E se uma mulher fosse assim tão descontrolada na presidência?

Trump é a definição de histeria e insanidade, mas Kamala não podia governar porque sua risada era alta demais
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Quando Kamala Harris foi candidata à presidência dos Estados Unidos, em 2024, ela foi acusada de muitas coisas. Harris foi chamada de “despreparada”, uma maneira “gentil” de falar que uma mulher é burra. E também de descontrolada, uma outra expressão para falar que ela é “histérica”. Motivo do suposto descontrole: ela ria alto demais e balançava a cabeça quando gargalhava.

Sim, é chocante, mas mulheres que concorrem a cargos de poder são julgadas até pelo jeito que riem. Sua risada deveria ser polida, discreta. Senão, pronto, isso significa que essa mulher é histérica. E, por isso, é claro, ela não teria condições de ocupar um cargo que exige uma responsabilidade tão grande. Imagina, que perigo deixar uma mulher que gargalhava dessa maneira presidir o país mais poderoso do mundo? “Seria uma temeridade!”, pensaram e escreveram muitos.

Dois anos depois, Donald Trump é presidente dos Estados Unidos e, junto com Israel, cria uma guerra ilegal contra o Irã e coloca o Oriente Médio (e o mundo todo) em perigo. Analistas dizem que essa guerra pode levar o mundo a uma crise econômica sem precedentes.

Nesse cenário, e ao perceber que estava perdendo a guerra, o descontrole alcançou níveis máximos. Na terça-feira (7/4), Trump deixou o mundo inteiro chocado e em pânico. Em um ataque de loucura, ele escreveu nas redes sociais: “Essa noite uma civilização inteira morrerá”.  Esse é um aviso de genocídio que não pode ser ignorado. Algo que foi visto pela última vez na época do Hitler.

A poucas horas do prazo que tinha dado para destruir “toda uma civilização”, Trump aceitou um cessar-fogo com o Irã. Ou seja, tratava-se de mais um siricutico. Só que um presidente não pode sair gritando que vai destruir civilizações, certo?

Imediatamente, congressistas e cidadãos americanos começaram a pedir, desesperados, que a 25ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos fosse evocada. Esse é um dispositivo que permite que o vice-presidente, junto com a maioria dos principais membros do gabinete (ou outro órgão definido por lei), declare que o presidente está “incapaz de exercer os poderes e deveres do cargo”.

“O presidente perdeu a cabeça”, escreveu Tim Walz, democrata, governador de Minnesota. Espera, só agora perceberam que o Trump é uma pessoa louca e sem condições de ser presidente? Vamos lembrar que ele já invadiu a Venezuela, já disse que iria “tomar Cuba” e publicou uma montagem nas redes sociais onde o Golfo do México chamava “Golfo da América”, só para citar alguns exemplos de destempero, já que os seus surtos são diários.

“Abram a porra do Canal!”

No domingo de Páscoa, ele anunciou a crise que estava por vir: “Abram essa porra de estreito, seus bastardos malucos, ou vocês vão viver no inferno!”, ele escreveu nas redes sociais, com uma linguagem nunca vista na história dos Estados Unidos e, provavelmente, do mundo.

Print de post oficial de Donald Trump usando termos como "Abram a porra do canal". A imagem documenta o descontrole de Donald Trump mencionado no texto, servindo de prova para o debate sobre a aplicação da 25ª Emenda constitucional.
Post de Trump no domingo de Páscoa. Imagem: reprodução

Depois desse último ataque, muitos congressistas passaram a  pedir o impeachment de Trump, mas, até o fechamento desta coluna, ele se mantinha no cargo.

Trump é a própria definição de histeria, destempero e insanidade. Mas quem não podia governar porque sua risada era alta demais e isso sugeria descontrole era Kamala.

Esse é um exemplo não só de política americana, mas de sexismo. Imagina se uma mulher presidente de um país tivesse 1% do descontrole do Trump? Vocês acham que os homens de seu gabinete já não teriam declarado que ele estava incapaz e usado a 25ª Emenda? Tenho certeza que sim. Talvez, quando ela gritasse um dos seus impropérios, alguns diriam, como Neymar falou ao se referir a um juiz de futebol, que a presidente “estava de chico”.

Dilma, a “explosiva”

É impossível pensar na diferença no tratamento entre homens e mulheres que ocupam cargos de poder e não lembrar de Dilma Rousseff. “As explosões nervosas da presidente”. Esse foi o título, em letras garrafais, de uma capa da revista ISTOÉ, em abril de 2016.

A imagem que ilustrava a capa era a de uma caricatura da presidenta gritando, com a boca aberta, como se ela fosse louca ou até demoníaca. A matéria falava, entre outras coisas, que ela era descontrolada, que tratava mal os seus assistentes e por aí vai. Vale lembrar que Dilma nunca deu exemplo de descontrole em público, de forma alguma.

Jair, o descontrolado

O mesmo não aconteceu com um presidente como Jair Bolsonaro, vocês sabem. Ele destratou jornalistas em público (principalmente mulheres, óbvio), berrou palavrões em coletivas e pronunciamentos e falou palavrões. Além, claro, de ter imitado pacientes com falta de ar em plena pandemia da covid-19, entre outros momentos que vão entrar para as páginas infelizes da nossa história. Mas ele não era tratado como descontrolado (apesar de ser), e sim como um “cara autêntico”, que “fala o que pensa”.

Já Dilma… Bem, o sexismo que a primeira mulher presidente do Brasil sofreu foi escandaloso. Assim como Kamala, ela também foi chamada de “despreparada”. Sendo que ela é economista e, antes de ser presidente, tinha no currículo cargos como o de ministra das Minas e Energia e da Casa Civil. Mas o sexismo foi implacável com ela e Dilma foi vítima de um impeachment, que ela própria classificou, acertadamente, como “um golpe misógino”.

A história será implacável com aqueles que se julgam vencedores”, disse Dilma em seu discurso de despedida. Concordo com ela. E tenho certeza que a história vai mostrar também, infelizmente, o mal que um homem descontrolado e histérico fez para o mundo. E quanto todo um sistema político (formado principalmente por homens) deixou esse desatino ir tão longe. Pobre humanidade.

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