A Feira do Livro reflete bom momento das mulheres na literatura

Programação de um dos encontros literários mais concorridos do país reúne cerca de 30 escritoras
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Natalia Timerman investiga a perda de memória pelo Alzheimer. Adriana Negreiros narra a trajetória de uma das atrizes mais interessantes do país. Bianca Santana fabula o passado de sua avó. Carla Madeira é mestre em tragédias familiares. Giovana Madalosso imagina o que é viver sob a tensão de uma doença fatal. Estelle-Sarah Bulle desvenda as violências da colonização. Maria Brant situa seu drama durante a passagem do cometa Halley. Vera Iaconelli revela a vida dupla de seu pai. Pilar Quintana transforma uma temporada no paraíso num inferno particular.

Essa lista poderia seguir incluindo ainda Amelinha Telles, Alessandra Orofino, Ana Estaregui, Erika Palomino, Gabriela Biló, Gaía Passarelli e outras autoras que participam d’A Feira do Livro, evento que, pelo quinto ano consecutivo, ocupa a praça Charles Miller, em São Paulo, de 30 de maio a 7 de junho.

Um dos encontros literários mais concorridos do país, a feira terá mais de trinta escritoras na programação principal, refletindo o bom momento editorial para as mulheres no Brasil e no mundo. Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), já há alguns anos, elas são maioria entre as convidadas. Mesmo que ainda não tenha anunciado a lista completa de atrações, a curadora Rita Palmeira garante que a seleção final de 2026 reforça a tendência de festas anteriores.

As mulheres também são maioria na plateia destes e de outros convescotes literários, além de representarem mais de 50% das 93,4 milhões de pessoas que leem no país. Um número que não para de crescer: segundo um levantamento da Câmara Brasileira do Livro, dos 3 milhões de novos consumidores de livros em 2025, metade é formada por mulheres. Desse montante, 30% são pretas e pardas da classe C, o que as torna o maior grupo de novos consumidores.

O documento, divulgado em março passado, não inclui os títulos das obras adquiridas. Numa conversa com a escritora Cidinha da Silva, ela especula que podem ser livros de colorir – no topo do ranking de mais vendidos – ou publicações técnicas, expressão do acesso dessa fatia da população ao ensino médio e superior. Primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves é mais otimista, ao afirmar que mulheres negras são maioria entre suas leitoras.

Natalia Timerman posa diante de folhagens em retrato usado na reportagem sobre escritoras em destaque na Feira do Livro.
Natalia Timerman: investigação sobre Alzheimer (Foto: Renata Parada/Divulgação)

Outras histórias

Uma multiplicidade de boas histórias, narradas sob novas e diversas perspectivas, atende a esse contingente de leitoras, compondo uma cena cuja efervescência se manifesta na quantidade de lançamentos que ocorrem durante A Feira do Livro.

Das estrelas do cenário contemporâneo com novidades, Natalia Timerman apresenta seu aguardado terceiro romance, Antes que Apague (Cia. das Letras). Narrado por uma escritora e psiquiatra (como Natalia), o livro acompanha o declínio cognitivo da mãe da protagonista, causado pelo Alzheimer, num texto que entrelaça análises sobre escrita, literatura e  memória.

Responsável pelo best-seller Copo Vazio (Ed. Todavia), Natalia caiu no gosto da geração millenium em 2021, quando publicou a história de Mirela, arquiteta que amarga um ghosting (o famoso pé na bunda) sem explicações do namorado Pedro – drama adaptado para o teatro pela dramaturga Angela Ribeiro sob o mesmo título.

Outro nome em ascensão, a multipremiada Mariana Salomão Carrara estreia Cláudia Vera Feliz Natal (Ed. Todavia). Em seu sexto romance, a vencedora dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura traça a trajetória de um jovem magistrado que precisa prestar contas de sua lentidão em um caso sensível que o acompanha há meses. Aos seus superiores, o personagem dirige uma defesa-autobiografia, em que revisita os anos de ofício nas pequenas comarcas de Cláudia, Vera e Feliz Natal, no interior do Mato Grosso.

Na seara dos livros-reportagem, a jornalista Adriana Negreiros (Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço) fala sobre seu novíssimo Dercy – A Diva Debochada (Ed. Objetiva), que resgata a trajetória de Dercy Gonçalves. Nessa apuração, Adriana demonstra como o machismo marcou a carreira de Dercy, atriz taxada de imoral e pornográfica por confrontar o conservadorismo da sociedade, atuando até os 85 anos.

Uma das mais aguerridas fotojornalistas em atividade, Gabriela Biló celebra a chegada de Juízo final: Tentativa e Fracasso do Golpe no Brasil (Ed. Fósforo), em parceria com os jornalistas Cristiano Botafogo e Pedro Daltro (do podcast Medo e Delírio em Brasília) e o designer Pedro Inoue. A obra reúne mais de oitenta imagens, manchetes e interpretações visuais, que mostram a decadência política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Das veteranas, destaca-se a genial Maria Valéria Rezende, escritora, pedagoga, freira e comunista, que tratará do recém-lançado Recapitulações (Ed. 34). Partindo da produção literária de Machado de Assis, Kafka e Guy de Maupassant, Maria Valéria propõe novos desfechos para histórias conhecidas, questionando a ideia de originalidade.

Internacionais

O investimento do mercado editorial na autoria de mulheres tem garantido também a versão nacional de nomes incensados no Exterior, como a colombiana Pilar Quintana.

Conhecida por aqui pelo premiado A Cachorra (Ed. Intrínseca), Pilar vem à feira para falar sobre o recém-lançado Noite Negra (Cia. das Letras). Em seu terceiro romance, ela retoma o universo narrativo de A Cachorra, uma vila de pescadores no Pacífico colombiano, onde a publicitária Rosa busca refúgio, após abandonar o ofício numa agência em Cáli, principal centro urbano e econômico do sudoeste do país, a fim de realizar o sonho de morar no mato com o companheiro, o carpinteiro irlandês Gene.

Inspirada por sua própria vivência na região, Pilar constrói um thriller no qual a protagonista tem de lidar com a selva ao redor e o comportamento dos homens que a cercam, após uma viagem do marido. Uma das expoentes da literatura latino-americana, a colombiana é responsável pela coleção Biblioteca de Escritoras Colombianas (BEC), projeto realizado por instituições como a Biblioteca Nacional da Colômbia e Ministério das Culturas, das Artes e dos Saberes, com 18 títulos de autoras nascidas desde o período colonial à primeira metade do século 20.

A escritora colombiana Pilar Quintana posa próxima a embarcações em imagem sobre autoras internacionais presentes na Feira do Livro.
A colombiana Pilar Quintana é atração do evento em SP (Foto: Eva Marie Uzcategui/AFP)

Também da América do Sul, a argentina Paula Sibilia participa da feira com Eu Mereço! Da Velha Hipocrisia aos Novos Cinismos (Ed. Ubu). No estudo, a pesquisadora investiga o que considera ser uma contradição central da contemporaneidade: como uma cultura que incentiva o prazer, a liberdade e a autorrealização convive com níveis crescentes de sofrimento psíquico e desagregação social.

A programação oficial traz, ainda, o olhar decolonial da francesa Estelle-Sarah Bulle para a terra natal de seu pai, Guadalupe, no romance Onde o Vento Faz a Curva (Ed. 34). Em seu primeiro livro publicado no Brasil, a jornalista e escritora parte de experiências pessoais para descrever as consequências da colonização da França no Caribe, por meio da história de uma família birracial que migra do vilarejo guadalupense Morne-Galant para Paris, em meados dos anos 1960.

Nesse cruzo de interpretações, há também a interessante visão da estadunidense Tracy Mann para a cultura nacional em O Mundo Todo é Bahia – Memórias do Brasil (Ed. Laranja Original). A partir de uma visita realizada nos anos 1970, a escritora navega da elite paulistana aos bastidores de noitadas no Rio e na Bahia, celebrando o panorama das artes brasileiras do mainstream ao underground.

Não faltam, enfim, motivos para ler essas e outras mulheres.

Em tempo: estarei na feira em 5 de junho, às 14h30, conversando com Estelle-Sarah Bulle e a brasileira Bianca Santana. Dá para consultar a programação completa aqui.

Até lá!

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