Quarta-feira, 13 de maio de 2026. O senador Flávio Bolsonaro saiu do STF, onde havia se reunido com o ministro Luiz Edson Fachin, presidente da Corte Constitucional, e foi abordado por jornalistas. A pergunta que um deles guardava para fazer era simples. Havia um áudio, havia mensagens de WhatsApp, havia comprovantes de transferências financeiras entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro? Havia um ex-banqueiro tentando negociar uma delação premiada com um dos ministros daquele STF e que estava preso por tentar embarcar para Dubai e manipular provas já levantadas contra si. E havia, registrado para a eternidade, a voz do senador e pré-candidato à Presidência da República pedindo dinheiro a um homem que, um dia depois daquelas conversas por WhatsApp, foi detido pela Polícia Federal sob acusação de fraude. A apuração das fraudes desse banqueiro já produziu um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito, de outros R$ 12 bilhões no Banco Regional de Brasília (BRB), de pelo menos R$ 6 bilhões em fundos diversos de previdência pública de estados e municípios espalhados pelo país e de mais cerca de R$ 30 bilhões em empréstimos não honrados por fundos de investimentos que eram falsos ou careciam de lastro.
A resposta de Flávio Bolsonaro foi imediata, categórica, cínica. Ele chamou tudo de mentira. Horas depois, arrependeu-se e disse que tudo podia ser verdade. Em sequência, passou a negociar nuances para a sua versão que desejava ver emplacada como verdade.
O “01” do clã Bolsonaro – alcunha que o pai, Jair, lhe deu com o orgulho de quem apresenta o herdeiro da linhagem – estava nu. Não havia roupa que o cobrisse. Derrete à vista de todos desde então.
O pedido, o banqueiro e o filme
A reportagem foi do site The Intercept Brasil, assinada por Paulo Motoryn e mais seis jornalistas – Eduardo Goulart, Laís Martins, Andrew Fishman, Cecília Olliveira, Leandro Becker e Mauricio Moraes. Publicada naquele 13 de maio de 2026, revelou a existência de áudios, mensagens das WhatsApp, documentos e comprovantes bancários ligados a uma negociação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A negociação tinha objeto pragmático, o filme Dark Horse. Uma produção internacional com pretensões de virar blockbuster de cinéfilos de extrema-direita e se baseia em parte da trajetória política de Jair Bolsonaro, deixando de lado todo o extenso prontuário do ex-presidente ora preso por urdir golpes de Estado. Com direção de Cyrus Nowrasteh e protagonismo do ator americano Jim Caviezel, era ao menos o embuste perfeito para maquiar eventuais expatriações de valores. A fita, até esta última semana, tinha estreia marcada para 11 de setembro de 2026 – poucas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial que Flávio Bolsonaro esperava disputar e vencer. No elenco ainda há Lynn Collins, Esai Morales e Felipe Folgosi.
O valor negociado do filme: US$ 24 milhões de dólares – na cotação da época dos diálogos entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, cerca de R$ 134 milhões. Segundo a reportagem do The Intercept, pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram transferidos pelo Banco Master por meio de uma empresa associada, a Entre Sistema de Pagamentos (também liquidada pelo Banco Central), em seis operações bancárias entre fevereiro e maio de 2025.
Em um dos áudios divulgados, Flávio Bolsonaro explica a Daniel Vorcaro o sufoco da produção. A relação entre os dois surge íntima nos áudios:.
– Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque está num momento muito decisivo aqui do filme. E como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso, e eu fico preocupado aqui com o efeito ao contrário do que a gente sonhou para o filme, né? Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, uns caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim.
Foram essas as palavras fluidas, carregadas da leveza de uma velha amizade, gravadas em setembro do ano passado, num tom bem íntimo, pelo senador fluminense para seu bom amigo e mau banqueiro (banqueiro corrupto e corruptor) Vorcaro.
Em 16 de novembro de 2025, no dia anterior à prisão de Vorcaro – que tentava embarcar para Dubai quando foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos –, Flávio Bolsonaro enviou mensagem ao agora ex-banqueiro. Dessa vez, texto deixado no perfil dele no WhatsApp:
– Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!
O que escrito estava, escrito ficou. E passou para a posteridade. Em 7 de novembro, poucos dias antes, havia mandado outro WhatsApp:
– Tudo isso só está sendo possível por causa de vc – perpetuou também, para registro histórico, por meio do aplicativo de mensagens.
Dois dias após aquele último textinho choramingas de Flávio Bolsonaro, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central. A coluna da jornalista Malu Gaspar, no site de O Globo, confirmou no mesmo 13 de maio de 2026, quarta-feira da semana que passou, que o publicitário Thiago Miranda havia sido intermediário do primeiro contato entre Flávio Bolsonaro, o deputado Mário Frias e Daniel Vorcaro. Frias, que foi secretário de Cultura do trágico período Bolsonaro na Presidência da República e é deputado federal, além de autor do argumento desse filme B, admitiu que o banqueiro transferiu o equivalente a R$ 62 milhões para a produção e foi o único financiador do projeto até sua prisão. A confirmação virou uma bomba no centro da bomba.

Negou, confirmou, pediu CPI
O comportamento de Flávio Bolsonaro diante das revelações seguiu o roteiro clássico do político apanhado em flagrante. Primeiro, a negação. Ao ser abordado na porta do STF, Flávio disse que a matéria era “mentira” e que se tratava de “dinheiro privado”. A nota que divulgou horas depois mudou de registro, mas não de trincheira.
“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, escreveu o ainda candidato numa tentativa de explicação distribuída pela assessoria e postada nas redes sociais.
Naquela mesma nota, Flávio Bolsonaro afirmou ter conhecido Vorcaro “em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. A cronologia é imprecisa. O áudio mais antigo divulgado pelo The Intercept é de setembro de 2025 – quando o Master já era objeto de fiscalização do Banco Central por operações de alto risco e, por isso, glosou e impediu a operação de compra forjada do Master pelo Banco Regional de Brasília. O mercado já desconfiava que nos subterrâneos da instituição financeira de Daniel Vorcaro havia um escândalo prestes a explodir. A imprensa, por sua vez, já publicava boa parte dessas desconfianças – as verdades, as versões e as contradições.
Pego na mentira depois de se recusar a responder à abordagem pública do The Intercept na saída de sua agenda no STF, o candidato do PL à Presidência convocou reunião de emergência com a cúpula de sua pré-campanha. Depois, lançou em gravação a frase-síntese de sua defesa do indefensável.
– Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem – pespegou, num vídeo gravado pela assessoria e patrocinado nas redes por seu partido e que logo virou motivo de produção de memes, reacts e piadas nas redes sociais.
Nenhuma das frases constantes do arremedo de resposta ataca a questão central que o faz sangrar. São elas:
- por que um senador da República, pré-candidato à Presidência, foi buscar financiamento para uma superprodução cinematográfica sobre o próprio pai junto a um banqueiro que estava sob investigação, cujo banco despencava, e que seria preso dois dias depois de receber mensagem afetiva do parlamentar?
- por que Flávio Bolsonaro escondeu sua relação de intimidade e de amigo tão próximo de Daniel Vorcaro, próximo a ponto de mandar áudios suplicantes pedindo dinheiro?
Essa segunda questão é mais central para o jogo político. As perguntas seguem sem resposta. Não foram dirimidas sequer numa entrevista desastrosa – para o candidato do PL e para os jornalistas das Organizações Globo – levada ao ar, ao vivo, na GloboNews, no fim da tarde da última quinta-feira, 14 de maio.
O que há de errado — e por que
A defesa de Flávio Bolsonaro gira como uma enceradeira em torno de ponto único. Bate na tecla estéril de que “o dinheiro era privado”. Tenta fazer passar a falsa ideia de que não havia verba pública, não havia “Lei Rouanet”, ecoando a tara ancestral que tem por bater e deslegitimar a legislação que viabiliza toda a crescente produção cultural brasileira. O dinheiro roubado, desviado, maquiado do Master e dos fundos administrados pelo esquema de Daniel Vorcaro, em última análise, é dinheiro público. A tese central da defesa do senador fluminense, portanto, é inválida e falsa. Mas, há muito mais.
Flávio Bolsonaro é senador da República. Integra a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Tem poder de convocação, de investigação, de influência sobre o ambiente regulatório dos bancos. Em setembro de 2025, quando enviou o áudio angustiado cobrando de Vorcaro, o Banco Central já fiscalizava o Master. Parlamentares informados sabiam do risco. O filho “01” de Jair Bolsonaro não era um cidadão comum buscando patrocínio cultural para um projeto pessoal. Era um senador da República estabelecendo e mantendo relação de cumplicidade financeira com o controlador de uma instituição financeira que estava na berlinda.
A relação entre um legislador com poder de agenda e um banqueiro sob supervisão é, em qualquer democracia séria, no mínimo constrangedora. Eticamente imprópria, no máximo. Juridicamente suspeita, dependendo do que as investigações revelarem.
O dinheiro que Vorcaro, supostamente, usou para financiar o filme não era dele. Era de depositantes, de fundos de pensão de servidores públicos, de investidores que acreditaram no banco. Era, em última análise, dinheiro de terceiros. Dinheiro que o rombo de R$ 47 bilhões revelou como dinheiro de todos os brasileiros, já que o Fundo Garantidor de Crédito – que cobre depósitos bancários – foi a principal vítima da fraude e terá de ser socorrido pelo Banco Central ainda que seja uma organização mantida com a contribuição de instituições privadas além da contribuição dos bancos públicos.
A direita se dispersa
As reações da direita e da extrema-direita disseram mais do que qualquer editorial dos jornais da mídia tradicional brasileira que não tiveram como se esconder dos fatos ou escondê-los do público. Foram reações rápidas e podem ser consideradas duras quando lidas sabendo-se que até o início da tarde do dia 13 de maio estavam todos do mesmo lado – unidos contra a candidatura de reeleiçãodo presidente Lula.
Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais pelo Novo e pré-candidato à Presidência, classificou o episódio como um “tapa na cara dos brasileiros de bem” e disse que o pedido de recursos a Vorcaro era “imperdoável”. “Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”, afirmou, em vídeo divulgado nas redes sociais. Aliados de Zema admitiram, em conversas privadas, que a revelação enterrou qualquer possibilidade de chapa entre ele e Flávio em 2026.
Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás pelo PSD, o mais forte nome da direita convencional na disputa pelo Planalto, cobrou esclarecimentos públicos. Não disse muito mais na primeira nota que divulgou pelas redes. Depois, gravou uma cobrança uma oitava mais dura e distribuiu o vídeo nas redes.
Renan Santos, do Missão – partido oriundo do MBL –, escolheu ser direto e mandar um papo reto para combinar com a personagem de candidato antissistema que está estudadamente se preparando para pôr nas ruas: “Flávio Bolsonaro acabou”. E completou: “Se o Brasil for um país sério, Flávio Bolsonaro e os outros envolvidos têm de ir para a cadeia”.
Dos partidos do Centrão, que o candidato presidencial do PL tentava agregar à sua chapa – PP, União Brasil, MDB, Podemos, Avante –, nenhum emitiu nota de solidariedade. Nenhum saiu em defesa. O silêncio era eloquente. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, disse, inicialmente, que nunca tinha ouvido falar do episódio. Depois, descartou substituir Flávio como candidato do partido. Mas não o abraçou.
Renan Santos ainda aproveitou para alfinetar Zema: “Zema até ontem estava na cueca de Bolsonaro. Ele deveria continuar puxando o saco de Flávio. Ele foi burro, não vai crescer por isso. Uma vez capacho, sempre capacho”. A cena da direita brasileira, às vésperas do ano eleitoral, era de debandada.

Antologia de rolos de Flávio Bolsonaro
O episódio do Dark Horse não nasceu do nada. Flávio Bolsonaro tem um longo histórico de rolos que o associam a dinheiro mal explicado, amigos que o livram da cena de eventuais crimes em cima da hora e péssimas explicações para males feitos à ação política.
O primeiro escândalo estrutural dele foi a rachadinha. Fabrício Queiroz, ex-policial militar e homem de confiança de Jair Bolsonaro, foi chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O esquema era simples, tosco e brutal. Funcionários do gabinete parlamentar dele na Assembleia Legislativa do Rio depositavam parte dos salários na conta de Queiroz, que repassava o dinheiro – ou parte dele – ao agora senador. Isso é rachadinha, pura e simples. “Rachadinha” é uma prática criminosa e corriqueira no submundo político fluminense, onde cargos de assessores parlamentares são tratados como prebendas de caciques.
O COAF – Conselho de Controle de Atividades Financeiras – detectou movimentação financeira atípica na conta de Queiroz: R$ 1,2 milhão em operações suspeitas em pouco mais de um ano. O valor total que passou pelas mãos dele, segundo investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro, chegou a R$ 7 milhões. Queiroz foi encontrado num sítio em Atibaia, interior de São Paulo, que pertencia ao advogado de Jair Bolsonaro, Frederik Wassef, amigo de longa data de Flávio Bolsonaro. Os dois são sócios em atividades advocatícias. Queiroz estava escondido na casa do amigo advogado do patrão.
Naquele mesmo escândalo emergiu outra conexão. Queiroz administrava as finanças pessoais da mãe e da ex-mulher de Adriano da Nóbrega – o capitão Adriano. Nóbrega era policial militar, líder do Escritório do Crime, célula miliciana do Rio de Janeiro com ramificações no submundo da contravenção. Havia sido condecorado por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio por “serviços prestados” – quando estava preso no quartel-general da PM fluminense. Flávio condecorou um miliciano atrás das grades.
O capitão Adriano foi executado em fevereiro de 2020 por uma tropa volante de policiais militares do Rio e da Bahia, num esconderijo no município de Esplanada, no sertão baiano. Foi abatido e considerado “Arquivo Morto”. Levou para o túmulo o que sabia sobre a rede que o ligava ao clã Bolsonaro e sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, executados em 2018.
Havia mais. O COAF identificou transações suspeitas numa franquia da Kopenhagen no Rio de Janeiro ligada a Flávio. As movimentações tinham características de lavagem de dinheiro: depósitos em espécie, valores fragmentados, padrões atípicos para o porte do negócio. A investigação gerou inquérito. O inquérito gerou batalha judicial sobre sigilo. No fim, a ação foi extinta no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde as milícias que dão sustentação política ao clã Bolsonaro têm ação forte e aberta, e o COAF terminou transferido do Ministério da Justiça para o Banco Central por determinação do pai de Flávio Bolsonaro, o ex-presidente agora preso por tramar um golpe de Estado contra a Democracia brasileira.
Por fim, a inexplicável origem do dinheiro como qual o senador fluminense comprou seu imóvel familiar em Brasília. Flávio Bolsonaro adquiriu uma confortável casa de 1.100 m² de área construída num terreno de 2.40 m² no Condomínio Ouro Branco, no Setor de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, área mais nobre da capital da República, em circunstâncias que chamaram a atenção de investigadores. Parte do financiamento teria passado pelo BRB, o Banco Regional de Brasília, instituição pública do Distrito Federal.
A negociação foi celebrada em 2021 por R$ 6 milhões – cerca de 30% abaixo do valor de mercado de um imóvel de mesmo padrão no Distrito Federal. O financiamento do BRB estimava a quitação do total em 30 anos, mas em 2024, apenas dois anos depois da assinatura da escritura, o candidato do PL à Presidência da República liquidou o financiamento sem dar maiores explicações sobre a origem do dinheiro com o qual executou a operação. A simples compra de imóvel por parlamentar com recursos de banco público já exige explicação. As condições benevolentes e lenientes com as quais Flávio Bolsonaro o fez mais ainda.
Cada um desses episódios, isolado, poderia ser minimizado. Juntos, formam um padrão. O padrão tem nome – DNA miliciano.
“O cartório que dá fé é o meu sangue”
Em 18 de maio de 1992, a revista Veja publicou a entrevista que levou à queda do governo Fernando Collor de Mello. Foi a entrevista cuja capa tinha a chamada “Pedro Collor conta tudo”. Ressalte-se: a Veja lembrada nessa referência histórica era uma revista que existiu e teve relevância jornalística até 2002, não era esse arremedo jornalístico que segue sendo publicado hoje em dia sob a liderança de um reestruturador de empresas quebradas. O pivô da entrevista era Pedro Collor de Mello, irmão do presidente da República. Não era um investigador, um juiz, nem um delator formal. Pedro falou para um jornalista da revista narrando esquemas de corrupção montados por Paulo César Cavalcante Farias, o PC, tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor em 1989. Eram contas no exterior, extorsão a empresários, cheques fantasmas que pagavam contas pessoais do então presidente e da primeira-dama da época, Rosane Collor. Quando perguntavam quais eram as suas provas, Pedro respondia com uma frase que marcou a política brasileira. “É o cartório do sangue. Somos irmãos, sei o que vi e o que vivi.”
A frase funcionou como detonador. Fernando Collor sofreu o primeiro impeachment presidencial da história das repúblicas ocidentais, em 2 de outubro de 1992. Numa estratégia jurídica desesperada e inútil, renunciou horas antes da votação. Foi cassado mesmo assim e ficou com os direitos políticos suspensos.
Trinta e quatro anos depois, algo parecido acontece com Flávio Bolsonaro – mas de direção invertida. Não é o irmão que denuncia. São os fatos que chegam pelos celulares apreendidos de um banqueiro preso. É a tecnologia que faz o papel do cartório. O WhatsApp guardou as mensagens. O áudio ficou no servidor. O comprovante de transferência não mente.
As primeiras respostas de Flávio – a negação inicial, a chamada de mentira, o desmentido que durou horas – foram idênticas, no espírito e na cadência, às respostas que os ventríloquos do governo Collor davam em 1992, quando as evidências eram apresentadas. Negar primeiro. Confirmar depois, acossado pelos fatos. Em sequência, colocado contra a parede, pedir investigação do investigado.
Há uma diferença, porém, e não é pouco sutil. A partir da entrevista assentada no “Cartório do Sangue” que levou ao impeachment de Collor, transcorreram sete meses até o glorioso desfecho de todo o processo de impeachment. No caso Flávio Bolsonaro, a candidatura do senador fluminense – filho “01” do clã comandado pelo despreparado capitão do Exército que tentou dar um golpe de Estado três vezes, entre 2021 e 2022, e está preso em razão da patacoada antidemocrática de 8 de janeiro de 2023 – começou a ser enterrada em poucas horas.
A sangria política do extremista de direita segue, não foi estancada e a aposta que se faz em Brasília, na Faria Lima e nos cafofos onde os milicianos decidem a política do Rio de Janeiro é uma só: Flávio Bolsonaro escolheu morrer em cena, ao vivo, guinchando como porco a caminho do abatedouro. Para sua turma e para seu público, os eleitores que insistem em acreditar no dramalhão roteirizado pelos marqueteiros e gestores de crise do PL, esse tempo custará a esperança que tinham de voltarem ao poder a partir de 1º de janeiro do próximo ano.
Queimou a largada
Flávio Bolsonaro anunciou sua pré-candidatura à Presidência em dezembro de 2025. O anúncio caiu mal no mercado, provocou recuo na Bolsa de Valores e foi recebido com ceticismo pelo Centrão. Eles preferiam ter ou governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos, agora inelegível para a Presidência por não ter renunciado ao cargo em tempo hábil de acordo com a Lei Eleitoral), ou a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro. O próprio Flávio Bolsonaro havia dito, dias antes de se lançar candidato, que seu “preço” para desistir da candidatura era ver o pai livre e nas urnas. Aquilo soou como blefe. Desde o início, a candidatura parecia mais uma barganha do que uma vocação.
A reunião que convocou com líderes do Centrão para se sagrar candidato de toda a corriola política – Antônio Rueda, do União Brasil, e Ciro Nogueira, do PP – terminou sem definição. Os dois se comprometeram a “levar a questão a seus partidos”. Não disseram o “sim” ambicionado pelo senador. Até hoje evitaram essa sagração. O próprio Ciro Nogueira, que confessou ter Flávio Bolsonaro como “um dos melhores amigos” que tem na vida pública, foi claro ao dizer que “a decisão não pode ser só do PL”.
Essa declaração de amor político e fidelidade de almas ocorreu dois meses antes de Nogueira ser exposto numa operação de busca e apreensão em sua casa em Brasília e nos seus escritórios em São Paulo e Teresina, porque a PF estava atrás das relações financeiras entre ele e… Daniel Vorcaro, do Master. Apesar da forte amizade entre os dois senadores, Flávio Bolsonaro não se solidarizou ao piauiense e omitiu o nome dele de uma nota de pronunciamento sobre a operação da Polícia Federal contra o presidente do PP.
Uma semana depois, detonado o escândalo que feriu de morte a pretensão presidencial do senador fluminense, o silêncio do Centrão foi escutado como um recado tonitruante a singrar os céus do Cerrado brasiliense. Nenhum partido de centro ou centro-direita saiu em defesa do “01” do clã bolsonarista. Nenhum presidente de legenda mandou nota de solidariedade. O PL preservou a candidatura – mas não a abraçou. Renan Santos, do Missão, foi categórico. Disse que “Flávio não cresce mais” e que “vai manter a candidatura machucada e seguirá até o final”.
Há uma aritmética cruel na política brasileira. Candidato queimado não recupera patamar. Flávio já era fraco nas pesquisas. Depois dos áudios, está mais fraco ainda. E sem aliados formais, sem coligação, sem o Centrão, sem a direita não-bolsonarista, sem o centro – o que sobra é o núcleo duro do bolsonarismo raiz. O que lhe resta são os bebedores de detergente Ypê, de acordo com o desafio cretino que contaminou as redes sociais na última semana, no eterno Fla-Flu estimulado pelos desmiolados da extrema direita, depois que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária mandou recolher lotes do detergente em razão de uma contaminação por bactérias nas linhas de produção dos produtos da marca. Flávio Bolsonaro queimou na largada. Sequer chegou a correr.

A República e seus cartórios
Pedro Collor disse, em 1992, que o sangue era o melhor cartório.
O sangue prova, o sangue testemunha, o sangue não mente.
Trinta e quatro anos depois, o “Cartório do Sangue” que se instalou sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro não é de parentesco – é de cumplicidade. É o áudio guardado no celular de um banqueiro preso. É a mensagem de WhatsApp enviada na véspera de uma prisão. É o comprovante de transferência registrado num fundo sediado no Texas.
O sangue do clã Bolsonaro tem um DNA. Ele aparece na rachadinha de Queiroz. Aparece na condecoração do miliciano Adriano da Nóbrega. Aparece nas transações atípicas da franquia de chocolates. Aparece no imóvel de Brasília. Aparece no filme sobre o pai financiado por um banqueiro fraudador.
Fernando Collor resistiu por sete meses. Entrincheirou-se na Presidência da República e dilapidava o próprio governo enquanto brigava para não morrer no cadafalso do impeachment. Usou o aparato do Estado e a ainda assim, caiu.
Flávio Bolsonaro é senador em fim de mandato. Não tem a Presidência da República para manipular os órgãos de Estado a fim de se eleger, como seu pai fez em 2022 (e também caiu, como Collor, só que pela força das urnas democráticas). Não tem aparato. Tem áudios contra si. O cartório do sangue falou. O DNA dos marcadores de voz das gravações é inconfundível. E as gravações formam um farto conjunto probatório contra ele e “Daniel”, como Flávio Bolsonaro chama o ex-banqueiro corrupto, quase solfejando o nome do ex-dono do Master. “Daniel” é o amigão dele, o DNA da voz é contra ele e vai derrubá-lo da cena eleitoral. É só uma questão de tempo.