A terça-feira (8/9) transcorreu sob atmosfera pesada nos estúdios e nos escritórios executivos das Organizações Globo. No ar e online, em tempo real em todos os canais da empresa, que é a maior corporação de comunicação da América Latina, corria o incêndio na cena política e jurídica nacional provocado pela gasolina derramada e pelos fósforos riscados pelo ministro do STF, André Mendonça, ao destituir indevidamente o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o delegado Leandro Almada, diretor de inteligência da corporação. Internamente, o Conselho corporativo consolidava a série de avaliações de cenários eleitorais e de prognósticos econômicos que havia recebido nos dias anteriores.
Liderada por Paulo Marinho (filho de José Roberto Marinho, diretor-presidente do grupo) e por Roberto Marinho Neto (filho de Roberto Irineu Marinho e presidente da Globo Ventures), a terceira geração da família de Roberto Marinho adotava a estratégia empreendida por seus pais nas eleições de 2006, 2010 e 2022: tinham a certeza de que o PT as venceria, mas normalizaram a estultice da “falsa equivalência” entre os candidatos antagonistas ou forçaram a mão, sem dó e sem vergonha, nos canais de “jornalismo” (como na mentira deslavada que passou à história com a alcunha de “aloprados do PT”, de 2006) para forçar a ocorrência de segundos turnos naqueles três pleitos. A lógica estratégica era obrigar o presidente Lula (ou Dilma Roussef também, em 2010) a sentarem na mesa para negociar relações institucionais em melhores condições para os objetivos globais. Ao fazerem a síntese de todos os cenários traçados e com a pesquisa Quaest divulgada no 7 de setembro acendendo as luzes de alerta para a possibilidade de não reeleição presidencial, bateu a paúra entre os Marinho.
Ante as chances reais de o clã Bolsonaro voltar ao poder e diante da evidência de que a eleição presidencial de outubro deste ano se resolverá no primeiro turno – para um lado, Lula, ou para outro, oposição com Flávio Bolsonaro como repositório de todos os votos de direita e extrema direita – desencadeou-se um movimento de reposicionamento editorial dos programas jornalísticos da Globo. E dos profissionais também. Foi lembrado aos líderes de equipes jornalísticas e aos âncoras e comentaristas que há um desequilíbrio no noticiário e que não se pode tratar os atentados à Democracia e aos cofres públicos perpetrados na Era Trágica de Jair Bolsonaro com um senso – de todo incorreto – de “falsa equivalência” com o que ocorre nos últimos quatro anos. Com o país entregue ao clã Bolsonaro, as Organizações Globo enfrentaram o mais hostil ambiente de negócios de sua existência nas esferas pública e privada. O Jornal Nacional da terça-feira, 9 de setembro, quando um extenso bloco de notícias cobrava investigações sobre os desvios de recursos públicos para, supostamente, se financiar a hagiografia “Dark Horse” já refletia a guinada. A mudança de tom marcou toda a cobertura da quinta-feira, 10 de setembro, quando o ministro Flávio Dino determinou à Polícia Federal que detonasse a Operação Make Up, justamente para apurar desvios cometidos por meio dos negócios escusos feitos em torno do “docudrama”.