto Fraga e à sua nova esposa. O presidente do PL tratou de localizar o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido que estava bem à vontade porque ali pelo menos não precisava parir explicações para os R$ 450 mil em dinheiro vivo encontrados no guarda-roupas do flat em que mora em Brasília, e se certificou de que havia lugar para Michelle na mesa de Sóstenes. Check. Costa Neto então lançou um olhar cheio de charme e assertividade para a deputada Bia Kicis (PL-DF) e sinalizou que gostaria que ela conduzisse as ex-primeira-dama até lá.
Foi um longo caminho. Até a cadeira que Sóstenes reservara para a mulher de Bolsonaro, foram incontáveis os cumprimentos e os pedidos de foto. Michelle não se fez de rogada e cumprimentou os músicos, tirou fotos com um grupo de evangélicos de uma comunidade que costuma dar votos ao homenageado do convescote, driblou a “Bancada da Bala” pela direita e entancou no núcleo da “Bancada da Bíblia”. Só bebeu água e sucos. Beliscou uns fingers foods do coquetel volante e sorriu à distância para o ex-procurador-geral Augusto Aras que também estava lá. Fraga foi quem levou Aras à presença de Jair Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, em 2019, e patrocinou a candidatura do subprocurador-geral à PGR.
Antes de conseguir sentar com Sóstenes Cavalcante, com quem dividiria um prato de comida e muitos sorrisos, Michelle Bolsonaro foi sequestrado pela simpatia calva e insistente de José Roberto Arruda (PSD-DF), o ex-governador do Distrito Federal preso por corrupção em 2010 no bojo da Operação Caixa de Pandora. Se o Supremo Tribunal Federal deixar, liberando-o para usar a seu favor na nova contabilidade de tempo de inelegibilidade da Lei da Ficha Limpa, Arruda será candidato a governador do DF mais uma vez em outubro e pretende ter Michelle em seu palanque na tentativa de novo renascimento político – seja ela candidata ao Senado por Brasília, como está posto, seja ela candidata à presidência da República, como ficou claro que é no festão de Fraga.
Depois que Arruda apresentou a nova esposa à mulher de Bolsonaro, não sem antes curtir o prazer vingativo da ex-primeira-dama em ver que a ex-ministra do governo do marido, Flávia Arruda (agora Flávia Peres e casada com o ex-banqueiro Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro nas ruínas do Master), Michelle sentiu-se À vontade para acelerar o passo e ir dedicar dois dedos de prosa a Sóstenes Cavalcante. Ela gosta do líder do PL. Atrai-a, sobretudo, o perfil fofoqueiro-de-candinha do dono dos R$ 450 mil inexplicados colhidos no flat brasiliense.

Jogando em silêncio
Havia quatro dias, apenas, o enteado de Michelle , Flávio Bolsonaro, tinha divulgado uma foto dele mesmo, empertigado como alguém que tivesse sido empalado por um cabo de vassoura, ao lado de um Donald Trump exibindo um sorriso de porcelana no Salão Oval da Casa Branca. Uma semana antes, quando o site The Intercept Brasil descobriu e divulgou as relações financeiras e de amizade íntima de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Sóstenes começou a trabalhar uma divisão interna do PL para executar algo que sempre foi projeto de Valdemar da Costa Neto: trocar o filho 01 de Jair Bolsonaro pela mulher do ex-presidente na cabeça da chapa presidencial.
Alberto Fraga, que não gosta nem de Flávio, nem de nenhum outro filho do ex, está nessa onda. Jogando em silêncio, decidiram todos testar a empatia social e a destreza de Michelle Bolsonaro no trânsito entre falcões e gralhas das bancadas da bala, de Brasília e da Bíblia (onde ela sempre se sentiu à vontade). Foi assim que o aniversário de 70 anos do deputado Alberto Fraga se converteu na noite de debutante da ex-primeira-dama como candidata à presidência. Nenhum dos parlamentares mais próximos de Flávio Bolsonaro foram à festa, nem nenhum dos irmãos – mesmo aqueles que ainda não são fugitivos da Justiça, Carlos e Jair Renan. Ao voltar para casa, no condomínio Solar de Brasília, onde Jair Bolsonaro cumpre em domicílio o regime fechado da pena de 27 anos e quatro meses à qual foi condenado, Michele percebeu que o ex-presidente pressentiu o cheiro de ardil no ar.