O cara que é a ‘cara’ do Centrão

Desmascarado, Ciro Nogueira precisa provar que atos suspeitos são apenas pragmatismo político
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“Tic-tac-tic-tac”, costumava escrever em seus perfis nas redes sociais Ciro Nogueira, então ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, em 2022, quando queria antecipar alguma operação policial que deixaria alguém da esquerda desconfortável ou antes da divulgação de números de pesquisas pré-eleitorais que mostrariam o chefe dele se aproximando do adversário Luiz Inácio Lula da Silva. Era um provocador, irônico e despreocupadamente cínico.

Foi dessa forma – provocador, irônico e cínico – que o senador em fim de mandato pelo Piauí construiu a reputação de político hábil e o conceito de articulador amplo. A reputação não correspondia aos atos e nem aos fatos. Nunca foi hábil. Sempre foi um pragmático. O dínamo que move tanto pragmatismo está assentado nos mecanismos financeiros que conectam a ação política com a construção de teias empresariais. Ciro Nogueira assumiu o primeiro mandato em Brasília, aos 26 anos de idade, e sua família não era conhecida no Piauí pelo patrimônio que detinha, mas, sim, pela fama de adesismo aos restos da ditadura militar ainda operantes num dos estados brasileiros mais espoliados pelo coronelismo político.

Já o conceito de articulador amplo é verdadeiro e foi erguido à sombra da ascensão e do empoderamento do Centrão – essa geleia partidária, que faz Brasília tremer em razão de sua malemolência ideológica e total descompromisso com o resgate do país das diferenças sociais abissais que dividem os brasileiros.

Ciro Nogueira Lima Filho, 57 anos, há 31 despachando no Congresso Nacional, homem a quem Jair Bolsonaro entregou as chaves do Palácio do Planalto, em setembro de 2021 (junto com as senhas dos cofres do erário), converteu-se na cara do Centrão. Mas, na semana passada, o “tic-tac-tic-tac” onomatopeico do relógio imaginário que funcionaria na cabeça dos adversários dele se converteu num “toc-toc-toc” da Polícia Federal na porta da casa desse cara, no Lago Sul, desmascarando-o de vez.

De pronto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que o tinha em alta conta para ser vice-presidente em sua pretensa chapa eleitoral deste ano, começou a descartá-lo como “amigo”, como “próximo” e até como “aliado”. Ciro Nogueira virou sujeito oculto numa frase vazia de condolências políticas postada nas redes pelo senador de extrema direita.

Valle de Los Caídos

Ciro cresceu em Brasília, e não no Piauí, estado pelo qual se elegeu quatro vezes deputado federal e duas vezes senador. O pai e o avô eram políticos ligados a duas ditaduras. O avô foi prefeito de Pedro II, segunda maior cidade piauiense, nomeado por Getúlio Vargas durante a ditadura do Estado Novo. O pai foi deputado federal nos estertores da ditadura militar e sempre perfilou ao lado dos viúvos dos ditadores.

Tendo chegado ao Congresso em 1995 com um diploma de Direito nas mãos e nenhuma ideia de como exercer a advocacia na cabeça, acomodou-se nas franjas do baixo clero parlamentar e passou a sentar no fundo do plenário da Câmara. Não conheceu Ulysses Guimarães, morto em 1992 num acidente aéreo. Se tivesse conhecido, certamente, não teria escolhido aquele lugar para sentar. Doutor Ulysses chamava o fundão do plenário da Câmara de “Valle de Los Caídos”, assim mesmo, em castelhano.

O “Senhor Diretas”, o “Tripresidente”, o paladino da Constituição de 1988 – como Ulysses tornou-se conhecido – dizia que o local escolhido por Ciro Nogueira no plenário era onde se reunia uma horda de deputados desimportantes, sem futuro ou com passado parlamentar tíbio. Sendo assim, quem estivesse ali não ascenderia na Cúria do Congresso Nacional brasileiro.

A trajetória do político piauiense, contudo, contrariou as previsões e visão experiente de Ulysses. Os dois primeiros mandatos de Nogueira foram de fato medianos. Em 2000, tentou virar prefeito de Teresina e não chegou sequer ao segundo turno. Em 2002, mudou de partido (trocou o PFL pelo PP) e de foco.

Reeleito para um terceiro mandato de deputado, assumiu, em 2003, a Quarta Secretaria da Mesa da Câmara. O cargo é burocrático e com poucos afazeres. Porém, naqueles tempos, o gabinete destinado ao 4º Secretário da Câmara se localizava numa ampla sala do térreo do edifício-sede do Congresso, a meio caminho entre a Chapelaria (por onde a maioria das pessoas entrava no prédio) e o plenário de votações da Casa (onde todos queriam estar nos momentos decisivos).

Estrategicamente instalado num local por onde todos passavam, o então Ciro Nogueira instituiu em sua sala uma antológica e convidativa rotina de lanches oferecidos a qualquer um que desejasse sentar na imensa mesa de reuniões, onde se servia um “Chá das 5” com rigor londrino – de terça a quinta-feira, sempre às 17h – e cardápio tropical: frutas frescas, sucos, café bem feito, biscoitos caseiros e até mesmo chá.

Colegas deputados, alguns senadores, vários jornalistas, muitos lobistas do grupo que vivia pelos salões verde e azul do Congresso e assessores parlamentares de todos os ministérios do primeiro governo do presidente Lula marcavam presença contumaz. Era uma festa. Falava-se de tudo. O anfitrião, comandante da Quarta Secretaria, por conseguinte, foi firmando a imagem de simpatia e amplitude de relacionamentos. Ouvia a todos, conversava com qualquer um e ganhava fama de grande articulador.

Rei do Baixo Clero

Em fevereiro de 2005, a fama produziu a primeira grande surpresa para o país, saída de dentro do Parlamento, sob a égide daquele jovem líder do “Valle de Los Caídos”: Ciro Nogueira Lima Filho foi o ideólogo da candidatura do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) à Presidência da Câmara. Se o grupo de mandarins do Congresso era comparado à Cúria Romana por Ulysses Guimarães, Severino era o antipapa plantado naquele meio.

Simplório, saído do pequeníssimo município de João Alfredo, no Agreste pernambucano, Severino Cavalcanti mal sabia se expressar. Bonachão, inculto e ávido por cargos públicos que lhe rendessem pedágios por parte de quem indicasse para ocupá-los, foi o títere perfeito para o audacioso Ciro Nogueira, que era quem comandava o gabinete do presidente da Câmara na fugaz gestão de Cavalcanti.

Severino Cavalcanti fala durante entrevista em imagem usada para relembrar a ascensão do baixo clero no Congresso Nacional.
Ciro articulou eleição de Severino Cavalcanti para a Presidência da Câmara (Foto: J. Freitas/Agência Câmara)

O mandato de Severino Cavalcanti, teleguiado por Nogueira, durou escassos cinco meses. Ele se viu obrigado a renunciar ao cargo de presidente da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados porque foi flagrado pedindo comissões mensais de R$ 25 mil ao dono de uma cantina de Brasília, que havia vencido uma licitação para operar o restaurante do 10º andar do Anexo 4 da Câmara – o maior e mais frequentado de todo o Congresso. O antipapa pernambucano renunciou à Presidência da Mesa Diretora e ao mandato, voltou para João Alfredo e nunca mais se reconstituiu politicamente. Morreu só, abandonado pela turma do Centrão que o elegera como bandeira anti-PT, em 2005, por aqueles breves cinco meses.

Ciro Nogueira, contudo, depois de limar Severino de sua trajetória política, fortaleceu-se em Brasília na consolidação do amplo diapasão de relacionamentos. Ele tinha inventado a candidatura do antipapa, o “Rei do Baixo Clero”, e foi também ele quem convenceu Severino a renunciar.

Aproximação com o PT

Em 2010, ao olhar o cenário piauiense, Ciro constatou que o então governador petista Welington Dias deixaria o cargo para tentar uma primeira eleição para o Senado na condição de favoritíssimo a uma das vagas em disputa. Não teve dúvidas de aproximar o seu pragmatismo do favoritismo de Dias. Fecharam uma aliança e o objetivo era derrotar o então senador Heráclito Fortes, personalidade histórica do hoje extinto Partido da Frente Liberal, que perfilava no Senado como um adversário figadal do PT. Aliados, Nogueira e Dias se elegeram senadores naquele ano. Enfim, por causa da aliança com o PT, Ciro Nogueira conquistou o primeiro mandato majoritário e pôde sonhar mais alto na burocracia de seu partido, o PP.

A denúncia do “escândalo do mensalão”, que começou a ser julgada em 2011 como Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal, destroçou a antiga cúpula do PP. O presidente da sigla, Pedro Correa Neto, e o poderoso líder na Câmara dos Deputados, José Janene, foram condenados à prisão e perderam seus mandatos. Francisco Dornelles, político sênior, senador pelo Rio de Janeiro, era vice-presidente do PP e assumiu a direção partidária sem ter braços ou discernimento para operações do dia a dia. Entregou os afazeres da dinâmica do PP a Ciro Nogueira, que logo se converteu no grande articulador da legenda. Em 2013, Dornelles entregou de vez o comando do PP a Nogueira, que se destacava como um fiel aliado da então presidente Dilma Rousseff (PT) no Senado.

Mais uma vez, a escolha por jogar na zaga governista durante o mandato da primeira mulher a ocupar a Presidência da República na história era mero pragmatismo. Na mesa de jogo operacional de poder, Dilma entregou ao PP comandado por Ciro Nogueira os ministérios das Cidades e da Integração Nacional, além de poderosos espaços no Ministério da Agricultura. No curto segundo mandato, em troca de apoio mais consistente no Congresso, a ex-presidente deu a chave do Ministério da Agricultura inteiro ao PP.

Decisões cruciais de governo como planos-safra, gestão do Departamento Nacional de Rodagens e do Denatram – Departamento Nacional de Trânsito – e, por algum tempo, as obras de transposição do Rio São Francisco eram tomadas no gabinete parlamentar de Ciro Nogueira no Senado. Na Esplanada dos Ministérios todos sabiam disso e o Partido dos Trabalhadores entendia aquela dinâmica como necessária à governabilidade. Ciro Nogueira, porém, queria mais.

Em abril de 2016, ainda que coreografasse seus atos em silêncio nos porões de Brasília com medo de ser flagrado traindo, três dias antes de Eduardo Cunha (MDB-RJ), à época presidente da Câmara, colocar em votação no plenário da Casa a autorização para abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff, o PP rompeu com o governo petista. O artífice do rompimento foi Ciro Nogueira, claro.

Afinal, ele havia negociado com Michel Temer, o vice de Dilma que se dizia “decorativo” no Palácio do Planalto petista, a ampliação dos espaços de seu partido na Esplanada. Temer conservou as ocupações de sesmarias do PP e ainda entregou à sigla o Ministério da Saúde. O orçamento da Saúde é terceiro maior do Brasil, ficando atrás, apenas do Orçamento da União e do Orçamento do estado de São Paulo. Nogueira indicou para o ministério o deputado paranaense Ricardo Barros e cuidou de administrar de perto o fluxo de caixa do Ministério da Saúde.

Em 2018, sem votos próprios no Piauí e precisando renovar a senatoria, Nogueira se reaproximou de Welington Dias, novamente governador do estado, e fez juras de amor de fidelidade a Lula. O traidor federal do PT reelegeu-se senador em razão da reaproximação com o PT do Piauí. Em 2018, pediu votos para Fernando Haddad à Presidência da República. Não tinha grande aproximação com Jair Bolsonaro nos tempos em que foram deputados juntos – ao longo de quatro mandatos. Não conhecia os filhos de Bolsonaro. O que precisava era de votos que lhe dessem mais um mandato de senador para seguir como poderoso presidente de uma das siglas mais operantes do famigerado Centrão em Brasília. Conseguiu.

Convocação de Bolsonaro

No início do governo Jair Bolsonaro, não o tendo apoiado na campanha, Ciro Nogueira conservou distância prudente daquela turma que passava patrola e limpa trilhos nos cargos da Esplanada. O PP preservou alguns postos de comando orçamentário, mas esperou ser chamado a conversar. Essa, afinal, é mais uma das regras não escritas do nogueirismo: nunca diga de graça o que você pode fazer por um governo; espere ser convocado para dizê-lo (e ponha seu preço para ofertar as soluções).

Ciro Nogueira abraça Jair Bolsonaro em registro citado em reportagem sobre alianças políticas e poder do Centrão no governo federal.
Ciro Nogueira e Jair Bolsonaro (Foto: Isac Nóbrega/Pr)

Em meados de julho de 2021, curtindo férias em Cancún, no México, com empresários do setor financeiro e com um operador do sistema de gravames de veículos automotores (área de negócios que acompanha com bastante interesse há muitos anos) e suas respectivas namoradas, Ciro Nogueira recebeu um telefonema urgente do Palácio do Planalto. Era Jair Bolsonaro, que vinha já numa escalada golpista, havia trocado o Ministro da Defesa e os três comandantes militares no fim de março, estava às turras com o Supremo Tribunal Federal e não tinha construído uma boa relação com o Centrão no Congresso.

Bolsonaro o convidou para assumir o Ministério da Casa Civil. O senador não aceitou de pronto. Colocou em prática a regra não escrita de apresentar preço e condições ao ser convocado. Pediu a chave do cofre do Orçamento da União, poder total para liberar ou glosar pagamento de emendas parlamentares e primazia no relacionamento com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de quem já era sócio em muitas práticas políticas e noitadas brasilienses, e Davi Alcolumbre (União-AP), ora em sua primeira passagem na Presidência do Senado. Bolsonaro topou, não sem antes ter certeza de que teria o mandato garantido até o fim sem riscos de cassação por associações do Congresso com o STF. Ciro Nogueira garantiu. E entregou.

Amigo da vida

A escalada de Nogueira aos píncaros da glória do poder em Brasília coincidiu com o pico de agonia negocial de Daniel Vorcaro e Augusto Lima, a dupla de desconhecidos operadores do mercado financeiro que tinha posto o portfólio do Banco Master debaixo do braço e partira para nacionalizá-lo a partir de favores federais em Brasília. Festeiro como o ministro da Casa Civil, pouco leal às relações formais de fidelidade a casamentos ou relações estáveis, admiradores comuns da arte da sedução (inclusive de mulheres, mas não só), Vorcaro rapidamente se converteu num “amigo da vida” de Ciro Nogueira. Quem os apresentou foi João Roma, ministro da Cidadania dos tempos de Bolsonaro. Pernambucano radicado na Bahia, Roma era dileto amigo de Augusto Lima – que também era amante das feéricas noitadas que tanto aproximavam Vorcaro e Ciro Nogueira, estivessem onde estivessem.

Quando a fome de Daniel Vorcaro por recursos públicos e clientes egressos dos holerites oficiais que alavancassem suas posições no mercado financeiro aliou-se à vontade de comer presente nas mais abastadas rodas da República de Ciro Nogueira, deu-se o match fatal entre eles. O ousado banqueiro mineiro encontrou no pragmático senador (eventualmente, Coringa do bolsonarismo) piauiense sua cara-metade para as estripulias despudoradamente sem cautelas que passaram a cometer em Brasília.

Derrotado nas urnas por Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro deixou o Palácio do Planalto e Nogueira teve de entregar a chave dos cofres à turma do PT. Imaginava poder passar uma borracha nas traições do passado e curtir quatro anos de mandato nas asas de caronas aéreas de empresários amigos e em viagens oficiais promovidas pela Comissão de Relações Exteriores do Senado. Deu tudo errado.

Tic-tac-tic-tac: o relógio do tempo, implacável, seguiu com a corda toda nos meandros do poder e dos órgãos de investigação na capital da República. As traições do passado estavam gravadas em mensagens de Whatsapp, troca de telefonemas, recibos de pagamentos bancários e proposições parlamentares redigidas nos escritórios do Master e apresentadas no Senado como se de Ciro Nogueira fossem. Desmascarado, o cara que era a cara do Centrão foi convocado pelos bons hábitos correcionais da República a apresentar sua defesa a uma miríade de acusações que enxovalham o Parlamento. Se tiver vergonha na cara e alguma boa ideia na cabeça, Nogueira fá-lo-á.

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