A Copa do Mundo de 2026 tende a se converter nas exéquias do futebol com a dupla Donald Trump, autocrata norte-americano, e Gianni Infantino, suíço-italiano que dirige a Fifa, executando um Réquiem em desafino. Dos 104 jogos da competição, 78 ocorrerão em estádios localizados nos EUA, inclusive a final em Nova York, em 19 de julho.
Somente na Argentina de 1978, sob a ditadura sanguinária do general Jorge Rafael Videla, ou na Itália que sobrevivia subjugada pelo fascismo e sua escalada de violência em 1934, a competição foi realizada em locais onde a sociedade vivia em transe face a conflitos ensaiados por criaturas demoníacas que detinham o poder e retinham-no à força.
Trump não tem nenhum apreço pelo ludopédio. O esporte bretão, quando assim o querem jogadores como Pelé, Garrincha, Didi, Maradona, Messi, Zico, Ronaldinho Gaúcho, Zidane, Puskás, Platini, Eusébio, Cristiano Ronaldo, Vinícius Jr, Lamine Yamal, M’bapé… é pura arte.
Ritmo de poesia
Depois de assistir à final Brasil 4, Itália 1, no Estádio Azteca, no México, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (foto acima) revogou os protestos nacionalistas pela derrota da Azzurra e decretou, numa crônica antológica, que os brasileiros com a seleção de quatro camisas 10 – Pelé, Rivelino, Gérson e Jairzinho – jogava em ritmo de poesia e não poderiam ser vencidos por uma Itália enquadrada na prosa.
A poesia dos brasileiros, discorreu o genial Pasolini, emanava da improvisação, do drible, da fantasia e da beleza do jogo em equipe refinadamente sintonizado. Em contraste, os italianos entraram em campo rigidamente esquematizados para fazerem uma partida racional, esquemática, retrancada, como uma prosa correta, porém, incapaz de incendiar as almas.
De onde se extrairá capacidade intelectual, refinamento estético ou até mesmo sabedoria empírica de um ser repulsivo como Donald John Trump para que ele enxergue arte onde as mentes mais obtusas só veem disputa pela bola e pragmatismo estéril? Nem mesmo Gianni Infantino, personagem forjada dentro da burocracia corrupta e corruptora da Federação Internacional de Futebol Associado, tem a mente aberta em tal diapasão.
De resto, só mesmo um pragmático em modo de cretinice patológica manteria os Estados Unidos de Trump como co-organizadores de uma Copa do Mundo depois das agressões a Venezuela, Irã, Colômbia e Cuba e os insultos a Brasil, França, China e Espanha.
Após os bombardeios americanos ao Irã, em consórcio com o exército israelense, a mudança de endereço – para outro país – dos 78 jogos em estádios dos EUA era mandatória. Ainda assim, seria medida insuficiente para demonstrar a repulsa do mundo democrático ao autocrata em fúria senil que é Trump. Estados Unidos e Israel têm de ser banidos do Comitê Olímpico Internacional e da Fifa, como a Rússia, merecidamente, o foi na esteira imediata das agressões à Ucrânia, em 2022.

Cretino patológico
Como não abriu o flanco um milímetro sequer para admitir a possibilidade de endossar a estultice proposta pelos americanos – excluir o Irã, legitimamente classificados para a competição, sem sequer passar por repescagens nas Eliminatórias, e oferecer a vaga hipotética e ilegítima à fraturada Itália, que há 16 anos não consegue marcar presença em Copas –, Gianni Infantino provou que é cretino. Contudo, não é do tipo “cretino patológico”. Ele comete suas cretinices e fraquezas de caráter por livre e espontânea vontade, e não por parvoíce.
Vem desse defeito de caráter a manutenção dos jogos dos iranianos, ao menos na fase de grupos, em Los Angeles e em Seattle. A sociedade norte-americana está conflagrada, à beira de uma guerra civil e se disseminou o ódio contra determinadas etnias e religiões.
Pipocam por todo o país agressões contra negros e latino-americanos em geral; contra muçulmanos e contra algumas das religiões hinduístas, como os sikhs; contra iranianos e chineses, em particular; contra egressos de nações democráticas governadas por líderes humanistas – tenham ou não viés de esquerda. O risco de uma tragédia humanitária na Copa de 2026 não é baixo e nem sutil. Ele grita em nossas faces como na Olimpíada de Munique, em 1972 (ali, os atletas israelenses estavam no lugar onde agora a ideologia genocida e abjeta de Benjamin Netanyahu coloca a Palestina e o Líbano).
Caso os piores temores que se pode ter de uma explosão dos maus bofes de todo o mal que está represado na atmosfera de ódios e ignorâncias da sociedade americana se confirmem como vaticínios trágicos, Donald J. Trump e Gianni Infantino não terão como fugir do papel de culpados por terem organizado a cerimônia de adeus do futebol como expressão máxima do esporte que une, humaniza, civiliza e embevece. Estão sintonizados entre si tocando o Réquiem em desafino na caldeira do vulcão desumano, que, se explodir na Copa do Mundo, espicaça a arte que tem em Pelé sua obra-prima – tanto cometendo poesias como escrevendo prosas.