Jacob Chansley ficou famoso em todo o mundo pela roupa que usava em 6 de janeiro de 2021 ao invadir o Capitólio: capuz de pele de animal adornado com chifres, torso nu e o rosto pintado com as cores da bandeira dos EUA. Ele acabou se transformando na principal imagem daquele dia e do movimento que abalou a democracia americana. Virou “O Viking do Capitólio”.
Hoje, ele confessa que está desiludido com o presidente Donald Trump. Em entrevista à revista Liberta, o americano – que vive em Phoenix – confirma a decepção de um segmento da população e aponta que duas das principais bandeiras da campanha do republicano não foram cumpridas.
A economia não decolou e continua abalando a vida do cidadão e, de outro lado, o atual chefe da Casa Branca não trouxe à tona todos os detalhes sobre os crimes de Jeffrey Epstein e nem levou os responsáveis à Justiça.
Em novembro de 2021, Jake – como é conhecido – foi condenado a 41 meses de prisão. Hoje, graças a um perdão do próprio Trump, ele e outras 1,4 mil pessoas que atacaram as instituições americanas estão livres.
O Viking, que se declarou culpado perante a Justiça, estava entre os primeiros a entrar no Capitólio. Em sua confissão perante a Corte, ele reconheceu ter usado um megafone para incitar a multidão. Em sua condenação, há ainda a referência ao fato de ele ter ocupado, no Senado, o lugar que o vice-presidente, Mike Pence, havia estado uma hora antes.
A invasão ocorreu no dia em que o Senado confirmaria a vitória de Biden e a pressão dos aliados mais radicais de Trump era para que Pence rompesse com a ordem constitucional, o que ele não fez.
Jake passou a tirar fotos de si mesmo na tribuna e se recusou a deixar o assento quando solicitado pela polícia. Em vez disso, ele declarou que “Mike Pence é um traidor maldito” e escreveu um bilhete ameaçador para o vice-presidente, dizendo: “É apenas uma questão de tempo. A justiça está chegando”.
Finalmente, quando foi perdoado por Trump, ele hesitou em declarar suas intenções. Nas redes sociais, há um ano, escreveu:
“OBRIGADO PRESIDENTE TRUMP!!! AGORA EU VOU COMPRAR ALGUMAS ARMAS DE FOGO!!!” “EU AMO ESTE PAÍS!!!”. “DEUS ABENÇOE A AMÉRICA!!!! Os J6ers (prisioneiros do 6 de janeiro) estão sendo libertados e a JUSTIÇA CHEGOU… TUDO o que foi feito no escuro virá à tona!”
Candidato desvinculado de Trump
Hoje, o tom não é mais o de euforia. Jake decidiu que irá concorrer às eleições legislativas do final do ano. Mas não pelo partido Republicano, de Trump. “Temos de colocar as pessoas certas no comando”, defendeu.
Sua escolha foi por se registrar como representante do Partido do Povo Americano, um nome inventado por ele mesmo. “Os cidadãos dos EUA não têm hoje nem representação e nem um partido”, alertou.
Jake diz que não se arrepende de ter trabalhado pela eleição de Trump. Mas emendou com uma explicação para sua frase: “Isso me mostrou como vivemos um sistema mentiroso”, afirmou.
“O que fico triste é por ver que dei meu amor, e cuspiram em mim”, acusou. “Eu estava tentando ajudar as pessoas. Mas eles só queriam cuidar de si mesmos”, afirmou, numa referência às elites políticas. “Trata-se de um sistema perverso”.
Questionado sobre como via a atuação de Trump, o Viking foi categórico. “O que você acha? Acha que eu estou feliz de ele não estar publicando os arquivos do Epstein?”, questionou.
Jake insiste que a decisão do presidente de arrastar o pé sobre o caso criou um profundo mal-estar entre a base de Trump. “O sistema inteiro está entrando em colapso. As pessoas querem saber quem são os autores dos crimes”, disse.
Para ele, “certamente” o volume de informações existente sobre Epstein é maior do que o que já se conhece hoje. “Estamos apenas tocando na superfície”, disse.
Em sua avaliação, a demora e a publicação incompleta têm um motivo: “Trump está nele (arquivo)”, disse. “E isso é parte do motivo de não querer publicar. Metade do Congresso está ali também. Eles não querem estar nas manchetes. Mas as crianças abusadas também não queriam estar”, alertou.
Sua forma de se referir ao presidente americano em nada se parecia ao período inicial do governo. “Trump é uma marionete”, disse. “Eu sei como o sistema opera. Se não estão prendendo pedófilos e dando um fim às redes de tráfico de menores, não fale merda alguma”, sugeriu.

Jake não está sozinho em sua irritação com Trump. Pesquisas revelam que o caso Epstein tem abalado sua popularidade. Em dezembro, a taxa de aprovação era de apenas 36%, a mais baixa já registrada pela Gallup. Nesta semana, a empresa anunciou que não faria mais pesquisas de opinião sobre o presidente.
Mas pesquisas realizadas nos EUA revelam que a perda de apoio também ocorre na base mais radical do trumpismo.
Um dos sinais é a queda de popularidade do presidente entre eleitores sem diploma universitário e entre os evangélicos, dois segmentos que, tradicionalmente, deram seu voto para Trump.
Segundo uma pesquisa da NBC News, a proporção de republicanos que se identificam com o movimento MAGA (Make America Great Again) caiu sete pontos percentuais desde abril de 2025. Em dezembro, apenas 50% dos republicanos disseram se identificar com o MAGA, em comparação com 57% no início do ano passado.
É a economia, estúpido
O caso de Epstein não é o único fator da desilusão. Em seu primeiro ano no poder, Trump viu um encolhimento de 70 mil postos de trabalho no setor industrial. A inflação caiu apenas de forma marginal e o poder de compra continua afetado.
“A economia não está melhor. Não, não, não”, insistiu Jake, lembrando que esse era um dos pilares da campanha de Trump em 2024. “O povo americano precisa ter três empregos para sobreviver. Não, cara, as coisas não estão indo bem”, alertou.
O Viking resumiu o primeiro ano de Trump, sem esconder sua decepção: “O povo americano está puto da vida”, disse. “A tensão na sociedade está crescendo”, afirmou.
Questionado se ele acha que esse cenário pode afetar os republicanos para as eleições legislativas, Jake lançou um alerta ainda mais assustador: “Quem disse que teremos eleições?”