Os voos dos ‘desaparecidos’

Levantamento inédito revela agenda de deportação em massa sem precedentes nos EUA
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Para onde vão os desaparecidos?

Procure na água e nos arbustos.

E por que desaparecem?

Porque não somos todos iguais.

E quando os desaparecidos retornam?

Toda vez que o pensamento os traz de volta.

Como se fala com os desaparecidos?

Com a emoção transbordando de dentro.

Ruben Blades, em sua canção de 1983, falou sobre algo que ninguém se atrevia a mencionar: os desaparecimentos cometidos pelas ditaduras latino-americanas.

Mais de 40 anos depois, o fenômeno volta a assombrar milhares de latino-americanos. Mas num roteiro inesperado e por meio de uma operação sem precedentes nos EUA contra imigrantes.

Desde o início do governo de Donald Trump, estrangeiros e seus parentes vêm alertando que os imigrantes estão “desaparecendo”. De ruas, locais de trabalho, escolas ou igrejas, eles são detidos e conduzidos para locais distantes de suas famílias ou advogados.

Os relatos apontam que muitos ficam dias sem saber para onde seus pais, irmãos ou amigos foram levados.

A administração criou uma verdadeira infraestrutura para lidar com esse fluxo inédito de “estrangeiros indesejados”, injetando bilhões de dólares para o que está sendo chamado de “a maior deportação da história”. Isso inclui centros de detenção espalhados pelo país, recrutamento de agentes do ICE – a polícia de imigração – e tecnologia de monitoramento.

Mas um levantamento obtido pela Revista Liberta constata que, desde a sua posse, o republicano organizou também mais de 19 mil voos com imigrantes. Os dados foram coletados pela ICE Flight Monitor, uma entidade criada pela sociedade civil para fiscalizar as operações da agência de imigração de Trump.

De acordo com o levantamento, 13,9 mil voos com estrangeiros foram realizados nos EUA em 2025, quase o dobro do que se registrou em 2024. Apenas entre janeiro e março, mais 5,3 mil aviões decolaram com essas pessoas.

Desse total, 2,8 mil voos tiveram como destino países estrangeiros, em uma viagem apenas de ida para os imigrantes deportados.

Os demais dos voos são internos nos EUA. Milhares de estrangeiros, de fato, estão sendo deslocados das cidades de onde foram presos para centros de detenção em outros estados, distantes milhares de quilômetros de suas vidas e sem rede de apoio.

Ações cruéis e ilegais

Isso não ocorre por acaso. Relatos de advogados de vítimas apontam que, ao abalar a base dessas pessoas, o Estado consegue fragilizar ainda mais os estrangeiros e pressionar muitos a simplesmente abandonar, de forma voluntária, qualquer processo legal.

“Desde que assumiu o cargo, em 20 de janeiro de 2025, o governo Trump tem perseguido uma agenda de deportação em massa sem precedentes”, alertou a entidade que fez o levantamento.

“Autoridades americanas adotaram uma série de novas táticas, legalmente questionáveis ​​e inegavelmente cruéis, para atingir esse objetivo, incluindo a expansão do uso de remoção expedita, o envio de pessoas dos Estados Unidos para centros de detenção offshore na Base Naval dos EUA, em Guantánamo, o término de status legais protegidos, o desaparecimento de pessoas sem o devido processo legal – inclusive para uma prisão de alta segurança em El Salvador notória por tortura –, o aumento da fiscalização interna e a transferência forçada de indivíduos para outros países dos quais não são cidadãos”, disse.

Segundo os especialistas, muitas dessas ações foram consideradas ilegais por tribunais federais e realizadas com pouca ou nenhuma transparência, enquanto milhares de vidas são desenraizadas de comunidades em todo o país, famílias são separadas e seus direitos são sistematicamente violados.

O objetivo do ICE Flight Monitor, portanto, é o de responder a essa ilegalidade e à falta de informação utilizando dados de aviação disponíveis publicamente para monitorar e documentar voos realizados pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), incluindo voos de deportação e transferências domésticas entre centros de detenção e instalações de triagem de deportação nos EUA.

Para garantir a precisão e a integridade das descobertas, o ICE Flight Monitor cruza dados de voos com registros públicos, reportagens da mídia, comunicações com advogados e familiares, além de observações de organizações parceiras confiáveis. O projeto também rastreia outras operações aéreas relevantes – como aviões militares envolvidos na aplicação das leis de imigração e voos de deportação dos governos da Costa Rica, México e Panamá.

O que o levantamento tem constatado, porém, é que a ofensiva contra os estrangeiros tem aumentado.

Em março, por exemplo, a entidade registrou 225 voos de deportação para 46 países como parte da crescente campanha de deportação em massa do governo Trump. Isso representa um aumento de 23% em relação aos 183 voos de fevereiro e de 48% nos destinos de deportação em relação ao mês anterior.

Março ainda registrou voos de deportação inéditos para Moldávia, Mianmar e Tailândia, bem como a retomada dos voos de deportação para Tadjiquistão, Belize, Togo e Trinidad e Tobago. Guatemala e Honduras continuam sendo os principais países de destino, representando 41% dos registros.

Um número recorde de voos de fiscalização imigratória também foi constatado. O total chegou a 1.794 em março, um aumento de 122% em relação ao ano passado. Esse aumento incluiu 225 voos de deportação e 1.225 voos de redistribuição, apoiados por uma rede crescente de Operações Aéreas do ICE.

Os voos relacionados à remoção aumentaram, com as paradas para reabastecimento saltando 46% em relação ao mês passado, utilizando destinos internacionais como Curaçao, Senegal, Irlanda e Bulgária para facilitar a agenda de deportação em massa de Trump.

O que também se constata é que o governo expandiu as transferências forçadas de indivíduos para países onde não são cidadãos, com voos inéditos para Moldávia e Uganda, e voos contínuos para Eswatini, Polônia e Uzbequistão.

Ao mesmo tempo, o governo continua enviando não equatorianos para o Equador e não hondurenhos para Honduras.

Detentos aparecem ajoelhados em prisão de segurança máxima em El Salvador usada no sistema de deportação ligado aos EUA.
Destino de imigrantes: prisão de segurança máxima em El Salvador (Foto: AFP)

ICE Air

Para permitir que essa movimentação de pessoas ocorra, passou a existir até mesmo a ICE Air. Numa das operações de remoção, um avião partiu de Phoenix, Arizona, reabasteceu em Chitose, Japão, antes de pousar primeiro em Yangon, Mianmar, e depois em Bangkok, na Tailândia.

Em março de 2026, foram documentados ainda cinco voos da ICE Air com escala em Guantánamo. Em 5 de março, um avião deixou a Louisiana, fez escala em Guantánamo e, posteriormente, realizou uma deportação para o Haiti.

De fato, a maioria dos voos de deportação continua sendo para a América Latina e o Caribe. Em março de 2026, 86% deles tinham como destino essas regiões. Os mais frequentes naquele mês foram para Guatemala (49), Honduras (43), México (25), El Salvador (15) e Venezuela (11).

Em março, autoridades dos EUA realizaram ainda quatro voos de deportação para o Brasil – o mesmo número de fevereiro, mas o dobro do número de voos em março de 2025. Os voos de deportação para território brasileiro têm ocorrido em um ritmo de uma vez por semana desde agosto de 2025 – geralmente às quartas e sextas-feiras – e envolvem rotas com paradas em vários países, incluindo a Colômbia, antes do pouso no Brasil.

“Essas rotas resultam em voos mais longos, durante os quais os indivíduos permanecem fisicamente contidos durante toda a viagem”, alertou o monitoramento.

Nada indica, porém, que o ritmo de deportações vai perder força. Em média, 73 mil pessoas estão sob custódia do ICE diariamente, a maior população carcerária da história dos EUA.

O destino deles? Se depender da estratégia nacionalista e supremacista de Trump, desaparecerão da sociedade norte-americana.

Porque, como diria Blades, não somos todos iguais.

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