O milagre já aconteceu

Lula não chegou até aqui por acaso. E sua trajetória política não foi construída em circunstâncias fáceis
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O cenário é difícil. A extrema direita avançou, terminou o primeiro turno à frente e Lula agora está diante de uma situação inédita desde a redemocratização: tentar vencer uma eleição presidencial depois de ter chegado em segundo lugar na primeira votação. Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foram pouco mais de 56 milhões de votos contra pouco menos de 54 milhões, uma diferença de 1,87 ponto percentual.

A história também pesa. Desde 1989, nenhum candidato que terminou o primeiro turno atrás conseguiu virar uma eleição presidencial no segundo. Em todas as disputas decididas em duas etapas desde a redemocratização, o primeiro colocado na votação inicial acabou vencendo. Lula, portanto, terá pela frente não apenas uma diferença de votos, mas uma barreira que nunca foi superada nas eleições presidenciais brasileiras.

Só que existe um risco em olhar para essa disputa apenas pela matemática. Lula não chegou até aqui por acaso. E sua trajetória política não foi construída em circunstâncias fáceis.

Aos 80 anos, ele acumula uma experiência que poucos políticos brasileiros tiveram a oportunidade de construir. Já disputou eleições presidenciais, já perdeu, já venceu. Já esteve no governo e na oposição. Conhece o Congresso, governadores, prefeitos, movimentos sociais e diferentes setores da economia. Já enfrentou crises políticas e econômicas e conhece, na prática, o peso das decisões que precisam ser tomadas por quem ocupa a Presidência da República.

É essa experiência que estará em jogo nesta campanha.

Lula conhece uma eleição presidencial porque passou décadas disputando eleições. Conhece o Brasil porque percorreu o país durante uma vida inteira de atividade política. E conhece o exercício do poder porque governou o país por dois mandatos, deixou a Presidência com altos índices de aprovação e voltou ao Palácio do Planalto anos depois de ter sido afastado da disputa eleitoral.

Talvez, por isso, a palavra mais adequada para falar da trajetória de Lula não seja milagre quando pensamos no que ainda está por acontecer. Milagre foi o que já aconteceu.

Foi o menino nascido em Garanhuns, em uma família pobre, atravessar a infância marcada pela fome e pela pobreza e chegar a São Paulo. Foi se tornar metalúrgico, entrar no movimento sindical e transformar-se em uma das principais lideranças das greves do ABC durante a ditadura militar. Foi ajudar a fundar o Partido dos Trabalhadores – o maior partido de esquerda do Ocidente – e construir, ao longo de décadas, uma das maiores forças políticas da história do país.

Também foi perder uma eleição presidencial, depois outra, depois outra, e continuar tentando. Até vencer em 2002, quando o operário que havia deixado Pernambuco décadas antes chegou ao Palácio do Planalto.

Depois vieram a reeleição e os dois mandatos. Lula deixou a Presidência em 2010, mas sua trajetória política ainda estava longe do fim.

Anos depois, veio a prisão. Lula passou 580 dias encarcerado e ficou impedido de disputar a eleição de 2018. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações da Lava Jato e restabeleceu seus direitos políticos. No ano seguinte, ele voltou a disputar a Presidência e derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno, numa eleição que terminou com uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos entre os dois candidatos.

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Índia pataxó Maria Flor Guerreira na vigília por Lula em Curitiba (Foto: Katna Baran/Folhapress)

Nova disputa, novas escolhas

É difícil olhar para essa sequência de acontecimentos sem perceber o tamanho da trajetória construída ao longo de mais de quatro décadas.

O menino pobre de Pernambuco virou operário. O operário virou sindicalista. O sindicalista virou dirigente partidário. O dirigente partidário virou candidato. O candidato derrotado várias vezes virou presidente. O ex-presidente tornou-se novamente candidato. O candidato que havia sido preso voltou às urnas e retornou ao Palácio do Planalto.

Nada disso aconteceu porque a história lhe ofereceu um caminho fácil.

É justamente por isso que o desafio de 2026 precisa ser analisado para além das estatísticas. Os números mostram a dificuldade da disputa e o avanço da extrema direita. A experiência mostra outra coisa: Lula conhece o terreno político que está atravessando.

Isso não significa que uma vitória esteja garantida. Não está. A vantagem do primeiro turno é concreta, assim como é concreto o crescimento da extrema direita e a necessidade de conquistar eleitores que escolheram outras candidaturas ou não compareceram às urnas.

Mas uma eleição não é uma repetição automática do primeiro turno. É uma nova disputa, com novas escolhas, novos debates e novos eleitores no centro da decisão.

E é aí que a trajetória de Lula volta a importar.

Ele não precisa descobrir como se tornar presidente. Já fez isso. Não precisa aprender como governar. Já governou. Não precisa imaginar o que significa enfrentar uma eleição nacional. Fez isso inúmeras vezes. O que está diante dele é outra batalha política, em circunstâncias particularmente difíceis, para a qual carrega uma experiência construída ao longo de uma vida inteira.

Por isso, talvez o milagre não seja aquilo que Lula precisa fazer agora.

O milagre já aconteceu.

Está na trajetória daquele menino de Garanhuns que chegou a São Paulo, entrou numa fábrica, descobriu a política no movimento sindical, ajudou a construir um partido, perdeu eleições, venceu outras, chegou à Presidência, deixou o poder, foi preso, recuperou os direitos políticos e voltou a governar o Brasil.

O que vier agora não será obra de um milagre, será na política. Será na disputa. E será, mais uma vez, com Lula vencendo uma eleição.

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