Suprema Corte é lugar para exibir e lustrar biografias, não para iniciá-las

Embate entre ministros do STF expõe politização, degradação moral e desfrute de lobby
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Na manhã da 5ª feira, 3/9, transcorridas apenas 24 horas desde que foi lançado um facho de luz para dentro dos porões do gabinete do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal, o magistrado catapultado à Corte das 11 togas mais poderosas da República apenas por ser alguém “terrivelmente evangélico” mandou que seus assessores divulgassem uma nota pública. Nela, anunciava que ele e a mulher deixavam a direção do Instituto Iter e repassavam para os outros sócios todas as cotas da instituição privada de ensino que o casal havia criado em 2023 à luz e semelhança do IDP, de Brasília, que tem o decano da Corte, Gilmar Mendes, como fundador, farol e bússola.

Foi nas dependências do Iter, em São Paulo, que Mendonça se encontrou com o banqueiro Daniel Vorcaro, em março de 2025, conforme revelado pelo repórter Paulo Motoryn no ICL Notícias um dia antes da divulgação da “nota pública”. A reunião entre os dois tinha sido agendada por Ciro Soares, um advogado especializado nos proverbiais “embargos auriculares”, que são uma espécie de senha preferencial para se ter acesso ao fabuloso mundo do lobby que nasce em Brasília e se espraia por todo o Brasil. Já ali, Vorcaro era um banqueiro investigado em diversos processos civis e criminais, alguns deles com autos tramitando no gabinete do próprio ministro Mendonça.

No processo de sondar o ministro do Supremo e abrir o coração adventista dele (os adventistas, em geral, são muito rigorosos nos julgamentos morais e ascetas no estilo de vida), Ciro Soares – advogado que, numa hora, chamava o chefe de “Dani”, em outra de “Vorcarinho” – conduziu André Mendonça até o ateliê paulistano do alfaiate de alta costura Vasco Vasconcelos. O terno mais barato produzido ali não sai por menos de R$ 9 mil. O preço médio das encomendas se situa em torno dos R$ 25 mil. Vasco só trabalha com tecidos importados, em geral italianos. Antes de comunicar ao povo brasileiro a ruptura da sociedade no Iter, André Mendonça expediu outro comunicado público para explicar a ida ao ateliê do alfaiate na companhia do advogado que trabalhava para o Banco Master: nem Ciro Soares nem Daniel Vorcaro haviam pagado pelo terno encomendado pelo ministro.

Humilhação se deu por uso político do STF

A situação em que se encontra André Mendonça é em tudo humilhante. Ministros da Corte Constitucional da República Federativa do Brasil não podem se revelar volúveis a ponto de cederem em suas convicções de hombridade, higidez moral e honorabilidade no flash das primeiras cobranças públicas por suas posturas processuais. Mais condenável ainda, agir assim poucas horas ou um par de dias depois de terem envergado a capa de um arremedo de super-herói metido a Ferrabrás. Na ação solerte contra o colega Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o “terrivelmente evangélico” agiu dessa forma.

Quando se comporta de tal maneira, impossível deixar de ironizar a consistência gelatinosa das convicções de Mendonça e concluir que… arregaçou. Sim: André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal guindado à Corte Constitucional por indicação do ex-presidente (agora presidiário) Jair Bolsonaro em 2021, pediu arrego muito facilmente no embate estabelecido por ele mesmo tendo o trio Moraes, Gonet e Andrei como antagonistas. Veio tão subitamente o pedido de arrego que logo se converteu em suspeição de uso político da estrutura do Judiciário – da mais alta Corte do Poder Judiciário – para uma agenda datada e ditada por agonias da oposição de extrema direita no curso de uma campanha eleitoral.

Passo a passo da exposição de erros de Moraes

A 3ª feira, 1º/9, amanheceu flagrando Brasília sob seca brava – 12% de umidade –, calor improvável para um inverno incomumente quente – 28ºC às 7h15min da manhã – e uma manchete no site Metrópoles (de propriedade do empresário Luiz Estevão de Oliveira, ex-detento da Papuda, onde cumpriu pena em razão de uma sentença por corrupção em contratos públicos): “Exclusivo: Mendonça pede à PGR informações sobre mensagem de Vorcaro a Moraes que cita ‘proteção’ de Gonet a Andrei”. Em sequência, três submanchetes tão explosivas quanto a principal e na mesma tônica.

O material havia sido vazado a partir de um relatório elaborado por procuradores da República que transitaram pelo ambiente lavajatista do Ministério Público. No dia 24/8, o ministro André Mendonça chamou a seu gabinete todas as pessoas que trabalhavam nas ações relatadas por ele que envolvem o Banco Master e determinou a confecção do relatório. Uma hora e trinta minutos após a entrega do dossiê com exclusividade para a publicação cujo CEO é um ex-detento da Papuda, Mendonça levantou o sigilo do documento, que terminou nas mãos de toda a imprensa. Estava decretado o início formal da Farra de Malhação a Moraes (e, por conseguinte, a Paulo Gonet, procurador-geral, e a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal).

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Alexandre de Moraes: supostas mensagens com Vorcaro no topo das manchetes (Foto: EBC)

Do papelório, extraem-se revelações vergonhosas e deprimentes contra o ministro Alexandre de Moraes, magistrado que, entre 2023 e 2025, dedicou-se com afinco à causa histórica e democraticamente republicana de sentenciar e encarcerar toda a camarilha golpista que tramou a intentona de 8 de janeiro de 2023. Antes disso, no pleito de 2022, Jair Bolsonaro foi apeado pelo voto popular da Presidência da República e se tornou o único presidente a não obter a reeleição, tendo-a disputado, desde que presidentes passaram a poder ser reeleitos no país (com a aprovação de emenda constitucional em 1996).

A mais incriminatória dessas revelações – logo depois confirmada pelo próprio Moraes e pela mulher dele, Viviane Barci de Moraes – foi a de que o ministro do STF revisou em seu computador pessoal e usando um pacote Microsoft Office 365® a minuta de contrato de honorários de R$ 132 milhões a serem pagos num período de três anos entre o Banco Master de Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane e dos filhos dela e de Moraes. Em apertada síntese, tornou-se público que um ministro do STF opinou e chancelou cláusulas de um contrato milionário de honorários advocatícios celebrado entre uma instituição financeira enrolada com a Justiça de diversas formas e sua família – a mulher e os filhos, Alexandre e Giuliana.

No rol de ilações imputativas levantadas no relatório emergencial mandado preparar por Mendonça com o objetivo organizar a zorra de denúncias contra o colega desafeto, Alexandre de Moraes, há suposta troca intensa de mensagens entre o ministro do STF e o agora ex-banqueiro preso na Papudinha (em Brasília). É necessário dizer “suposta troca” de mensagens porque os investigadores só conseguiram preservar e expor o que saía do celular de Daniel Vorcaro – as respostas que poderiam ter sido dadas por Moraes, caso tenha sido ele mesmo o interlocutor, eram de visualização única e não ficaram gravadas nos aplicativos de mensagens dos smartphones apreendidos. Caso sejam todas verdadeiras, são derrogatórias à moral de um magistrado e aos bons costumes que devem pautar o comportamento de qualquer juiz – sobretudo de um ministro da Corte Suprema de Justiça de uma nação do tamanho e da raiz democrática do Brasil.

A título de pagamento de honorários advocatícios por serviços prestados de forma obscura, Viviane Barci de Moraes ganhou o direito de usar cotas de até R$ 50 milhões de um jatinho e de um helicóptero da esquadrilha aérea do ex-banqueiro (toda ela agora arrestada para fazer face às dívidas do banco quebrado). Giuliana e Alexandre, os filhos do casal, advogados, receberam o direito de emitirem cartões “platinum VIP” do Master com limite de compras inusual de R$ 300 mil. Até poucas horas antes de ser preso, depreende-se pelas mensagens parcialmente preservadas, Vorcaro conversou com Alexandre de Moraes e até o consultou a partir de quando deveria estar fora do Brasil.

Avanços ilegais contra PGR e PF

Mensagens e diálogos que deixam o procurador-geral, Paulo Gustavo Gonet Branco, exposto de forma desconfortável também foram explicitadas no dossiê encomendado por Mendonça e vazado por pessoas próximas a ele. A favor de Gonet, fundamental salientar que o Ministério Público não aliviou para Vorcaro ou para o Master em momento algum no curso de toda a construção da ruína do ex-banqueiro e de seu ex-banco.

Mas o PGR também se deu ao desfrute indevido de abrir as portas para os “embargos auriculares” – puro suco de lobby brasiliense – do advogado fanfarrão e falastrão Ciro Soares, que surge em imagens do celular de Vorcaro em fotos na Praia do Forte com Soares, brindando com caipirinhas. A partir dali, o advogado construiu um enredo de intimidade com o procurador-geral a ponto de dizer ao chefe – o então banqueiro, que torrava uma grana inimaginável com uma vasta rede de contatos para se sentir “protegido” e imune aos venenos da capital da República – que Gonet “o amava”. Bazófia? Possível, muito provável. Porém, escarnecedor. A inclusão do filho do PGR, um advogado recém-formado, num clube de degustação de uísque do rótulo Macallan (escocês) é o que há de mais desabonador contra Gonet no relatório irregular de Mendonça. Pecado venial, não capital.

Beber uísque Macallan em quantidades de destilaria industrial é uma fissura do novo-riquismo brega de Brasília, mania que começou a explodir nos últimos anos a partir de seriados americanos em canais de streaming, sobretudo Suits (não por acaso, ambientado num escritório de advocacia). Independente da gravidade dos fatos, o procurador-geral foi enredado na teia de factoides absurdamente desconfortáveis para as instituições republicanas tecida pelos investigadores adestrados por André Mendonça.

Por fim, Andrei Rodrigues. O diretor-geral da Polícia Federal se converteu em desafeto figadal do ministro bolsonarista do Supremo quando se rebelou contra um comportamento atípico do magistrado. Ao contrário do que determina o rito processual das investigações, Mendonça quis escolher delegados e agentes que trabalhariam com ele nas ações do Master. Não pode. A regra é clara: juiz não investiga nem direciona investigações. O ex-juiz Sérgio Moro fez isso na Lava Jato: contava com uma rede de proteção na PF e no MPF, deu-se bem por um tempo, atingiu os objetivos políticos (juiz também não pode ter objetivos políticos) e, pouco depois, rolou ladeira abaixo no lodaçal do desprezo e da desconfiança públicos. Apesar do empenho de Mendonça e de seus comandados, o diretor-geral da PF saiu incólume da armadilha.

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Gonet: exposição desconfortável em dossiê encomendado por Mendonça (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Mendonça avançou todos os sinais prudenciais

“Manhãs cariocas, tardes brasilienses, noites paulistas. Essas são as três coisas que fazem a vida ter objetivo”, disse-me Orlando Brito, já um célebre fotojornalista brasileiro, no último dia de março de 1991, quando desembarquei em Brasília para fixar residência em razão de uma transferência profissional. “Se um dia você conseguir amanhecer tomando café no Hotel Glória, no Rio, almoçar no Piantella ou no Florentino, em Brasília, e terminar o dia jantando no La Tambouille ou no Massimo, em São Paulo, você será feliz e relevante para a República”.

Era a síntese do roteiro típico de quem detinha poder naquele Brasil que vivia uma transição feérica para a Democracia depois de 21 anos de ditadura, tinha promulgado uma Constituição apenas três anos antes e, em 1989, elegeu diretamente um presidente da República, tendo vencido o regime dos generais-ditadores. Brito talvez tenha sido o maior fotógrafo das cenas do poder no país entre o período de Castello Branco, o primeiro ditador escolhido na esteira do golpe de 1964, e os ataques iniciais de verborragia hidrofóbica de Jair Bolsonaro diante de seu rebanho de muares no chiqueirinho instalado diante do Palácio da Alvorada durante a Era Trágica brasileira (2019-2022).

Orlando Brito morreu de complicações de um câncer durante a pandemia por covid-19. Ensinou gerações a fio, sobretudo a minha, imediatamente posterior à dele, a ler os sinais exteriores de riqueza e de exacerbação da compreensão de seu lugar na geopolítica brasiliense entre os poderosos. Em 2019, nos primeiros meses do governo Bolsonaro, Brito procurou o então presidente (agora, presidiário) e o aconselhou a seguir o ritual histórico do poder. Cobrou de Jair Bolsonaro, uma figura em tudo decrépita e desagradável, antes mesmo da facada que lhe roubou a compostura e parte dos intestinos e de outros órgãos acomodados no abdômen, que se portasse com um mínimo de dignidade na Presidência.

Orlando Brito fez aquilo por amor à solenidade ritual da Democracia. Ele tinha vivido em Brasília, ainda adolescente, os anos JK, a renúncia súbita e tresloucada de Jânio Quadros, o conturbado período de Jango, os anos de chumbo da ditadura militar, os ventos da resistência democrática, as Diretas, Já!, a Constituinte, a transição de José Sarney, a eleição e o impeachment de Fernando Collor, a plenitude democrática de 1994-2016 com Fernando Henrique Cardoso, Lula 1 e 2, Dilma Rousseff 1 e 2, o golpe do impeachment sem crime de responsabilidade urdido pelo trio Michel Temer-Eduardo Cunha-Aécio Neves e, por fim, a o processo eleitoral assimétrico que guindou Bolsonaro e a extrema direita ao poder. Sabia do que falava. Tinha milhagem suficiente no observatório de crises republicanas para aconselhar açodados.

André Mendonça, o mais inseguro dos ministros do Supremo Tribunal Federal, agiu com açodamento ao longo dessas últimas semanas. Personagem pérfida que saiu das salas acanhadas da Advocacia Geral da União para envergar a toga Suprema a despeito de lhe faltarem credenciais maduras de trajetória jurídica, quis queimar etapas a fim de catalisar rapidamente o processo de construção de alguma biografia jurídica já sentado numa das 11 cadeiras do Supremo Tribunal Federal. Este, sim, é um pecado capital. O STF não é lugar para construir biografias. É, sim, a melhor das ribaltas para lustrá-las e dar a elas dimensão histórica. Tendo chegado lá com a credencial única de ser “terrivelmente evangélico”, bailou nas curvas do destino e pode ser vítima direta do abalroamento de egos que provocou na Corte.

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