“No momento em que os revolucionários cubanos estavam em Sierra Maestra, um sentinela correu a Fidel e disse: ‘Companheiro, estamos cercados, somos 150 e a tropa do Fulgêncio Batista é de aproximadamente 800 homens’. Fidel chamou os 150 e disse o seguinte: ‘Olha, estamos cercados, eles são 800. Não vamos deixar o inimigo escapar!’.”
O relato foi narrado pelo ator Francisco Milani durante sua militância política. Ele sintetiza a reviravolta após as tropas de Fidel Castro terem sido cercadas pelas forças do ditador Fulgêncio Batista em Sierra Maestra. O que parecia uma derrota iminente por desvantagem numérica virou uma inversão de enquadramento e um dos símbolos da Revolução Cubana. Com táticas de emboscada e conhecimento da região, os revolucionários derrubaram a ditadura pouco tempo depois, em janeiro de 1959.
A postura de Fidel pode parecer audaciosa, mas foi estratégica. E nos dá um choque imediato: precisamos recusar a paralisia do medo. Do contrário, já perdemos.
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil nos deixou, à primeira vista, atônitos.
Nos perguntamos como a extrema direita, na figura de Flávio Bolsonaro, poderia liderar, ainda que com margem apertada. Depois de tudo? Depois da pandemia, da fila do osso, do desprezo à vida? Depois do clã Bolsonaro tentar o golpe abertamente? Dos planos para matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes? Mesmo depois das notícias de envolvimento com milícias e de ser o único candidato à Presidência que pediu dinheiro – no mínimo, R$ 134 milhões – para Daniel Vorcaro?
Tem gente que olha para o resultado de domingo e acha que não há mais o que ser feito. Frustração. Cansaço. Consigo entender o sentimento e o tamanho do problema. Mas nossa jornada de conquistas por direitos é fruto de uma batalha longa e incansável – em que não aceitamos derrotas. Pausa para nos recompor e entender o que pode ser feito; mas nenhuma garantia caiu do céu. Conquistas que hoje parecem consolidadas, como o direito de folgar no domingo, exigiram resistir a retrocessos e reorganizar as fileiras.
Poucos dias depois de constatar uma vantagem de menos de dois pontos percentuais nas urnas, Flávio Bolsonaro anuncia que pretende mudar a Constituição. Ceder ao medo ou ao derrotismo significa entregar a ele uma vitória que ainda não foi conquistada.
O dado mais revelador do pleito não é a consolidação de um país irremediavelmente bolsonarista. Na verdade, 33,4 milhões de brasileiros não foram votar – o equivalente a mais de 21% do eleitorado, a maior taxa registrada em quase três décadas. Pesquisadores mapearam como esse número prejudicou a candidatura de Lula a partir dos perfis da abstenção. São grupos de idosos acima de 70 anos; população de baixa renda prejudicada pelo endividamento, impacto das apostas e pela inflação dos alimentos; e pessoas tomadas pela apatia e desencanto com a política.
Ainda temos mais de 3 milhões e meio de pessoas que anularam o voto para presidente e 2 milhões e 300 mil que votaram em branco.
As pessoas não deixaram de votar porque se tornaram fascistas convictas. Existe uma parcela tomada pelo cansaço, pela desesperança e pela percepção de que o debate político não altera o seu cotidiano.
Então, como se comunicar com as pessoas?
Utopias concretas
O linguista George Lakoff explica que tentar combater o adversário negando as premissas dele acaba servindo para reforçar a moldura mental que ele próprio estabeleceu. A “moldura mental” é a maneira como vemos o mundo. Trazendo para o campo político: quando os democratas foram a debates dizer “nós somos contra o alívio fiscal de Bush, porque ele beneficia apenas os mais ricos”, mesmo ao utilizar “alívio fiscal” para criticar, a repetição da palavra “alívio” é a que foi martelada na cabeça das pessoas – e atrelada a Bush.
Quando nos limitamos a repetir “não ao fascismo” ou reverberar os absurdos ditos por Flávio Bolsonaro, acabamos por colocá-lo no centro da atenção do eleitor.
Essa reflexão é aprofundada pelo pesquisador em semiótica Paolo Demuru, autor de Políticas do Encanto. Comecei a leitura logo depois do resultado do primeiro turno e me senti abraçada pelas ideias do livro. Demuru adverte que apelos abstratos para “salvar a democracia” perdem eficácia porque a própria palavra “democracia” tornou-se um conceito distante para quem luta para colocar comida na mesa.

Segundo o pesquisador, a extrema direita foi bem-sucedida nos últimos anos porque sequestrou as pautas do trabalho e do desejo, oferecendo narrativas envolventes e senso de pertencimento diante de um cotidiano neoliberal marcado pelo isolamento e pela precarização.
Acredito que aí esteja a chave para quebrar esse feitiço e a apatia. Precisamos contrapor as fantasias da extrema direita com utopias concretas. Com as tais políticas do encanto. Democracia concreta é a que afeta a existência das pessoas: é a luta pelo fim da escala 6×1 para garantir tempo livre e dignidade, poder ir ao supermercado e depois encher o prato na mesa, poder ter um teto com dignidade sem ver metade do salário ser devorado pelo aluguel – e sem o estrangulamento das dívidas.
Converse com as pessoas. Comece perguntando sobre a vida dela, o custo da cesta básica, a dívida no cartão e a falta de médico no posto. Pergunte por que essa pessoa pensa em não votar. Ouça. Não invalide o descontentamento.
Quando o eleitor diz: “Tá tudo muito caro no mercado, o dinheiro não dá pra nada”, você primeiro valida. A dor dessa pessoa é real, e a conversa precisa de acolhimento. Depois, você apresenta o sonho concreto: a mesa cheia. Então, mostra como a decisão do voto afeta o amanhã: “A gente precisa de um governo que garanta o reajuste do salário acima da inflação todo ano, pra comida caber no bolso. O plano da equipe do Flávio Bolsonaro é acabar com esse aumento e deixar o salário sem ganho real. Se o preço do mercado sobe e o salário fica estacionado, a conta não fecha na nossa casa. Por isso, precisamos garantir esse direito”.
A eleição é o momento em que é possível abrir uma brecha na vida do cidadão comum para prestar atenção na política. É uma oportunidade para disputarmos uma visão de mundo, o sentido de ideais que foram capturados. Disputar corações e mentes. Oferecer a ideia do sonho e do acesso.
Mais de 33 milhões de brasileiros podem voltar a acreditar na política. Não acredito, humildemente, que viraremos esse jogo somente reproduzindo o pânico ou permanecendo fechados em bolhas de indignação.
É claro que essa responsabilidade não é individual e só nossa. Essa guinada exige também uma mudança de tom na própria campanha de Lula, mais corajosa e radical na proposição do futuro, falando diretamente às angústias materiais do povo. Nas ruas e nas redes. Há pesquisadores e militantes fazendo um trabalho sério, como o “Vira Voto”, “Coletivos Ecos da Democracia”, “Defesa do Brasil”. Mobilize-se.
A disputa está aberta, assim como o Brasil que queremos construir. Não acabou. É possível reencantar o futuro com pautas reais de mudança – e disputar cada voto. É desse espírito que precisamos agora.