‘Faça você mesmo’: nova geração política toma as rédeas da batalha

Onda de manifestações reorganiza campo progressista e acumula forças para lutas futuras
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As manifestações populares que ocuparam capitais e cidades do interior do país na abertura do segundo turno eleitoral representam a principal novidade do cenário político de 2026. A entrada em cena de uma nova geração política, composta por estudantes secundaristas e universitários, muitos deles votando para presidente da República pela primeira vez, foi a centelha necessária para impulsionar uma dinâmica nacional de mobilizações descentralizadas, dando um sentido militante à campanha pela reeleição de Lula. Essa presença ostensiva no asfalto altera a dinâmica da disputa e reconfigura as expectativas para a reta final do pleito.

O protagonismo do movimento estudantil na luta contra o bolsonarismo coloca em xeque o suposto apelo hegemônico que a extrema direita alegava exercer sobre a juventude. Discursos com verniz “antissistema”, costumeiramente explorados pelos bolsonaristas e por setores “independentes” da extrema direita, como o MBL/Missão, passam a enfrentar contraponto direto e organizado nas praças e avenidas de todas as regiões do país. A capacidade de ocupação do espaço público por setores progressistas demonstra que a rebeldia e o desejo de mudança encontram guarida na esquerda e não foram totalmente sequestrados pelo ultraliberalismo e pelo fascismo.

Simbiose entre redes e ruas na luta contra a extrema direita

O fortalecimento dos atos presenciais caminha lado a lado com a expansão da presença digital da campanha. Com eixos de mobilização mais nítidos e uma postura propositiva, combinando a defesa da educação pública e do SUS, a luta pelo fim da escala 6×1 e a denúncia das relações de Flávio Bolsonaro com o crime organizado, a campanha elevou o patamar de diálogo com os segmentos sociais mais engajados e com a juventude trabalhadora.

Essa sintonia abriu espaço para uma ofensiva nas redes sociais, alcançando e deslocando setores da população que habitualmente se posicionavam como “não polarizados” ou desinteressados da política institucional. O engajamento gerado pelos atos de rua fornece conteúdo autêntico e linguagem direta para o ambiente digital, enquanto as redes funcionam como caixa de ressonância e ferramenta de convocação para novas ações de rua. Redes e ruas passam, assim, a crescer de forma integrada e simbiótica na organização da disputa contra o projeto da extrema direita.

Destaca-se nesse processo a energia criativa dos “fandoms”, versão contemporânea mais capilarizada e com forte presença digital da cultura dos fã-clubes. O “Fandoms pelo Brasil”, movimento associativo com mais de 250 comunidades, já havia participado com destaque da luta contra o PL 1904/2024, conhecido como “PL do Estupro”, ajudando a impulsionar a campanha “Criança não é mãe”. Agora, no segundo turno, as comunidades formadas majoritariamente por jovens lançaram-se na batalha digital contra a extrema direita, oferecendo suas redes para a mobilização virtual da campanha Lula.

Manifestação contra o PL 1904/2024, conhecido como PL do Estupro, em 2024.
Manifestação contra o “PL do Estupro”, em 2024 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

“Faça você mesmo”: a reconstrução da luta de massas e a disputa do voto

As passeatas atendem a uma necessidade prática e urgente da conjuntura eleitoral: para reverter o resultado adverso do primeiro turno, a capacidade de persuasão do campo democrático precisa atuar de forma capilar, no nível individual e comunitário, indo além da comunicação oficial e das inserções de rádio e televisão.

As iniciativas que germinam de forma descentralizada, com o objetivo de buscar votos fora do ambiente digital – promovendo conversas diretas com familiares, vizinhos, passageiros no transporte público e colegas de trabalho – apontam caminhos concretos para romper o isolamento das bolhas políticas. Embora tais ações não substituam a condução estratégica de uma campanha nacional, elas resgatam duas dimensões vitais enfraquecidas ao longo dos anos pelo modelo de campanhas altamente profissionalizadas e centradas no marketing: a persuasão interpessoal e o trabalho de organização local.

Além disso, elas rompem com o imobilismo da burocracia que conduz a campanha oficial. Após um primeiro turno atravessado por hesitação política, desorganização logística e uma esperança irreal na força do legado dos governos Lula, de um lado, e pelo crescimento avassalador do PL nas urnas, de outro, a ressaca e o assombro foram rapidamente substituídos por um sentimento punk de “faça você mesmo”. A militância coletiva tomou as rédeas e construiu uma teia multicolorida e polifônica para afirmar valores e construir “barricadas” antifascistas.

Universidade e classe trabalhadora na mesma pauta

Ainda que convocadas no âmbito de uma frente ampla em defesa da democracia contra o avanço do fascismo, as manifestações registram composição majoritária e hegemonia da esquerda. Trata-se de um movimento que não surge de forma espontânea ou puramente inorgânica, mas fruto da capacidade de articulação histórica de entidades estudantis, sindicatos e movimentos sociais organizados. Boa parte da vanguarda desses jovens se organiza politicamente em partidos.

A tentativa de criar uma divisão artificial entre uma suposta “esquerda universitária” e o “povo real”, tão explorada nos discursos de lideranças da extrema direita, desmorona diante da realidade, que desnuda a caricatura das simplificações narrativas. Longe de viverem separadas por um abismo, a juventude universitária e a classe trabalhadora se encontram e vivem seus conflitos e sínteses dentro das próprias famílias: a maioria dos jovens que lidera os protestos e organiza as passeatas é formada por filhos e filhas de trabalhadores, faz parte da primeira ou, no máximo, segunda geração familiar a cursar o ensino superior e ingressou em institutos e universidades públicas por meio das políticas de cotas e da expansão da rede federal de ensino.

Por essa razão, a luta em defesa do direito de estudar caminha de mãos dadas com a preservação de conquistas sociais e econômicas mais amplas. Nas pautas apresentadas pelos manifestantes, a campanha presidencial conecta-se diretamente a demandas concretas e cotidianas da sociedade. Nos cartazes e discursos, sobressai a defesa intransigente da educação pública e do Sistema Único de Saúde (SUS), ao lado da afirmação da soberania nacional e de pautas trabalhistas com impacto imediato sobre a rotina da classe trabalhadora, como a luta vitoriosa pelo fim da escala 6×1.

Um papel decisivo para o período pós-eleitoral

A presença militante da juventude e a reorganização dos movimentos sociais assumem relevância estratégica também para o período posterior à apuração das urnas, independentemente do resultado final consolidado no segundo turno. Ao vivenciar nas ruas um processo direto de formação e educação política, esses atores sociais se cacifam e acumulam forças para as disputas futuras.

Se a tão esperada e histórica virada eleitoral se confirmar, a capacidade de mobilização das bases servirá de sustentação e pressão para uma eventual nova gestão Lula frente a um Congresso Nacional de perfil majoritariamente conservador e opositor. Em um governo sitiado pela direita, apenas a presença ativa das massas no cenário político pode romper o cerco institucional e criar condições para que as pautas sociais e as reformas estruturais avancem.

No caso da confirmação da tragédia anunciada no primeiro turno – a vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro e a consagração dos responsáveis pela tentativa de golpe de Estado de janeiro de 2023 por meio do voto –, a articulação construída nas ruas funcionará como estrutura imediata de resistência ao processo anunciado de desmanche dos direitos sociais, das instituições e da democracia. A plataforma da extrema direita sinaliza retrocessos acelerados na gestão dos serviços públicos, nova rodada de desregulamentação trabalhista e demolição de direitos, privatização das empresas públicas e estatais e subserviência absoluta aos EUA e ao governo Trump, exigindo forte presença do movimento social organizado para enfrentar a blitzkrieg já prometida pelo bolsonarismo.

O resultado do processo eleitoral de 2026 e os rumos do país nos próximos anos dependerão, em grande medida, da capacidade das forças populares em transformar essa onda de mobilização de rua em organização permanente, diálogo com a sociedade e força política ativa. E as cenas dos próximos dias serão decisivas para o futuro do país.

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