Ainda é cedo demais para saber se as supostas discussões desta semana entre Estados Unidos e representantes do governo iraniano resultarão num cessar-fogo e novas negociações para encerrar a guerra. No entanto, parece que Trump está se preparando para declarar vitória e voltar para casa.
Contudo, como sabem os analistas que estudam o atual presidente dos EUA, ele pode mudar de ideia num instante. Quase tudo é possível.
Embora o ocupante da Casa Branca, inevitavelmente, declare qualquer acordo assinado como um sucesso total, ele levou os Estados Unidos a um atoleiro no Oriente Médio. Resta saber se isso significa tensões contínuas de baixo nível entre aliados e inimigos dos EUA na região ou se Trump foi arrastado para uma guerra sem fim com o Irã.
Inflação à vista nos EUA
Na semana passada, enquanto a guerra com o Irã continuava, o preço do petróleo disparou e o mercado de ações dos EUA despencou. Trump percebeu que abrir o Estreito de Ormuz para permitir a movimentação de 20% do petróleo e gás destinados ao mercado mundial era essencial para sua sobrevivência política nos Estados Unidos. O espectro de que os americanos poderiam ter que continuar pagando preços significativamente mais altos pela gasolina, com a consequente inflação de alimentos e bens de consumo, claramente ameaça suas possibilidades de manter a maioria republicana no Congresso após as eleições de 3 de novembro.
Assim, sua ameaça no sábado (21/3) de atacar usinas de energia e infraestrutura energética iranianas foi uma tentativa desesperada de desbloquear o fornecimento de petróleo, gás e fertilizantes para o mundo. A resposta do Irã foi ameaçar destruir usinas de dessalinização regionais e bases militares americanas hospedadas por aliados árabes.
Então, no domingo (22/3), o mercado futuro asiático entrou em colapso à medida que os preços do petróleo subiram a novos patamares. Trump, que parece se preocupar apenas quando o mercado de ações dos EUA está em declínio, anunciou imediatamente nas redes sociais que negociações sérias estavam em andamento, permitindo-lhe suspender sua ameaça por cinco dias.
Os preços do petróleo caíram e o mercado de ações começou a subir novamente. Ao mesmo tempo, Teerã negou que negociações estivessem ocorrendo.
De acordo com fontes próximas à Casa Branca, o genro de Trump, Jared Kushnir, e o enviado especial para o Oriente Médio, Steve Witkoff, que lideravam as negociações nucleares com o Irã antes da guerra, desenvolveram um plano de paz de 15 pontos. Eles o enviaram ao Paquistão, como intermediário, para que o Irã possa considerar a proposta.
Supostamente, o plano inclui o fim do enriquecimento de urânio e do envio de estoques para fora do país; a restrição do programa de mísseis balísticos do Irã; a manutenção do Estreito de Ormuz aberto para a navegação internacional; e a cessação de todo o apoio a aliados regionais do Irã, entre outras disposições. No entanto, não é muito diferente da proposta apresentada pelos Estados Unidos na véspera do início da guerra.
A rejeição pública do Irã às negociações e à proposta dos EUA parece ter como objetivo transmitir a mensagem de que eles não foram derrotados pelo poderio militar dos EUA e de Israel.
Tática para ganhar tempo
É uma história confusa de todos os lados do conflito, com a maioria dos participantes apresentando meias-verdades, adotando posturas políticas e até mesmo divulgando mentiras descaradas. Por exemplo, no ano passado, depois de Trump ordenar o bombardeio das instalações nucleares iranianas, ele afirmou que as forças aéreas dos EUA e de Israel haviam “aniquilado” o programa nuclear do país, mesmo quando especialistas em inteligência do próprio governo americano contestaram essa afirmação e foram demitidos por dizê-la.
Em seguida, no final de fevereiro, os Estados Unidos e Israel iniciaram o bombardeio do Irã um dia após o término do que foram chamadas de negociações produtivas com o governo iraniano. Dado o aumento da presença militar no mês anterior, ficou claro que as negociações eram meramente uma tática para ganhar tempo para que as forças navais dos EUA chegassem à região.
Poucos dias após o início da guerra, o governo dos EUA anunciou novamente que havia “aniquilado” o programa nuclear do Irã, porque o país estava preparando um ataque nuclear iminente contra os Estados Unidos. Como isso era possível, a menos que as afirmações anteriores da Casa Branca fossem falsas ou extremamente exageradas?
O Pentágono anunciou ainda que os Estados Unidos e Israel também haviam “aniquilado” o sistema de mísseis balísticos do Irã e seu arsenal de armas. No entanto, durante os cinco dias de suspensão da ameaça de Trump de atacar as usinas e a infraestrutura energética do Irã, a República Islâmica lançou uma série de ataques com mísseis contra Israel e aliados árabes dos EUA na região. Que bela maneira de destruir as capacidades ofensivas do Irã!
No início da guerra, parecia que um dos principais objetivos de Trump era a mudança de regime. A Guerra do Irã seria uma repetição da incursão na Venezuela, ou seja, ações rápidas para eliminar a liderança iraniana, o que os Estados Unidos e Israel conseguiram no primeiro dia da guerra. Aparentemente, Trump havia imaginado uma revolta popular, uma mudança de regime e um novo governo pró-americano no poder em Teerã. Em vez disso, quase imediatamente, uma nova liderança foi colocada no poder no país.
Embora quase todos os principais especialistas sobre Irã tenham comentado ao longo da guerra que esse era o cenário menos provável, Trump estava determinado a seguir em frente.

O presidente dos EUA agora busca uma saída “honrosa”, mas o controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz continua sendo um grande obstáculo. O envio de aproximadamente dois mil paraquedistas da “Força de Resposta Imediata” da 82ª Divisão Aerotransportada parece ser uma tentativa de pressionar o governo iraniano a um acordo negociado.
No entanto, especialistas independentes em assuntos militares dos EUA afirmam que essas forças adicionais mobilizadas para a região são insuficientes para uma operação terrestre bem-sucedida que possa assumir posições estratégicas ao longo do Estreito para abrir a rota de navegação.
A maioria dos cálculos de Trump, agora, parece estar totalmente ligada às eleições para o Congresso dos EUA em novembro. Na pesquisa mais recente da AP/NORC, 59% dos entrevistados acham que as ações militares dos EUA no Irã foram excessivas. Ao mesmo tempo, uma nova pesquisa da Reuters/Ipsos constatou que apenas 36% dos americanos aprovam o desempenho de Trump. As coisas não estão indo bem para os republicanos.
Além disso, na terça-feira (24 /3), Emily Gregory, candidata democrata pela primeira vez ao distrito da assembleia estadual onde Trump está oficialmente registrado para votar, derrotou seu rival republicano apoiado por Trump por 2%. Na eleição de 2024, um republicano venceu essa cadeira por 19 pontos percentuais, mostrando uma oscilação de 21% a favor do candidato democrata este ano. Gregory, de 40 anos, esposa de um oficial do exército, concentrou-se em problemas locais, como a economia, para conquistar a cadeira para os democratas.
Enquanto Trump enfrenta uma vitória esmagadora dos democratas nas eleições para o Congresso em novembro, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, encara outros problemas. As eleições israelenses estão programadas para ocorrer ainda este ano.
No momento, a guerra contra o Irã é popular em Israel, dadas as ameaças que a República Islâmica fez contra aquele Estado nas últimas quase cinco décadas. No entanto, de acordo com pesquisas realizadas na última semana, se as eleições israelenses fossem hoje, Netanyahu não teria membros suficientes no Knesset, o parlamento israelense, para formar um governo de coalizão. Assim, o primeiro-ministro israelense quer continuar a guerra até que haja uma mudança de regime, a fim de cumprir uma promessa de longa data.
O governo da Arábia Saudita está pressionando Trump de forma semelhante para que ele avance com a derrubada da atual liderança iraniana, embora um porta-voz do governo tenha negado essa alegação.
Sem dúvida, Trump encontrará algum pretexto que lhe permita declarar que derrotou o Irã, ou tentará uma operação militar para depor o regime. Ao fazer o primeiro, ele deixará a região em estado de caos. Se tentar forçar o Irã a negociar com incursões de tropas no país, corre o risco de um impasse ou mesmo de uma derrota militar.
Independentemente das escolhas que Trump fizer nos próximos dias, ele já perdeu a guerra.