Tem uma cena que se repete com a pontualidade de rotina e o Brasil conhece bem. Um fenômeno climático, como o El Niño, é anunciado. O agricultor levanta os olhos para o céu, que não vai cooperar. Já sabe o que vem. O país inteiro já sabe. E mesmo assim, alguns meses depois, a queda aparece nos relatórios como se fosse algo inédito. O fenômeno passa, o agro se recupera, e nada muda o suficiente para que a próxima vez seja diferente.
A Organização Meteorológica Mundial estima 80% de probabilidade de El Niño entre junho e agosto deste ano, com 90% de chance de persistir pelo menos até novembro. As temperaturas subsuperficiais do Pacífico equatorial central superaram em mais de seis graus as médias sazonais entre abril e maio, dado que os modelos leram como sinal de que o fenômeno está se consolidando. A janela para confirmação fecha em junho, momento em que devem iniciar as decisões e o planejamento para a próxima safra.
Amou daquela vez como se fosse a última
O agro brasileiro chega a esse momento saindo de um ciclo de recuperação, e é exatamente aí que mora o problema. O setor cresceu 12% em 2025, resultado que o próprio mercado chamou de “tempestade perfeita”. Clima cooperativo, safra recorde de soja e abates bovinos em volume crescente. O PIB do primeiro trimestre de 2026 ainda carrega parte desse impulso, com a agropecuária crescendo 2% sobre uma base já alta.
Projeções do setor já apontavam retração no PIB agrícola antes mesmo da confirmação do fenômeno, calculadas sobre uma base de comparação que o próprio mercado reconhece como excepcional. O El Niño de 2015-2016, último de grande intensidade comparável ao projetado agora, derrubou a produtividade da soja para uma das piores marcas da série histórica. Não se faz safra recorde em ano de El Niño e, o produtor que celebrava recorde em dezembro vai lidar com isso sem a margem que o recorde deveria ter deixado. Subiu a construção como se fosse máquina.
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Mas o fenômeno não afeta todas as regiões igualmente. No Norte e no Centro-Oeste, seca, calor, rios baixos e risco de incêndio. No Sul, o oposto: excesso de chuva, solo encharcado, inundações. O problema é que os dois lados têm a mesma cadeia produtiva no meio.
A soja é produzida no centro-norte que vai secar, escoada pelos rios que vão baixar, e ainda disputa estrada e ferrovia com o transtorno que as enchentes do Sul vão criar. O Rio Grande do Sul, que ainda tem cidades em reconstrução pelas enchentes de 2024, concentra a maior parte da produção nacional de arroz, cultura que não tolera solo encharcado na hora da colheita. O Matopiba, formado por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a principal fronteira agrícola em expansão do país e fica no coração da zona de estiagem projetada.
O ano de 2024 ainda é memória recente. Os rios amazônicos secaram. As enchentes do RS mataram mais de 180 pessoas e deixaram cidades inteiras debaixo d’água. Os incêndios avançaram sobre os principais biomas. E o Brasil chega ao El Niño de 2026 com parte dessas feridas ainda abertas, sem ter encerrado a resposta ao ciclo anterior.

Tijolo com tijolo num desenho lógico
A conta da energia chega mais devagar, o que a torna mais difícil de ver antes de sentir. Metade da eletricidade gerada na América Latina vem de usinas hidrelétricas, e o Brasil está entre os países com maior dependência desse recurso. Quando os reservatórios secam, as termelétricas entram, mais caras, mais poluentes, dependentes de combustível comprado lá fora. A tarifa sobe, o custo industrial acompanha, e a inflação, que já vem sofrendo outras pressões, recebe mais combustível.
Há ainda uma conta que o consumidor ainda não recebeu mas que já foi emitida. Os adubos usados na safra deste ano foram comprados antes da guerra no Oriente Médio embaralhar os preços globais de insumos. O produtor pagou mais. Esse custo ainda não chegou à feira, mas vai chegar em 2027, quando as lavouras plantadas agora forem colhidas. O Brasil depende de importação para mais de 85% dos fertilizantes que usa, sem nenhuma estratégia séria de substituição no horizonte. Quando o insumo fica caro demais, o produtor escolhe entre plantar menos ou plantar pior e, nos dois casos, quem come no final da cadeia paga a diferença.
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair. Deus lhe pague.
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Mas existe uma palavra que o debate sobre o El Nino parece ignorar: a prevenção. Não porque o conceito seja desconhecido, mas porque ele tem custo antecipado e benefício invisível, que é a combinação perfeita para sumir do orçamento público na primeira oportunidade.
Em Minas Gerais, o governo Zema reduziu a verba de prevenção contra impacto das chuvas de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões em dois anos, uma queda de 96%. Foi uma escolha, executada num estado que concentra parte significativa da produção agrícola nacional e que, nas enchentes de 2022, já havia mostrado o que acontece quando a infraestrutura de contenção não existe. A mesma lógica fiscalista que justificou o corte vai silenciar quando o pedido de socorro ao governo federal chegar, porque vai chegar. Sempre chega.
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
O agronegócio exportador brasileiro comeu do prato público por décadas. É o setor que mais se beneficiou de crédito subsidiado, desoneração fiscal, perdão de dívida e infraestrutura pública financiada pelo Estado ao longo das últimas décadas. Ao mesmo tempo, é o setor cuja representação política, a Bancada Ruralista, maior bancada do Congresso, trabalhou sistematicamente para esvaziar o licenciamento ambiental, reduzir áreas de proteção permanente, flexibilizar o Código Florestal e enterrar qualquer política climática que ameaçasse o modelo de expansão sobre biomas.
Esse modelo derrubou o Cerrado para plantar soja, desregulou o ciclo hídrico do Centro-Oeste, região que irá secar quando o El Niño aparecer no portão, e a bancada que passou esse tempo financiando o negacionismo e bloqueando a regulação vai ser afetada pelas próprias atitudes. Como dizem, quem semeia vento, colhe tempestade.
E nas janelas entre um desastre e o próximo, o mesmo setor lidera o coro fiscal contra o “Estado gastão” e a “irresponsabilidade fiscal” do governo federal. Todo dia ela faz tudo sempre igual: os lucros do bom tempo são privatizados e o prejuízo do mau tempo é socializado. Depois o governo federal que pagou a conta é chamado de irresponsável pelos mesmos que apresentaram a fatura.
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Um corpo saudável absorve um tombo. Um corpo já machucado quebra com o mesmo tombo. O Brasil chega ao El Niño de 2026 com fertilizantes caros, juros elevados, reservatórios ainda se recuperando, infraestrutura parcialmente destruída no Sul e verbas de prevenção cortadas em estados que vão ser os primeiros a pedir socorro. A queda vai doer.
O governo federal criou um gabinete de crise para acompanhar os impactos semanalmente. Vale observar o que esse gabinete vai fazer com o diagnóstico, porque o diagnóstico, a essa altura, está disponível para quem quiser ler. E vale observar quem vai criticar o custo do socorro quando a conta chegar.
Todo dia ela faz tudo sempre igual. O El Niño volta, a prevenção não foi feita, o socorro federal é acionado, o discurso fiscal ressurge depois que o cheque passou, e nada muda o suficiente para que a próxima vez seja diferente. O ciclo agradece com a boca de feijão, e o endereço da conta é o de sempre, o bolso de quem faz feira, do pequeno produtor que não tem margem, o trabalhador que morreu na contramão atrapalhando o tráfego e virou variação negativa no PIB do trimestre seguinte.
Pelo pão pra comer, pelo chão pra dormir. Deus lhe pague.