O Brasil está preparado para o El Niño?

O problema começa quando mobilização de última hora passa a ser confundida prevenção
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Responder a essa pergunta exige organizar dois pontos que costumam aparecer misturados no debate público: de qual El Niño e de qual Brasil estamos falando? Para seguir com as reflexões, primeiramente é preciso esclarecer que o El Niño faz parte da variabilidade natural do clima global e está associado à fase quente da “gangorra térmica” que atua no Pacífico Equatorial, influenciando regimes de chuva, seca e temperatura em diferentes partes do mundo. O Brasil, por sua vez, é um país continental, formado por sistemas muito distintos, tais como metrópoles, pequenas cidades, áreas rurais, bacias hidrográficas, florestas, cadeias produtivas, serviços públicos e instituições com diferentes capacidades, todos marcados por assimetrias profundas e desigualdades históricas.

El Niño, suas intensidades e relações com desastres

Os principais centros internacionais indicam que o El Niño deve se estabelecer nos próximos meses, com a maior parte das previsões apontando para um evento forte no seu auge ao final do ano, com alguns resultados alcançando a categoria “muito forte”.1 Em termos gerais, esse cenário tende a aumentar a probabilidade de chuvas acima da média e eventos hidrometeorológicos extremos no Sul do Brasil, ao mesmo tempo em que favorece condições mais secas e quentes no Norte e Nordeste, além de ondas de calor e baixa umidade em parte do Centro-Oeste e Sudeste.1 Cabe ressaltar, contudo, que cada El Niño tem uma assinatura própria e seus efeitos práticos dependem da combinação com outros elementos do sistema climático global e com as condições regionais que ele encontrará ao longo dos meses em que estiver ativo. Ou seja, afirmações sobre frequência e magnitude de eventos extremos individuais e localizados, com meses de antecedência, carregam altíssimo grau de incerteza¹.

Além disso, a relação entre El Niño e grandes desastres precisa ser tratada com cuidado, especialmente nos casos recentes do Rio Grande do Sul que estão presentes na memória dos brasileiros. As inundações de maio de 2024 têm sido frequentemente associadas ao El Niño e colocadas como parâmetros para comunicações alarmistas, mas ocorreram quando o fenômeno já estava em enfraquecimento e transição para a neutralidade. Já os desastres de setembro e novembro de 2023 ocorreram em uma fase mais intensa do El Niño e tiveram influência mais direta desse contexto climático, ainda que tenham sido mais concentrados territorialmente, com impactos importantes no Vales do Taquari e do Caí e áreas da Serra Gaúcha. Em certa medida, esses episódios foram ofuscados pela dimensão excepcional do desastre de 2024, mas ajudam a mostrar que a presença, a intensidade e a fase de evolução do El Niño não explicam, sozinhas, a escala e a distribuição dos desastres, e vice-versa.

Essa mesma lógica vale para outros casos recentes no Brasil. A tragédia de Petrópolis, em 2022, ocorreu durante a fase de esfriamento da “gangorra térmica” do Pacífico, a La Niña. O desastre de São Sebastião, em 2023, também ocorreu em um momento ainda marcado pela influência da La Niña, já em transição para a neutralidade. Embora a seca histórica da Amazônia tenha ocorrido durante o último El Niño muito forte de 2023-2024, outras secas extremas e episódios de ondas de calor, inundações e deslizamentos também se manifestam em anos de El Niño mais fraco, neutralidade ou mesmo de La Niña. Que fique claro: não se trata de amenizar ou relativizar os impactos que podem ocorrer no segundo semestre de 2026, mas de esclarecer que, embora o El Niño aumente probabilidades de situações extremas, ele está longe de ser a única peça do problema.

Aliás, do ponto de vista climático, a questão mais importante talvez esteja no pano de fundo sobre o qual todos esses fenômenos passam a atuar. A Organização Meteorológica Mundial confirmou 2024 como o ano mais quente já registrado, cerca de 1,55 °C acima do período pré-industrial; 2025 também ficou entre os três anos mais quentes, e o conjunto 2015-2025 corresponde aos onze anos mais quentes já observados.² Isso significa que o próximo El Niño atuará sobre um sistema climático já alterado pelas mudanças climáticas, no qual extremos, antes raros, passam a ocorrer mais frequentemente em um ambiente mais quente, dinâmico e difícil de prever. Portanto, a pergunta central não deveria se limitar ao El Niño, mas considerar como ele irá interagir com um clima de fundo cada vez mais extremo e com territórios historicamente vulneráveis.

 

Leito de rio completamente seco na Amazônia evidencia os efeitos de secas extremas agravadas pelas mudanças climáticas.
Na Amazônia, um leito de rio completamente seco. Foto: Instituto Socioambiental

O Brasil avançou, mas os desafios também

O Brasil aprendeu algumas lições com os grandes desastres recentes. Depois da tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, foi estruturado um novo arranjo nacional de gestão de riscos. A Lei 12.608/2012 instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, organizou atribuições federativas e reforçou a lógica de prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação. A criação do Cemaden foi parte importante desse processo, ampliando a capacidade científica, técnica e operacional de monitoramento e previsão de riscos. No mesmo movimento, o Serviço Geológico do Brasil expandiu o mapeamento de áreas de risco geo-hidrológico, enquanto CENAD, SEDEC, estados, municípios e instituições de pesquisa passaram a compor uma arquitetura mais densa de monitoramento, planejamento, preparação e resposta.

Mais recentemente, outros instrumentos reforçaram essa agenda. O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, o Plano Clima 2024-2035 e o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil 2025-2035 consolidam uma visão mais integrada entre adaptação, desenvolvimento, prevenção e recuperação. O Novo PAC prevê investimentos bilionários em drenagem urbana, contenção de encostas e estudos de risco.³ O Defesa Civil Alerta ampliou a capacidade de comunicação direta com pessoas em áreas de risco com tecnologia mais moderna, enviando alertas aos celulares sem necessidade de cadastro prévio. Alguns estados também avançaram em planos e estratégias próprias de adaptação e gestão de riscos e desastres. No campo das secas, instrumentos como o Garantia-Safra, o Proagro, o seguro rural e o Plano Safra também ajudam a reduzir perdas e dar alguma proteção econômica a produtores, especialmente os mais vulneráveis.

Portanto, o Brasil está melhor do que esteve no passado. Há mais ciência aplicada, sistemas, planos, dados, instrumentos legais, obras e reconhecimento político, ainda que fragmentado, de que desastres precisam ser tratados antes de acontecerem. O ponto crítico é transformar esse aprendizado em mudança concreta no território e de forma sistêmica em um cenário que as desigualdades persistem e as mudanças climáticas estão a todo vapor. Quanto a isso, ainda há muitas limitações para um diagnóstico amplo e representativo.

De qualquer forma, a avaliação de se estamos preparados, olhando para a frente, sempre terá limites, pois a relação entre eventos extremos e impactos reais depende de infraestrutura, exposição, vulnerabilidade, governança e capacidade de resposta, além das incertezas das previsões do clima. E avaliar olhando para trás, ajuda a compreender como esses elementos se combinam em cada desastre, mas também possuem limitações, pois dependem de dados oficiais que nem sempre capturam todas as dimensões dos impactos, sobretudo aqueles que afetam de forma desigual diferentes grupos sociais. Ainda assim, os números disponíveis já indicam a escala do problema: em âmbito nacional, a CNM estima R$ 732,2 bilhões em prejuízos por desastres entre 2013 e 2024.4 Este valor ajuda a dimensionar o desafio e reforça que o país avançou, mas ainda precisa converter planejamento, monitoramento, recursos e capacidade institucional em redução efetiva de riscos.

Moradora em casa inundada no Rio de Janeiro durante enchente que atingiu área urbana vulnerável.
Casa invadida pela enchente, no Rio de janeiro. Foto: Reprodução

A crise climática é também social e territorial

A crise climática brasileira se manifesta sobre uma crise social, urbana, territorial e ambiental construída ao longo de décadas. A atmosfera pode favorecer chuvas extremas, estiagens prolongadas ou ondas de calor, mas a escala dos impactos depende fundamentalmente do território que recebe esses eventos.

Em 2018, um estudo do IBGE e do Cemaden estimou 8,27 milhões de pessoas vivendo em áreas de risco de inundações, enxurradas e movimentos de massa.5 Com novos mapeamentos e a incorporação de dados mais recentes do Censo, é certo que este número seja ainda maior. A esse quadro se soma o déficit habitacional brasileiro, estimado em 5,77 milhões de moradias em 2024.6

Por trás destes números, há uma história de ocupação desigual do território. No Brasil, viver em área de risco não é sinônimo de pobreza, mas o padrão predominante revela um forte viés social e racial. As populações mais expostas tendem a ter menor renda, maior presença de pessoas negras e indígenas, acesso restrito ao mercado formal de terra e moradia, infraestrutura urbana incompleta e menor capacidade de prevenção, resposta e recuperação diante dos desastres.7 Esse processo é resultado de décadas de urbanização desigual, política habitacional insuficiente, segregação socioespacial e chegada incompleta de saneamento, drenagem, transporte, saúde e proteção ambiental.8

Com isso, a mesma chuva que causa transtorno em uma parte da cidade pode provocar perdas humanas em outra. A diferença nas consequências está nas condições sociais, urbanas e institucionais que definem quem consegue se proteger, quem é atingido primeiro e quem leva mais tempo para se recuperar.

Portanto, o El Niño encontrará vulnerabilidades já produzidas, e são elas que definirão o tamanho do impacto. A chuva extrema se transforma em desastre onde há ocupação de encostas instáveis, drenagem insuficiente e moradias frágeis. A seca se torna crise onde há insegurança hídrica, degradação ambiental e dependência econômica de atividades sensíveis ao clima, especialmente em contextos de agricultura familiar. O calor extremo se converte em problema de saúde pública onde há pouca arborização, moradias inadequadas, trabalho ao ar livre e acesso desigual à água, energia e cuidado.

Preparação para o El Niño exige ações muito antes de saber que ele pode chegar

Nos últimos meses, parte importante do debate público tem se concentrado no El Niño, nas previsões climáticas, nos alertas que poderão ser emitidos e nas disputas de narrativa sobre a gravidade do cenário. Tudo isso tem importância. Alertas antecipados, boletins e salas de situação são fundamentais para orientar decisões, reduzir danos e salvar vidas. O problema começa quando mobilização de última hora passa a ser confundida prevenção. Em uma política efetiva de redução de riscos, os alertas deveriam funcionar como uma camada final de proteção, acionada depois de medidas permanentes de habitação segura, planejamento urbano, saneamento, drenagem, recuperação ambiental, proteção social e educação sobre riscos e desastres.

Essa distinção é importante porque a existência de análises de risco e alertas antecipados, por melhores que sejam, não garante, por si só, a redução dos impactos. Para produzir efeito concreto, a informação técnica precisa encontrar, na ponta, capacidades institucionais e operacionais suficientes para transformá-la em ação. A capacidade local, portanto, segue sendo um dos principais gargalos da gestão de riscos e desastres no Brasil. O Projeto Elos, em retrato nacional de 2021, analisou 1.993 defesas civis municipais e mostrou que 72% das cidades pesquisadas não tinham orçamento próprio para a área, além de equipes reduzidas, alta rotatividade e limitações de estrutura.9 O financiamento federal também revela desequilíbrio: entre 2012 e 2024, para cada R$ 1 destinado a resposta e recuperação, a União aplicou apenas R$ 0,39 em prevenção.10

Desta forma, o alarmismo em torno do El Niño tende a ser pouco útil quando não vem acompanhado de orientação qualificada, capacidade institucional previamente estabelecida e ações concretas de redução de risco. Discutir a intensidade do fenômeno e a severidade dos próximos meses é necessário, mas a discussão sobre mudanças climáticas e riscos de desastres já deveria incorporar, com a mesma relevância, aquilo que a ciência aponta há décadas: a necessidade de reduzir exposição, diminuir vulnerabilidades, fortalecer municípios, financiar prevenção e tratar adaptação como política permanente de desenvolvimento. Somente com esse tipo de agenda sustentada ao longo do tempo o país poderá chegar a um próximo El Niño, La Niña ou qualquer outro cenário extremo em outro patamar de preparação, e não apenas mobilizado às pressas diante de riscos já conhecidos.

Talvez estejamos olhando demais para a superfície e as profundezas do Pacífico, quando também deveríamos olhar com mais atenção para a nossa própria realidade e suas raízes. Sabemos que o clima amplifica as crises, mas boa parte das nossas vulnerabilidades foi acumulada ao longo da história brasileira e demanda tempo, continuidade institucional e interesse político para ser enfrentada. Portanto, estar preparado para o El Niño exige, antes, preparar o Brasil para superar suas próprias mazelas e desigualdades históricas. E neste ponto, ainda estamos longe.

REFERÊNCIAS UTILIZADAS

CENTRO NACIONAL DE MONITORAMENTO E ALERTAS DE DESASTRES NATURAIS (Cemaden). Nota Técnica nº 627/2026/SEI-CEMADEN: El Niño 2026/2027 e impactos esperados no Brasil. São José dos Campos: Cemaden/MCTI, 2026.

ORGANIZAÇÃO METEOROLÓGICA MUNDIAL. WMO confirms 2024 as warmest year on record at about 1.55 °C above pre-industrial level. Genebra: WMO, 2025. Disponível em: https://wmo.int/news/media-centre/wmo-confirms-2024-warmest-year-record-about-155degc-above-pre-industrial-level.
BRASIL. Casa Civil. Prevenção a desastres: contenção de encostas e drenagem. Brasília, DF: Novo PAC, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/casacivil/pt-br/novopac/cidades-sustentaveis-e-resilientes/prevencao-a-desastres-contencao-de-encostas-e-drenagem.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE MUNICÍPIOS. Brasil registra mais de R$ 732 bilhões em prejuízos por conta de desastres entre 2013 e 2024. Brasília, DF: CNM, 2025. Disponível em: https://cnm.org.br/comunicacao/noticias/brasil-registra-mais-de-r-732-bilhoes-em-prejuizos-por-conta-de-desastres-entre-2013-e-2024.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA; CENTRO NACIONAL DE MONITORAMENTO E ALERTAS DE DESASTRES NATURAIS. População em áreas de risco no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; São José dos Campos: Cemaden, 2018. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/informacoes-ambientais/estudos-ambientais/21538-populacao-em-areas-de-risco-no-brasil.html
BRASIL. Ministério das Cidades. Déficit habitacional no Brasil recua pelo 2º ano consecutivo e atinge o menor patamar da história. Brasília, DF: Ministério das Cidades, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/cidades/pt-br/assuntos/noticias-1/noticia-mcid-n-2073

CONECTAS DIREITOS HUMANOS. O que o Censo 2022 revela sobre racismo ambiental? São Paulo: Conectas, 2024. Disponível em: https://conectas.org/noticias/o-que-o-censo-2022-revela-sobre-racismo-ambiental/

INSTITUTO PÓLIS. Racismo ambiental e injustiça climática. São Paulo: Instituto Pólis, 2025. Disponível em: https://polis.org.br/wp-content/uploads/2025/11/polis_racismo_ambiental_injustica_climatica_15_nov_dossie_lancamento.pdf

CONSTANTINO, Luciana. Defesas civis nos municípios enfrentam falta de verba, de pessoal e de estrutura, mostram pesquisas. Agência FAPESP, São Paulo, 28 fev. 2023. Disponível em: https://agencia.fapesp.br/defesas-civis-nos-municipios-enfrentam-falta-de-verba-de-pessoal-e-de-estrutura-mostram-pesquisas/40768

ACCIOLY, Dante. Brasil deixa de aplicar 35% da verba para gestão de riscos e desastres, aponta TCU. Agência Senado, Brasília, DF, 29 maio 2024. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/05/29/brasil-deixa-de-aplicar-35-da-verba-para-gestao-de-riscos-e-desastres-aponta-tcu

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