Embora o assunto possa parecer atrasado, é preciso, “antes tarde do que nunca”, escrever sobre um evento ocorrido no dia 8 de março de 2026 por se tratar de um momento que não pode ser esquecido e precisa ser elaborado com profundidade.
Não, não é sobre o 8 de março, quando as mulheres foram às ruas para lutar por seus direitos, exigindo a criminalização da misoginia, a legalização do aborto, a proteção contra feminicídios e mais e melhores escolas onde educar crianças e jovens para a democracia e o direito à vida no planeta Terra.
Não, não é sobre isso, embora pudesse ser, pois as mulheres estavam, justamente, num dia especial de luta e, ao mesmo tempo, era apenas mais um dia da luta diária por sua sobrevivência, pela sobrevivência de seus filhos e suas filhas, dos seus filhos sem escolas, dos seus filhos negros na mira das armas da polícia, dos seus filhos com ou sem deficiências sempre precisando de cuidado e apoio, dos seus pais e mães idosos, cujas aposentadorias vêm sendo sequestradas pelo sistema plutocrata com seus ladrões fazedores de leis autorizando a si mesmos a cometer crimes.
Luta livre
Pois é, no dia 8 de março, as mulheres estavam fazendo o que sempre fazem: lutar.
Enquanto isso, no mesmo dia 8 de março, acontecia a final do campeonato mineiro entre os dois grandes times de Minas Gerais, Cruzeiro e Atlético. O que poderia ser apenas mais um jogo num dia qualquer na vida dos atletas em busca da vitória para seu time se transformou numa guerra. Uma verdadeira batalha campal (segundo definição de um jornal argentino) começou no finalzinho do segundo tempo, quando o Cruzeiro vencia por um a zero e conquistava o título.
O resultado desse espetáculo de covardia generalizada foram 23 jogadores expulsos, ou seja, mais do que os 22 que, efetivamente, estavam jogando em campo. Na verdade, a briga moveu todo mundo numa espécie de frenesi insano, impossível de descrever a olho nu.
Tudo começou quando o jogador Christian, do Cruzeiro, cometeu uma falta no goleiro atleticano Everson, que teve uma reação de raiva desmedida contra Christian. A gente até entende a raiva, mas não a incapacidade de lidar com ela. Everson empurrou Christian e sentou com os joelhos em cima dele. Na hora, a cena pareceu um exagero. Parecia que Everson havia treinado para uma luta livre e não para a defesa de uma goleira. Trata-se de não deixar um objeto voador com menos de cinco quilos e uns 70 centímetros de circunferência passar por um espaço de 7,32 metros de largura por 2,44 metros de altura. Tudo o que o goleiro tem que fazer é impedir que aquela coisa redonda atravesse o limite e atinja a parte interna das traves até a parte inferior do travessão.
Mas o goleiro ficou histérico, porque o atacante (ou seja lá qual for a posição do jogador Christian) chegou desajeitado, mas fazendo o que se faz num jogo de futebol, que é sempre duro e pesado do ponto de vista físico. Christian não foi legal. Mas jogos têm momentos assim. Os jogadores têm que estar preparados para não levar a violência inerente ao jogo para o lado pessoal e, para isso, devem agir racionalmente. Porém, a histeria coletiva bateu e provocou efeitos inacreditáveis.
Quando o limite da goleira é ultrapassado pela bola – como aconteceu naquele jogo, no pé de Kaio Jorge – acontece o que se chama de “gol” (a ironia é necessária nessa narrativa diante dos atos de ignorância sobre regras do futebol – e da vida social –, como se viu). O gol é uma certa ultrapassagem do limite que provoca a festa geral. Ou seja, estamos brincando com limites. Já o goleiro Everson – e seus colegas cruzeirenses e atleticanos – ultrapassaram os limites do decoro esportivo e da própria lei e acabaram com a brincadeira que, tanto quanto a violência, é inerente ao futebol.
Goleiro insandecido
Os jogadores agiram irracionalmente como tresloucados. As punições foram diversas, de multas para os times e suspensões para os jogadores até indiciamentos por crime de rixa. O time se transformou em turba, deixando crianças e adultos com vergonha do que aconteceu. Contudo, os jogadores não parecem até hoje muito dispostos a fazer um mea culpa. Talvez porque estejam muito esvaziados de si mesmos para análises e autoanálises sobre atitudes éticas que seriam necessárias.
Quem se dispuser a assistir à batalha campal, verá os jogadores do Cruzeiro vindo defender o colega, que estava no chão, com o goleiro ensandecido em cima dele. Verá Lucas Romero dando uma voadora em Everson. Verá Matheus Henrique dando uma pancada em alguém. Lyanco batendo e levando socos e pontapés como todo mundo. Verá Hulk completamente fora de si. Verá que não havia seguranças suficientes para segurar a turba alucinada. Verá que é dificílimo narrar o que aconteceu ali, o que os 23 expulsos fizeram, considerando que a confusão foi generalizada. Talvez sinta necessidade de ver várias vezes para catalogar minimamente os atos da cena que amantes do futebol e jornalistas em geral classificaram como vergonhosa e ridícula.
Quem assistir à cena verá um espetáculo de covardia, com diversos jogadores atacando com socos por trás seus adversários, na ocasião, transformados em inimigos. Verá uns desafiando os outros com palavras chulas, que representam o todo do discurso dos jogadores em cena. No clima geral de covardia e insanidade, até o massagista do Galo – que corre entre os lobos, meio apatetado e gritando com as mãos na cabeça “que loucura é essa; não faz isso não” – termina sua frase com um pontapé em alguém caído no chão, como se bater no outro fosse natural e desejável no contexto. É praticamente um pontapé por oportunidade. É também o princípio do linchamento, quando se espanca alguém contando com a irresponsabilidade do que se faz.
Pois a rixa virou uma espécie de linchamento coletivo. Quem estivesse pela frente levava a parte de violência a ser partilhada sem limite e sem necessidade nenhuma.

Um resumo daquele 8 de março deixa claro uma questão de gênero. Enquanto as mulheres lutavam por direitos e pela própria sobrevivência, os homens faziam guerra apenas porque é assim que costumam resolver as coisas quando a barbárie se instaura ou por que a violência se tornou realmente recreativa.
Talvez não seja possível para os jogadores elaborar o que aconteceu no afundamento na barbárie produzida pelos homens no mundo atual. Mas uma lição precisa ser tirada dessa cena. O espetáculo é metonímico – da parte que vale pelo todo – da violência liberada que vem sendo naturalizada no mundo dos homens, a qual é produzida e reproduzida por eles contra tudo e todos, contra mulheres e crianças e contra eles mesmos.
Vendo e revendo o papelão coletivo, me perguntei qual a diferença entre a violência perpetrada por Donald Trump com as armas que tem à mão e a irracionalidade desses jogadores? A diferença pode ser o efeito, mas a causa é a mesma: a violência como valor no mundo masculino e, mais do que isso, como modelo de subjetivação. Homens incapazes de refletir sobre si mesmos atuam como loucos e destroem o que veem pela frente. Sejam políticos, sejam jogadores, sejam maridos dentro de casa, todos atuam com o mesmo princípio. Homens com tal mentalidade podem assumir posições que exigem responsabilidades?
Fica a dica da reflexão sobre a diferença entre lutar pela vida e fazer guerra contra ela como uma questão de gênero.