Em agosto de 2006, durante a inauguração da biblioteca da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), o sociólogo Antonio Candido nos brindou com um discurso. Poucas pessoas conseguem fazer tão bem o uso das palavras para descrever um sentimento coletivo. Ele dizia que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o dito popular “tempo é dinheiro”, atribuído ao polímato Benjamim Franklin, do século 18, um dos expoentes da independência estadunidense.
Para Candido, a frase é “uma monstruosidade”. “Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo; esse tempo pertence a meus afetos, é para amar a mulher que escolhi, para ser amado por ela. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘Eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’”, disse. E aproveitou para fazer uma referência aos livros, que definiu como uma “grande necessidade de nossa vida humanizada”, acrescentando que “o amor pelo livro nos refina e nos liberta de muitas servidões”.